Leilão de centavos é confiável? Veja casos de quem se deu bem e mal nesses sites

Ana Ikeda
Do UOL, em São Paulo

  • Arte UOL

    Os sites de leilões de centavos tiveram seu auge há cerca de dois anos, mas muitos deles -- inclusive pioneiros no Brasil, já fecharam as portas. Entre as ofertas, tablets, carros e até casas já foram ''leiloados''

    Os sites de leilões de centavos tiveram seu auge há cerca de dois anos, mas muitos deles -- inclusive pioneiros no Brasil, já fecharam as portas. Entre as ofertas, tablets, carros e até casas já foram ''leiloados''

A oferta parece irresistível: dando lances centavo por centavo, você pode arrematar um produto que custa bem mais que isso – um tablet, um carro ou até uma casa. Os chamados sites de “leilões de centavos” acabam atraindo a atenção de usuários em busca de pechinchas, mas se revelam uma verdadeira aventura, que depende de sorte e muito dinheiro para gastar. Veja a seguir casos de quem “se deu bem e mal” nesses sites, se o serviço é legal ou não e o que dizem as empresas de leilão de centavos.

O que é?

Os sites de leilões de centavos tiveram seu auge há cerca de dois anos, mas muitos deles – inclusive pioneiros no Brasil – já fecharam as portas. Ainda assim, é possível encontrar em buscadores na internet dezenas de sites que oferecem esses leilões virtuais. Isso porque o modelo de negócio é simples: para cada produto ofertado, a empresa que mantém esses sites lucra (alto).

“A receita vem da compra dos lances, para nós cada centavo é, na verdade, um real”, explica Carlos Eduardo Mendes Barros, diretor de Marketing do Mukirana, que afirma ter 500 mil usuários no Brasil.

Por exemplo, um tablet que custa R$ 1.600 é arrematado por R$ 40. Embora cada lance custe R$ 0,01, o usuário é “obrigado” a comprar pacotes de lances, que partem de R$ 1 (100 lances). Assim, a empresa arrecada R$4.000, pois cada centavo de lance dado corresponde, no mínimo, a um pacote de R$ 1 vendido. No caso do Mukirana, são feitos até 20 leilões diferentes por dia. Sendo assim, essas empresas não necessitam negociar produtos a preços baixos com os fornecedores. O leilão já paga, de longe, o “investimento”.

Algumas empresas de leilão por centavos fazem uma verificação sobre a validade daquele arremate, para ver se as regras do site foram seguidas. “Verificamos a validade do CPF e IP do ganhador. Há ainda uma empresa terceirizada de auditoria, que entra em contato com alguns usuários que arrematam produtos”, explica Barros sobre a segurança do Mukirana.

É comum encontrar os chamados “robôs”, usuários que usam códigos de programação para dar lances automaticamente (e extremamente mais rápido que os “humanos”) nos leilões. “Infelizmente no Brasil essas tentativas de golpe são altas, bem mais do que em outros países onde também existem sites de leilões”, lamenta o executivo.

Cuidado

Antes de se aventurar nesses sites, a pessoa deve ter em mente que é preciso entender como esses leilões funcionam e quais são suas regras. “Não é só comprar lance, participar e ganhar”, alerta Artur Hizioka, 51, supervisor de produção e participante “veterano” de leilões online.

Antes de entrar no jogo, Hizioka explica que é importante se habituar com o ambiente e com a ferramenta. “Você pode ficar assistindo ao leilão, sem dar lances, para ver até que ponto podem chegar aquelas pessoas que estão ali tentando arrematar o produto”. Isso tanto em relação a quanto estão dispostos a investir – produtos mais caros tendem a exigir muito mais lances – como em relação ao tempo que vai durar aquele leilão – uma disputa pode acabar em uma hora ou demorar dias.

Novatos, prossegue Hizioka, precisam também saber de antemão que o mundo dos sites de leilões é marcado por rivalidade. “É comum você cruzar com os mesmos usuários nos leilões. Alguns ficam dando lance em cima de lance nos seus, o que pode irritar algumas pessoas”, diz.

Também é preciso ficar de olho no cronômetro, alerta Barros, no Mukirana. “Muitas pessoas esperam para dar lances nos últimos segundos e acabam perdendo por causa disso.” Fatores como a conexão de internet e o próprio sistema acabam interferindo para que aquele lance derradeiro não seja computado. 

Site fecha sem devolver dinheiro

Outro ponto a ser levado em consideração é que nem todas as empresas que oferecem esse sistema de compras são confiáveis, portanto é preciso verificar a idoneidade do site em que você está pensando em se cadastrar. Durante pesquisas, o UOL Tecnologia encontrou dois sites fora do ar: o BidShop, que está offline há cerca de quatro meses, e o Olho no Leilão, há nove meses indisponível.

No caso do Bidshop, há uma mensagem na página principal informando que o site “voltará com muitas novidades” em dez dias. “Todos os possuidores de créditos no site permanecerão com suas contas inalteradas”, diz a mensagem.

Já a página principal do Olho no Click simplesmente não abre. O UOL Tecnologia tentou contato com um dos sócios do site de leilões, por e-mail e redes sociais, mas não obteve retorno. O telefone de contato da empresa cai em um “ramal indisponível”. O site, criado em 2008, tinha cerca de 800 mil usuários.

  • Reprodução

    Página do site de leilões ''Olho no Click'' está indisponível

Antes de fazer cadastro nos leilões de centavos, é possível pesquisar reclamações sobre na própria internet e no Procon da sua cidade. Alguns fórum e blogs mantêm tópicos atualizados sobre usuários que usam robôs para dar lances e sites que não coíbem a prática. É o caso dos Vigilantes dos Leilões e do Auditor Digital.

Caso tenha problemas, o usuário pode tentar o registro da reclamação junto a órgãos de defesa do consumidor, mas é necessário que o site atenda às condições da legislação e nem sempre a interpretação é a de que a atividade é legal, veja abaixo.

Legalidade

Para o Procon-SP, os sites de leilões “vivem à margem da legislação”. Renan Ferraciolli, assessor-chefe do órgão, diz que “a ilegalidade marca todos esses fornecedores”. “Por se tratar de leilão, há a necessidade que haja um leiloeiro constituído na Junta Comercial da cidade. Outra questão é que por se tratar de uma competição, necessita de autorização prévia governamental”, ressalva Ferraciolli.

Já Renato Leite Monteiro, advogado do Opice Blum, escritório especializado em Direito Digital, existe outra interpretação para a atividade dos sites de leilões. O leilão de centavos seria, segundo o advogado, uma “modalidade diferente de compra”, diferente da que é exposta no Decreto nº 21.981/32, que regula a profissão de leiloeiro. “Esses sites desenvolvem uma atividade diferente da de um leilão tradicional. Não há um preço pré-determinado para o produto; o que você adquire é a compra de lances, e não o valor total em si daquele bem”, explica Monteiro.

Há também quem compare a atividade desses sites a jogos de azar, cuja exploração é uma contravenção penal. “Isso ocorreria se o arremate ou não em um leilão online dependesse exclusivamente da sorte, o que não ocorre. O usuário tem a chance de arrematar o produto caso seu lance seja o último dado dentro de um certo período de tempo; até que esse tempo acabe, outra pessoa poderá dar o lance. Nessa interpretação, sendo uma relação de consumo, os sites devem respeitar o Código de Defesa do Consumidor. 



Shopping UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos