Carro inteligente é fundamental para aumentar lucro da Uber? Não é bem assim...

Alex Webb

  • Foto: Angelo Merendino / AFP

A Uber Technologies suspendeu seu programa de carros autônomos, na semana passada, depois que um veículo de testes matou uma pedestre no Arizona. O acidente está sendo investigado.

Mas, mesmo sem os riscos de segurança e os dilemas éticos apresentados pelos carros autônomos, há motivos sólidos para a Uber abandonar de vez o plano de desenvolver ou comprar frotas próprias de veículos autônomos.

Há muito tempo os defensores da Uber seguem o princípio de que os carros autônomos são essenciais para o modelo de negócio. Atualmente, a parte da Uber representa cerca de um quarto da tarifa total cobrada pelo motorista. Elimine o motorista, trocando-o por um táxi-robô da Uber, e, segundo essa lógica, a receita líquida subirá.

Mas a tese não se encaixa perfeitamente ao nirvana da escassez de ativos buscado pela maioria dos pioneiros do Vale do Silício. A Uber e seus pares teriam que gastar uma quantia impressionante de dinheiro se quisessem colocar frotas autônomas próprias nas ruas.

A Boston Consulting Group estima que um carro autônomo e elétrico custará cerca de US$ 34 mil até 2030.

Para conseguir economias de escala suficientes para tornar a carona compartilhada autônoma o mais rentável possível, acrescenta, os EUA precisariam ter nove milhões de veículos do tipo nas ruas. O gasto equivaleria a US$ 306 bilhões para as empresas de carona compartilhada.

Este é obviamente um cálculo bastante grosseiro feito para ilustrar um ponto (talvez a Uber possa reduzir o custo se desenvolver seus próprios carros ou elaborar um software excelente que possa ser vendido a outras empresas). Mas se a empresa garantir uma participação de mercado de 50%, o custo dos veículos necessários pode ser de cerca de US$ 150 bilhões.

Mesmo dividindo o total por mais de 10 anos para construção da frota, trata-se de um gasto monumental para uma empresa que já enfrenta profundos prejuízos -- cerca de US$ 4,5 bilhões no ano passado, com vendas de US$ 7,5 bilhões.

Este provavelmente não é o tipo de coisa que o novo CEO, Dara Khosrowshahi, gostaria de mostrar aos investidores diante dos planos de realizar uma oferta pública inicial no ano que vem.

Então, por que o incômodo?

A Uber criou uma marca e um domínio notáveis em muitos mercados mantendo-se o mais enxuta possível, o que inclui a resistência determinada da empresa a tratar os motoristas como funcionários. Por que a Uber desejaria o incômodo de possuir, manter e atualizar uma frota?

Empresas com bolsos muito mais cheios (não apenas a Alphabet e a Apple, mas também fabricantes de veículos como General Motors e Daimler) estão investindo bilhões de dólares em projetos de carros autônomos. Mas quando a tecnologia passar a ser dominante, será uma commodity.

Khosrowshahi deveria, em vez disso, usar os preciosos dólares da Uber para garantir participação de mercado na América do Norte e na Europa. A empresa pode ser o mercado que conecta frotas de carros autônomos com passageiros, da mesma forma que conecta os motoristas hoje.

A posse e a operação das frotas de táxis-robôs podem ser deixadas para as fabricantes de veículos, para empresas de locação como Hertz Global Holdings e Avis Budget Group ou para qualquer outro negócio empreendedor. Outra vantagem é que as fabricantes de veículos estabelecidas não precisam necessariamente perder. A Uber ainda pode desfrutar de melhores lucros (ou lucro, pelo menos), mas sem o ônus dos ativos caros.

Khosrowshahi deveria pisar no freio em relação ao empreendimento dos táxis-robôs da Uber.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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