As curiosas palavras e expressões criadas pelas redes sociais nos EUA

David Robson - Da BBC Future

  • hocus-focus

    Redes sociais dão origem a novas formas de linguagem

    Redes sociais dão origem a novas formas de linguagem

Já ouviu falar em baeless, rekt ou baeritto?

Os idiomas estão em constante movimento - à medida que novas palavras nascem, expressões mais antigas morrem. Mas de onde surgem os termos contemporâneos, e o que determina se eles vão sobreviver?

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Mapear as mudanças linguísticas já foi algum dia um trabalho extremamente demorado. Porém, uma análise recente de quase um bilhão de tuítes - apresentada na Conferência Internacional da Evolução da Linguagem (Evolang), em Torun, na Polônia, no dia 17 de abril - ofereceu um panorama sem precedentes sobre esse processo.

De acordo com o estudo, a maioria das palavras criadas recentemente nos Estados Unidos teria se originado em determinadas regiões do país, que estão influenciando o inglês americano por meio de sucessivas mudanças.

Novo vocabulário

Em comparação com os registros linguísticos históricos, os dados disponíveis online são surpreendentes. Como cada tuíte contém a data e hora da postagem, além da geocodificação, oferece informações precisas sobre quando e onde determinados termos foram introduzidos.

O pesquisador Jack Grieve, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, responsável pelo estudo, analisou mais de 980 milhões de tuítes no total - o equivalente a 8,9 bilhões de palavras. As postagens, publicadas entre outubro de 2013 e novembro de 2014, abrangem 3.075 dos 3.108 municípios dos EUA. Na época, mais de 20% dos americanos usavam o Twitter.

A partir do vasto banco de dados, Grieve identificou primeiro os termos que eram raramente utilizados no início do estudo (menos de uma vez por bilhão de palavras, no último trimestre de 2013), mas que cresceram constantemente em popularidade ao longo do ano seguinte.

Em seguida, ele filtrou uma lista de nomes próprios (como Timehop) e que apareciam em anúncios comerciais. E também removeu qualquer palavra que já constava no Dicionário Merriam-Webster. Acrônimos (siglas), no entanto, foram incluídos.

O resultado foi uma lista de 54 expressões, que fazem referência aos mais variados temas: de relacionamentos (como baeless, sinônimo para solteiro ou solteira) à aparência das pessoas (gainz, que descreve o aumento da massa muscular) e tecnologia (celfie, grafia alternativa para selfie).

Outras refletem a influência da cultura japonesa (como senpai, que significa professor ou mestre). Ou representam sentimentos genéricos, como litt ou litty (que quer dizer impressionante ou bom), além de interjeições, como yaaaas (uma versão para yes, ou "sim").

Curiosamente, alguns termos, como candids (substantivo que descreve fotos tiradas sem o conhecimento de outra pessoa), existem há anos, mas eram extremamente incomuns até o aumento súbito de popularidade.

Após compilar o novo vocabulário, Grieve usou os dados geocodificados do Twitter para rastrear a origem de cada postagem e sua respectiva propagação pelos EUA. A expressão baeless, por exemplo, começou a ser usada em alguns condados do sul do país, antes de virar moda e se espalhar para norte e oeste.

No total, Grieve identificou geograficamente cinco centros influenciadores da mudança linguística no país. Em ordem de importância, são eles:

Costa Oeste

Com cidades como Los Angeles, São Francisco, San Diego e Las Vegas, a Costa Oeste lançou conceitos como cosplay (vestir fantasias de personagens de séries, filmes, quadrinhos ou videogames), jargões técnicos, como faved ("favorito"), e linguagens de games, a exemplo de rekt (derrotado).

Em geral, as expressões que nascem nessa região são disseminadas por toda parte - e frequentemente adotadas por moradores do nordeste do país.

Termos em destaque: amirite (junção de "am I right?", que seria "estou certo?"); baeritto (alguém que você gostaria de envolver com seus braços como um burrito); figgity (intoxicado); slayin (ótima aparência) e waifu (esposa).

Sul Profundo

Grieve identificou três epicentros distintos no sul do país, que foram responsáveis por grande parte da inovação lexical no Twitter. O principal está localizado na área metropolitana de Atlanta.

Segundo o pesquisador, pode ser resultado da forte presença da cultura afro-americana na região, que estaria diversificando o mundo digital com suas expressões.

Termos em destaque: baeless (solteiro); boolin' (esfriar), famo (família e amigo); traphouse (lugar que vende drogas).

Nordeste

Com alta densidade demográfica, não é de se espantar que Nova York seja um centro de inovação linguística. Mas, surpreendentemente, as palavras que nascem na região não têm um amplo alcance geográfico e acabam se limitando aos estados vizinhos. Curiosamente, no entanto, os nova-iorquinos sempre seguiriam as tendências da Costa Oeste e vice-versa.

Termos em destaque: balayage (um estilo de cabelo); litt ou litty (bom); lituation (junção de "litt" com "situation", que seria uma situação boa).

Médio Atlântico

A segunda região do sul do país que desponta na pesquisa como um dos focos da difusão, está centralizada em Washington DC e Baltimore, e vai até a Virgínia. Mais uma vez, a criatividade foi observada mais intensamente nas áreas em que há alta densidade de populações afro-americanas.

Termos em destaque: on fleek (no ponto / estilo impecável); shordy (pequeno); wce (acrônimo para "woman crush everyday" - mulher por quem tenho uma queda todo dia).

Costa do Golfo

O terceiro (e último) epicentro do sul do país a aparecer na análise de Grieve é um conglomerado localizado nos arredores de Nova Orleans, que se estende por toda a Louisiana, em direção ao leste e litoral do Texas, ao longo do Mississippi até Memphis.

Uma das contribuições mais conhecidas da região - idgt (acrônimo para "I don't get tired", que pode ser traduzido como "não me canso") - virou bordão do rapper Kevin Gates, que cresceu em Baton Rouge, capital do Estado da Louisiana, e lançou um single com o mesmo nome em 2014.

Termos em destaque: bruuh (cara/mano): idgt (não me canso); lordt ("oh Lord", que seria "oh, Deus")

Grieve diz que ficou surpreso com os resultados. De acordo com a teoria linguística, era de se esperar que novas palavras surgissem nas áreas com maior densidade populacional - o que não explica toda a variação encontrada. Os dados obtidos confirmam que a importância cultural (e linguística) de uma região é apenas ligeiramente relacionada ao seu tamanho.

Na última parte do estudo, o pesquisador examinou as características dos novos termos e as razões pelas quais eles prosperam. Um dos indicadores é a extensão da palavra - em geral, preferimos expressões mais curtas e acrônimos que sejam mais fáceis de ler e digitar.

E da mesma forma que os seres vivos são mais propensos a se reproduzir em ecossistemas com poucas espécies competidoras, as expressões mais populares também tendem a ocupar seu próprio "nicho semântico": quando definem um conceito inteiramente novo, sem sinônimo direto.

Balayage, por exemplo, que descreve um estilo de cabelo muito específico, apresentou um desempenho melhor do que baeless (solteiro), que compete com o termo já existente single.

Além dos resultados apresentados, o estudo de Grieve marca a validação de um método. E, como disse o pesquisador na Evolang, essa pode ser a primeira de muitas análises a investigar a vida virtual das palavras.

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