Ativistas chineses do #metoo usam blockchain contra censura

Keith Zhai e Lulu Yilun Chen

Da Bloomberg

  • iStock

Os ativistas estudantis que estão tentando iniciar o movimento #MeToo na China recorreram à tecnologia que baseia o bitcoin para combater a censura do governo.

A rara exibição de discordância surgiu depois que a estudante Yue Xin acusou a prestigiosa Universidade de Pequim de tentar silenciar seus pedidos para falar publicamente sobre um episódio de assédio sexual ocorrido há mais de 20 anos.

VEJA TAMBÉM:

Embora ela não tenha tido envolvimento no antigo incidente, as autoridades da faculdade tentaram intimidá-la e calá-la, escreveu Yue em carta aberta, na segunda-feira (23). A universidade a obrigou a deletar as informações sobre o caso e pediu aos pais dela que a confinassem em casa, escreveu a estudante de graduação.

A carta aberta de Yue provocou reações em um país que lida há tempos com a discriminação de gênero endêmica longe dos holofotes públicos e onde o movimento #MeToo tem sido suprimido.

É também um protesto incomum contra uma autoridade, particularmente se se considera que a Universidade de Pequim é, há décadas, a alma mater de altos funcionários do Partido Comunista, inclusive do primeiro-ministro Li Keqiang. A carta viralizou em plataformas como WeChat, da Tencent Holdings, e Weibo, da Sina, mas as postagens relacionadas foram rapidamente excluídas.

Foi então que os apoiadores dela colocaram o comunicado no blockchain do ethereum, na segunda-feira -- o que garante que nunca poderá ser apagado ou adulterado.

Um usuário anônimo anexou a carta de Yue a uma transação com ether e a postou no blockchain, o livro-razão descentralizado que registra todas as atividades da criptomoeda.

A transação custou a quem postou um total de 52 centavos de dólar, segundo o registro. Embora qualquer pessoa com acesso a um node (ou "nó") do ethereum possa ver o comunicado, o público geral não terá tanta facilidade, a menos que alguém copie a mensagem do livro-razão e a republique na web. Mesmo assim, as autoridades chinesas poderiam facilmente bloquear o site.

"É simbólico, mas a ação não será adotada facilmente pela massa", disse Isaac Mao, um empreendedor de São Francisco que está construindo uma plataforma de mídia que usa tecnologia blockchain para combater a censura.

"A mídia descentralizada ainda tem quilômetros a percorrer. Mas isso dá novas esperanças às pessoas."

Os usuários adotaram outros métodos criativos para enganar os órgãos de vigilância: distorcer a imagem da carta (para driblar o software de reconhecimento de objetos) ou deixá-la de cabeça para baixo.

Cartazes com demonstrações de apoio apareceram pelo campus. A Universidade de Pequim publicou um comunicado em seu website na segunda-feira afirmando que "sempre respeitou os direitos básicos de todos os estudantes e que se esforça para proteger os direitos e interesses legítimos de todos os estudantes".

"Este é o maior incidente em mais de 10 anos em que os estudantes decidiram pedir às autoridades um esforço maior para aumentar a transparência", disse Du Guang, ex-pesquisador da Central Party School, um think-tank do governo com sede em Pequim. "Este incidente me lembra os movimentos estudantis do início da era comunista."

Mas é o método do blockchain que garante um registro indelével.

"Não há 404, é permanente", diz uma resposta postada no blockchain, em referência ao código de erro que evidencia uma página web faltante e que normalmente aparece quando os censores chineses excluem informações consideradas inadequadas.

Moeda virtual começa a ganhar espaço fora do Brasil

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber as principais notícias do dia de graça pelo Facebook Messenger? Clique aqui e siga as instruções.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos