Wikipédia aceita autores anônimos

Marion Strecker
De San Francisco, Califórnia

  • Lane Hartwell/ Wikimedia Foundation

    Jimmy Wales, o fundador da Wikipedia

    Jimmy Wales, o fundador da Wikipedia

A Wikipédia nasceu em 2001 e só existe por causa da internet. Os autores da Wikipédia não ganham um tostão nem são necessariamente especialistas naquilo que escrevem. Podem ser até anônimos.

Você também pode ser um redator (ou editor, como a fundação prefere chamar) e passar a escrever ou reescrever o verbete que quiser. Mas para isto terá de superar as dificuldades iniciais de usar o sistema.

Não é nada do outro mundo, mas no começo pode demorar um pouquinho, especialmente para aqueles que suam frio ao ver o código de uma página de internet, ou seja, quase todo mundo. Em compensação, pode-se pedir ajuda para um membro da comunidade wikipediana.

“Comunidade” é uma das palavras mais pronunciadas pelos membros da fundação e pelos milhares de voluntários. E facilitar a ferramenta de edição da enciclopédia é outra das metas da Wikimedia Foundation. O trabalho está em curso e informações sobre o protótipo da nova ferramenta estão aqui.

Em outras palavras, a Wikipédia é o oposto da Enciclopaedia Britannica, que sempre se orgulhou de seus ilustríssimos autores, entre os quais muitos ganhadores do Prêmio Nobel.

O slogan da Wikipédia é o seguinte: “Imagine um mundo em que cada pessoa do planeta tem acesso grátis à soma de todo o conhecimento humano.” Romântico? Mais que romântico. Idealista.

Wikipédia em números*

454 milhões de leitores no mundo
20,6 milhões de verbetes
13,6 bilhões de páginas vistas/mês
8.371 novos verbetes por dia
100 mil editores voluntários
282 idiomas usados
573.568 doadores
Doação média = US$ 40,10
Receita = + de US$ 23 milhões
* Dados da Wikimedia Foundation, do último ano fiscal americano (out/2010 a set/2011)

A ideia é que o conjunto de escrituras e reescrituras de cada verbete por diversos autores na internet produza um resultado minimamente consensual. E que o consenso geraria “imparcialidade”, o que seria melhor do que obter informação de um ponto de vista particular.

A Wikipédia, claro, também tem seus detratores. Alguns defendem que o conjunto de pontos de vista particulares e diferentes oferecem uma visão muito mais rica do mundo do que um consenso obrigatório, obtido às vezes pelo mero cansaço da discussão online.

Alguns, entre eles muitos jornalistas, contestam a possibilidade de existir uma “imparcialidade”. Todo ponto de vista é parcial. A busca de um consenso pode às vezes gerar textos anódinos, bizarros ou simplesmente mal escritos. Para fugir dessa sinuca, pode-se reunir pontos de vista diferentes sobre um mesmo fato. Alguns verbetes usam essa técnica de redação.

Outros, como o artista e cientista da computação Jaron Lanier, denunciam o “maoísmo digital”, que é o lado ruim do coletivismo e do entusiasmo acrítico da “sabedoria das multidões”. Aquelas mesmas multidões que são capazes de praticar linchamento, físico ou moral, sem pensar duas vezes. Lanier escreveu que o anonimato pode ajudar a liberar o lado obscuro da natureza humana, como a cultura do sadismo.

Sobre a Wikipédia, especificamente, ele escreveu que “é bom que agora a gente aproveite a concordância pop cooperativa”, mas diz que a Wikipédia ratifica o desprezo pela voz do indivíduo, mesmo que o indivíduo seja um especialista. A ideia de que o coletivo está mais perto da verdade tornaria as vozes individuais, inclusive a dos especialistas, em vozes eminentemente dispensáveis.

Confiabilidade
O fato é que o maior problema da Wikipédia continua a ser a confiabilidade das informações ali publicadas. Como qualquer um pode escrever, inclusive anônimos, é inevitável que erros bem ou mal intencionados sejam cometidos em alguma medida, difícil até de mensurar, dada a imensidão do trabalho que é feito diariamente ali por milhares de pessoas em tantos idiomas diferentes.

Se consultamos um mesmo verbete em idiomas distintos, podemos encontrar informações não só diferentes como eventualmente conflitantes.

A recomendação de educadores, como os da escola da minha filha, continua sendo consultar outras fontes.

  • Marion Strecker/UOL

    Sede da Wikimedia Foundation, no centro financeiro de San Francisco, Califórnia

A vantagem é que, ao se encontrar um erro na Wikipédia, é possível tentar corrigi-lo imediatamente. Só que isto é o que a maioria dos leitores, por falta de tempo, habilidade técnica ou preguiça, simplesmente não faz. E eventualmente a Wikipédia fica exposta ao ridículo. Por isso a necessidade urgente de facilitar o processo e estimular a participação.

Uma das providências que a Wikipédia tomou para evitar ser usada como mero instrumento de marketing empresarial foi impedir artigos de “editores pagos”, ou seja, de relações públicas ou outros funcionários do departamento de marketing das corporações.

Mas com isso, um marqueteiro que se identifica abertamente pode ser barrado, enquanto um marqueteiro anônimo pode conseguir passar. Phil Gomes, da Edelman Digital, é um dos profissionais de comunicação corporativa que lidera um movimento para mudar essa situação nos EUA. E o faz pelos próprios canais públicos da Wikimedia Foundation, além do Facebook e outros meios. Ele defende um “engajamento ético” por parte dos representantes das corporações. Mas quem pode garantir que todo engajamento será “ético”?

Projetos
A propósito, fóruns de discussão não faltam na Wikimedia Foundation e seus muitos projetos e inúmeros sites, sem uma navegação clara entre eles. É fácil se perder no labirinto de informações e links. É fácil não encontrar algo que supostamente existe ali. E pode-se passar a vida nesse mundo wiki, em que nada tem seu registro apagado e tudo se soma nos computadores centrais no Estado americano de Virgínia, onde trabalha um só funcionário, chamado Rob, já que quase tudo é feito remotamente.

Entre os projetos estão o MediaWiki (software usado pela fundação, seus voluntários e também por quem quiser para o que quiser), o Wiki Commons (onde se armazenam fotos, vídeos, ilustrações e arquivos sonoros que podem ser usados na Wikipédia), o Wikisource (coleção de documentos que caíram em domínio público), Wiktionary (dicionário), a Wikiversity (com textos didáticos e ferramentas educacionais), o Wikispecies (taxonomia de animais e plantas).

 

Tem ainda a Wikimania, a conferência oficial da Wikipédia e demais projetos da fundação, que a cada ano acontece num lugar ou país diferente. A próxima vai se dar de 12 a 15 de julho na George Washington University, em Washington DC, a capital dos EUA. Qualquer um pode se inscrever para assistir ou mesmo falar no que chama de encontro de “experts, entusiastas e curiosos”. Mais detalhes aqui.

O Wikispecies, assim como os dicionários, poderiam simplesmente fazer parte da Wikipédia, em vez de ser projetos separados. Um bom argumento é que a Wikipédia sozinha responde por cerca de 98% do tráfego dos sites da fundação, então qualquer coisa ali seria mais útil e lida do que qualquer coisa fora dali.

Discussões como essa que eu propus acima acontecem numa Torre de Babel chamada Wikimedia Meta-Wiki, onde se discutem detalhadamente todos os projetos da fundação. Essa “loucura” deixa os processos de decisão muito mais lentos, embora mais democráticos e transparentes, para quem tem o tempo de mergulhar ali.

Outro ponto a melhorar é a ferramenta de busca na Wikipédia. Está muito atrás da eficácia do Google, o que faz com que pessoas como eu prefiram buscar conteúdos da Wikipédia usando o Google, o que é bizarro.

Em português o problema é pior: não há sinonímia entre palavras acentuadas e palavras sem acento, gerando pesquisas com resultados vazios quando poderiam estar cheios, ou gerando criação duplicada de verbetes.



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