Atual panorama da tecnologia é prenúncio do "apocalipse dos gadgets"

Farhad Manjoo

  • Reprodução/Gizmodo

    Smartwatch Pebble; empresa foi vendida para a Fitbit

    Smartwatch Pebble; empresa foi vendida para a Fitbit

Lembra-se dos gadgets?

Eram pequenas coisas eletrônicas que faziam coisas para você. Tocavam música ou gravavam vídeos, davam-lhe instruções, ou permitiam que você jogasse no trem ou no ônibus. Eram divertidos. Todo mundo os tinha. Todo mundo os queria. Havia revistas inteiras e sites na web e até programas de TV dedicados a eles.

Durante 30 ou 40 anos, passando por recessões e guerras, por estabilidade e revoluções, eles sempre estiveram aí, um após outro, de rádios transistores a TRS-80s, Walkmen e Gameboys, depois iPods e Flips, GoPros e Fitbits. Tínhamos certeza de que os gadgets sempre estariam entre nós, porque eles sempre estiveram entre nós, e isso era bom.

Mas não. O inverno está chegando para os gadgets. Ou talvez o inverno dos gadgets já tenha chegado. Para qualquer lugar que você olhe, hoje em dia, os gadgets parecem náufragos. A Pebble, que fabrica relógios inteligentes, foi comprada pela Fitbit, que já teve seus problemas. A GoPro pode estar falindo, enquanto a Jawbone, a Nest e outros membros da aristocracia dos gadgets parecem acabadas.

O que aconteceu com os gadgets? É uma história fascinante sobre progresso tecnológico, internacionalização da indústria e mudança de preferências do consumidor, e tudo acaba em uma triste conclusão: as empresas de gadgets hoje têm mais dificuldade que nunca para decolar.

A era dos gadgets terminou, e mesmo que isso seja uma espécie de progresso, porque hoje o software preenche muitas de nossas necessidades, o grande apocalipse dos gadgets deverá tornar o mundo tecnológico e a nossa vida um pouco menos divertidos.

As coisas nunca foram fáceis para os gadgets. A vida deles sempre foi suja, brutal e curta. Em um ano um gadget seria imprescindível e no seguinte, notícia velha. Mas esse era o ciclo, e estava bem assim, porque sempre haveria outro gadget.

Então as coisas pioraram. De repente, do nada, a Coisa Que Faz Tudo surgiu em Cupertino, na Califórnia. Faz quase dez anos. Você sabe do que estou falando: do iPhone. Sabíamos que a Coisa seria grande, mas não sabíamos que seria tão grande. Quando a Coisa ameaçou comer todos os gadgets, ninguém pensou que isso realmente aconteceria. Ainda tínhamos a esperança de que alguns gadgets continuariam por aí.

E durante algum tempo eles continuaram, até parecendo que teríamos um renascimento dos gadgets. "Os gadgets voltaram", disse "The Verge". As pessoas criaram sites onde os clientes pagavam para ter gadgets que nem tinham sido criados ainda. Chamavam isso de Kickstarter. Você quer um gadget? Pague a alguém para fazer um! Que mundo!

As pessoas começaram a fazer gadgets que você podia vestir. Gadgets para sua casa, para controlar o aquecimento e o ar-condicionado, para ajudá-lo a dormir. Imagine isso! Um gadget para quando você nem estivesse acordado. Que mundo! Havia até gadgets que faziam outros gadgets. E isso nem tinha chegado aos gadgets capazes de voar.

Mas hoje as companhias que fazem gadgets voadores estão caindo de volta à terra. Veja a 3D Robotics, a empresa fundada por Chris Anderson, o ex-editor da "Wired", que captou US$ 100 milhões para iniciar uma companhia de drones ao consumidor que acabou não vendendo muitos drones.

Os gadgets que fazem outros gadgets também não estão mais fazendo: a MakerBot, uma startup muito falada que visava deflagrar uma revolução de consumo em 3D, fracassou espetacularmente em fazer as pessoas imprimirem em casa.

Os gadgets que saíram rapidamente da Kickstarter também pararam de repente. A Pebble, cujo primeiro relógio inteligente ganhou um dinheiro recorde no site de crowdfunding, não teve sucesso duradouro em uma categoria que logo seria superada por grandes companhias como Apple e Samsung. (Mesmo outras grandes empresas tiveram problemas aqui; o relógio Basis da Intel foi cancelado depois que queimou vários usuários.) Muitas outras startups levantaram grandes somas em fundos de crowdfunding, mas com frequência os produtos foram entregues tarde e não funcionaram tão bem quanto deveriam. Mesmo que tudo saia como planejado com o primeiro gadget, as companhias deixam de traduzir o sucesso inicial em estabilidade em longo prazo.

Grande parte disso não é surpresa. "Hardware é duro" é uma frase real que as pessoas no Vale do Silício dizem para parecer inteligentes. O que elas querem dizer é que começar uma empresa que faz coisas físicas sempre foi mais arriscado do que começar uma empresa que faz apenas código.

É por isso que o mercado de hardware foi recentemente dominado por grandes companhias, ou como empresas individuais para algumas como Apple e Samsung, ou como uma espécie de ajuda para outros serviços. A Amazon faz dispositivos como o Kindle e o Echo como um acelerador para seus negócios de conteúdo e seu programa de assinaturas Prime. A Google e a Microsoft parecem mais sérias sobre hardware, e ambas podem transformar dispositivos em boas empresas colaterais. Mas nenhuma vê o hardware como principal fonte de renda; os dispositivos são principalmente maneiras de nos levar a usar mais seus softwares.

Para as startups, neste dias de fácil fabricação terceirizada na China, os gadgets envolvem muitos custos --você precisa de dinheiro para peças e uma fábrica, remessa e distribuição, e precisa que virtualmente tudo corra com perfeição, porque se seu primeiro gadget for um fracasso ou tiver algum problema fatal você não terá muito dinheiro para fazer um segundo. E mesmo que seu gadget seja um sucesso não vai durar muito. A economia dos gadgets é dirigida por sucessos --você só é tão bom quanto sua próxima grande coisa.

E quando você tem um sucesso é atacado pelas cópias baratas. Pouco antes de eu viajar ao Havaí no ano passado, pensei que seria divertido levar uma câmera GoPro para registrar algumas façanhas submarinas. Mas quando pesquisei na Amazon.com notei uma tonelada de "câmeras de ação" genéricas que tinham muitas especificações iguais às da GoPro, com um grande desconto no preço. Acabei comprando uma SJCAM por US$ 75, aproximadamente a metade do preço da GoPro mais barata que encontrei. E sabe o quê? Funcionou muito bem.

Essa é a bênção mista da manufatura mais barata.

"De algumas maneiras é muito mais fácil ser uma startup de hardware do que já foi, porque o ecossistema de Shenzhen lhe dá todos os componentes de que você precisa", disse Jan Dawson, um analista da Jackdaw Research, referindo-se ao polo industrial no sul da China. "Mas aquele mesmo ecossistema está disponível para todo mundo, por isso conseguir se destacar é realmente difícil."

Você poderia alegar que a SJCAM que eu comprei não tinha algumas das qualidades mais sutis da GoPro. Seu software não era ótimo, e ela não oferecia apoio ao cliente. Se eu fosse um entusiasta dos esportes, talvez me importasse com essas deficiências. Durante anos, afinal, a GoPro conseguiu se sair muito bem com seu público-nicho de pessoas que andam de bicicleta na neve enquanto bebem Mountain Dew, ou seja o que for que fazem os Xtremes. Outros fabricantes aproveitaram outros nichos --há gadgets para corrida, trilhas, caminhada e vários outros esportes.

Mas Dawson notou que eventualmente essas empresas atingem o limite de seu nicho natural. Todo fã de esportes já tem uma GoPro --e é aí que começam os problemas. Porque eu sou mais um fã radical do Twitter do que de esportes, e como para mim todo gadget é essencialmente apenas um acessório para meu smartphone, os mais baratos geralmente atendem aos meus objetivos. Esse provável também é o seu caso.

Há uma coisa triste nisso. O mercado de gadgets é o grande laboratório da nova tecnologia. As startups de gadgets alimentam todo o ecossistema tecnológico com novas ideias. É graças à Pebble que vimos a demanda latente por relógios inteligentes, e graças à GoPro percebemos que as pessoas realmente queriam fazer vídeos de si mesmas plantando bananeira embaixo da água. Teríamos o iPod se um bando de startups no final dos anos 1990 não tivesse enfrentado dificuldades legais para criar tocadores de MP3 portáteis?

Hoje a riqueza dos gadgets para startups não é mais um ingrediente habitual do setor tecnológico. O dinheiro está em encontrar maneiras de vender coisas antigas com nova tecnologia --qual é a melhor maneira de entregar colchões por meio de um aplicativo?

Mas coisas novas? Coisas que ainda não vimos? Gadgets? Eles acabaram.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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