Bitcoin pode virar dinheiro 'vivo'; veja quem aposta na moeda virtual

Ana Ikeda

Do UOL, em São Paulo

Apesar de ser uma moeda virtual, o bitcoin está fazendo com que pessoas ganhem dinheiro de verdade com ele. Empresas que trocam bytes por reais já operam no Brasil e fazem crescer o número de especuladores – gente que lucra com a compra e venda dos bitcoins quando variam de preço. Há ainda quem troque serviços pela moeda virtual para fugir das taxas cobradas por bancos e agilizar pagamentos. Veja abaixo alguns exemplos:

Startups de compra e venda de bitcoins
Embora rejeitem o rótulo de "casas de câmbio", o serviço oferecido por essas startups tem funcionamento semelhante ao de empresas que trocam moeda nacional por estrangeira (e vice-versa). A diferença é que os bitcoins não têm um emissor centralizado (como o Banco Central, por exemplo). Além disso, o que chamamos de "cotação" da moeda, na verdade, é uma variação de preço baseada na sua compra e venda com um dinâmica semelhante à das ações em uma Bolsa de Valores. 

Divulgação
André Luiz Horta, diretor-executivo da Bitcoin to You, explica que a empresa é uma ''intermediária'' para compra e venda de bitcoins

André Luiz Pereira, 30, diretor-executivo da Bitcoin to You, explica que a empresa é uma "intermediária" para compra e venda de bitcoins. A startup lucra com a cobrança de comissões nessas transações como uma corretora de valores. Na cotação da sexta-feira (14), um bitcoin valia aproximadamente R$ 1.550.

Quem faz depósitos (transforma reais em bitcoins) ou saques (bitcoins em reais) paga 1,65% sobre o valor à empresa. Por exemplo, quem deposita R$ 100 paga R$ 1,65 à startup e fica com R$ 98,35 de saldo na conta "virtual". Apesar de o bitcoin não ser regulamentado por instituições financeiras, essas operações envolvem, necessariamente, um banco. Outra startup, a Mercado Bitcoin, cobra 1,99% sobre o valor, além de R$ 2,90.

No caso da Bitcoin to You, os depósitos podem ser feitos na boca do caixa, envelope no caixa eletrônico e transferência pelo internet banking. Os "saques" são creditados pela startup na conta bancária do cliente.

Com essa conta "virtual" aberta, a pessoa pode negociar bitcoins – essa operação não envolve bancos. A comissão cobrada pela Bitcoin to You é de 0,6% sobre o valor da ordem de compra ou venda. A Mercado Bitcoin cobra 0,3% para ordem executada ou 0,7% para ordem executora.

A Bitcoin to You afirma movimentar o equivalente a cerca de R$ 1 milhão por mês. Outra startup, a Mercado Bitcoin, afirma negociar aproximadamente R$ 10 milhões por mês. Tanto a Bitcoin to You como a Mercado Bitcoin afirmam possuir CNPJ e emitir nota fiscal (ou seja, recolhem impostos).

"Apesar de lidarmos com uma moeda eletrônica, seguimos as leis do país e não há informalidade em nenhum momento do processo", enfatiza Pereira.

Especuladores
A grande variação de valor do bitcoin tem despertado o interesse de "especuladores" na moeda virtual. Para isso, é preciso criar uma conta junto a uma empresa de corretagem de bitcoins, que exigem que o cliente informe RG, CPF e comprovante de endereço.

"É muito tentador, por exemplo, comprar bitcoins por R$ 20 e depois vender por R$ 50. É similar a ações na Bolsa de Valores. A maioria dos clientes compra bitcoins 'na baixa' e vende 'na alta'", explica Pereira.

Arquivo pessoal
Dênis Maapelli, 35, diz ter investido R$ 50 em bitcoins, que viraram R$ 250 com a compra e venda da moeda

Foi o que fez Dênis Maapelli, 35, "cartomante online" em Porto Alegre (RS). Ele conheceu a moeda virtual em uma reportagem na internet e decidiu investir em bitcoins, depois de observar sua variação e risco.

"Em três dias que acompanhei a 'cotação' da moeda, notei que havia de 10 a 20% de valorização em 24 horas", conta. Ele então comprou o equivalente a R$ 50 em bitcoins para aplicar. "Vendia tudo de noite [no preço alto] e, depois, comprava de volta de manhã [no baixo]. Então, meus R$ 50 viraram R$ 250."

O problema é que essa flutuação de preço nem sempre é "para o bem". Em dezembro, quando o governo da China alertou as instituições financeiras do país para que não aceitassem o bitcoin, a moeda virtual sofreu uma grande desvalorização. O valor, que chegou a ser de R$ 3.500, despencou para R$ 1.500, preço que vem mantendo desde então. Além disso, ataques hackers a grandes corretoras de bitcoins também colaboram para a queda do preço.

Apesar de ter conseguido quintuplicar o investimento inicial, Maapelli conseguiu isso justamente antes da queda brusca do valor dos bitcoins. "Hoje mantenho duas carteiras, uma para investir e outra para receber pagamentos de clientes", diz. Assim, uma parte dos bitcoins fica "parada", como se fosse uma poupança.

Reprodução
Página do Mercado Bitcoin informa o preço da moeda em reais e o gráfico de variação do valor nos últimos cinco dias

Pereira, da Bitcoin to You, recomenda cautela a quem pretende entrar no mercado de bitcoins. "Estude a respeito do investimento antes e use um dinheiro do qual não vá precisar em curto prazo. É preciso ter a mesma atenção que a dada a um investimento em bolsa ou imóveis", compara.

Além disso, segundo Rodrigo Batista, 33, diretor-executivo da Mercado Bitcoin, há o entendimento de que os clientes devem pagar impostos (por meio da declaração anual à Receita Federal) sobre os ganhos de capital que auferem quando vendem os Bitcoins.

Serviços pagos em bitcoins
Outra forma de ganhar com o bitcoin é ser pago na moeda virtual, seja vendendo um produto ou serviço. Depois, com os bitcoins na "carteira", seu dono pode resgatá-las em moeda corrente, aplicá-las ou trocar por outros produtos e serviços, como faria com dinheiro vivo.

A quantidade de estabelecimentos comerciais que aceita bitcoins em pagamentos ainda é pequena. No Brasil, eles são apenas 38 e a maioria deles está no Sudeste, de acordo com o site Coin Map, que traça um mapa colaborativo com esses locais. Em geral, a opção é oferecida por entusiastas da moeda virtual – pessoas que compram a moeda e decidem aceitá-la em pagamentos nos seus próprios empreendimentos.

Arquivo pessoal
Ivan Liborio, advogado especializado em direito internacional que mantém um escritório em Angra dos Reis (RJ), aceita pagamento de honorários em bitcoins

Um dos casos, citado anteriormente, é o do cartomante Dênis Maapelli. "Passei a aceitar pagamentos em Bitcoin porque às vezes um cliente tem pressa para que eu abra as cartas, o que eu faço só depois de receber a confirmação de pagamento. Com a moeda virtual, essa confirmação ocorre rápido, em uns 15 minutos, sem burocracia ou taxas", explica. Uma cliente que mora em Portugal já optou por esse meio de pagamento.

Outro exemplo é o de Ivan Liborio, advogado especializado em direito internacional que mantém um escritório em Angra dos Reis (RJ). Ele decidiu aceitar bitcoins para também para agilizar os pagamentos e baratear custos. O advogado afirma que a maioria de seus clientes é de fora do Brasil. "Às vezes, receber pagamentos provenientes do exterior por meios tradicionais pode ser bem burocrático e caro", diz.

Ele conta já ter esperado mais de uma semana para receber uma transferência SWIFT, algo como um DOC ou TED feitos entre o banco brasileiro e o estrangeiro. "Descontar um cheque de banco estrangeiro aqui no Brasil pode levar mais de um mês, além da papelada e das tarifas que sou obrigado a aceitar", lamenta.

Como a decisão foi recente, tomada em fevereiro passado, Liborio ainda não teve clientes que adotaram o meio de pagamento, mas já organizou a estrutura de cobrança e recebimento.

Reprodução
Página do escritório de advocacia de Ivan Liborio traz o selo de aceitação do Bitcoin

"Os honorários são propostos sempre em reais e a conversão é feita com base na 'cotação' do dia, da mesma forma que fazemos para pagamentos com qualquer moeda estrangeira e sem distinção de preços", explica. Além disso, prossegue, cada cliente terá um endereço bitcoin exclusivo, o que agilizará a identificação da origem e a comprovação do pagamento.

O advogado ressalva que a decisão de passar a aceitar bitcoins não foi fácil de ser tomada, pela moeda ser "muito nova e ainda pouco aceita". "É certo que, nessa fase atual, haverá inúmeras dificuldades, além de riscos. Isso é normal e inerente a qualquer sistema incipiente", afirma.

Ele acredita, no entanto, que com o tempo e a popularização desses pagamentos essas dificuldades vão ceder lugar aos benefícios, segundo ele, "inegáveis".

Mineração de bitcoins
Por fim, outra forma de lucrar com os bitcoins é participando da atividade de "mineração" das moedas, que consiste em "emprestar" a capacidade de processamento de computadores para manter ativas todas as transações digitais na moeda virtual feitas no mundo.

Para que as transações com bitcoins sejam válidas, os computadores têm de "decifrar" as chaves criptográficas (códigos "embaralhados") que transitam entre máquinas com essas informações, gerando seu registro que é guardado em um bloco.

Isso é feito de maneira descentralizada. Uma pessoa aqui no Brasil, que dispõe de computadores com alto poder de processamento, pode ajudar nessa tarefa, tanto quanto outra que esteja, por exemplo, no Japão.

Pelo trabalho, os donos dessas máquinas ganham uma pequena fração de bitcoin. Isso porque para quebrar uma única chave criptográfica e gerar um novo bloco são necessários muitos computadores em rede, e eles dividem o "pagamento". Portanto, quando maior o poder de processamento, maior será a fatia nesse pagamento.

O valor atual é de 25 bitcoins por bloco criado. Mas, segundo o projeto inicial da moeda virtual, essa remuneração diminui conforme a produção aumenta. Isso até que se atinja um número limite bitcoins, depois não serão produzidas novas moedas. Portanto, a mineração vai ficando cada vez menos rentável -- até não ser mais necessária.

 

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