Wi-Fi público funciona no Rio? Só no Leblon e em Ipanema. E olhe lá!

Gustavo Maia

Do UOL, no Rio

  • Arte/UOL

Se você está no Rio de Janeiro e depende apenas do Wi-Fi público do Governo do Estado para acessar a internet, as chances de você conseguir ler esta reportagem são mínimas. Se você estiver na orla do Leblon ou de Ipanema, ambas na zona sul da capital fluminense, existe até alguma esperança. Desde que você seja bastante persistente e, principalmente, paciente.

O diagnóstico tem explicação. Na semana passada, o UOL solicitou à SECT (Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia) que informasse os locais onde o serviço de internet gratuita é oferecido. Da lista com 15 pontos enviada pela pasta, sete apareciam com o status "ativo", todas na cidade do Rio, enquanto os outros oito, na capital e no interior do Estado, foram classificados como "parcialmente ativo" ou "em implantação".

A reportagem visitou os sete locais em que a internet pública deveria funcionar sem restrições, a pelo menos 1 mbps, mas só conseguiu logar nas redes das já citadas praias do Leblon e Ipanema, que figuram no topo das áreas mais nobres e turísticas da cidade.

De acordo com a SECT, a manutenção das redes do projeto Rio Estado Digital (mesmo nome da rede Wi-Fi), iniciado em 2009, é feita por uma empresa contratada através de licitação, que recebe mensalmente R$ 374 mil. Para justificar as falhas percebidas pela reportagem, a secretaria afirmou, em nota, que o serviço "passa por um momento de transição" e que a forma como é oferecido está sendo analisada. "Sabemos que é necessário mudar", apontou a nota.

Claudio Sá de Abreu, especialista em tecnologia da informação da Vialink --empresa de infraestrutura, sistemas e governança em tecnologia da informação--, classifica a rede Wi-Fi pública do Rio como "a pior possível, por causa das limitações tecnológicas das instalações". "A tecnologia é mal aplicada e não suporta a atual demanda", afirmou ele, citando o aumento substancial dos usuários de smartphones.

Solucionar o problema, para o especialista, requer "um investimento muito grande, além de um projeto de infraestrutura bem elaborado". "Não pode ser feito apenas para dizer que tem. Ter e não funcionar é até pior que não ter. A Wi-fi pública há muito tempo deixou de ser um luxo ou de ser supérflua, ainda mais se tratando de uma cidade turística como o Rio. Turistas externos e internos necessitam ter acesso à rede para fazer consultas sobre rotas, restaurantes, pontos turísticos", explicou Abreu.

"Com o corte do acesso à internet com o fim da franquia, isso passou a ser uma demanda também dos moradores da cidade", destacou.

A secretaria informou que está realizando um estudo de PPP (Parceria Público Privada) para levar banda larga para todo o Estado e conta com o auxílio do Proderj (Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Rio), que acabou de entrar para a estrutura da pasta, para definir o novo modelo do projeto. "Enquanto se estuda o melhor caminho --o que inclui as questões técnicas e financeiras--, continuamos trabalhando para que as redes funcionem da melhor forma possível."

Veja a seguir como foram os testes do UOL nos pontos de Wi-Fi público listados pela secretaria:

Orla do Leblon

Bairro com o metro quadrado mais caro da cidade, o Leblon foi o local em que a reportagem conseguiu verificar a maior velocidade na internet pública, 5,66 mbps no dowload e 1,11 mbps no upload. Para conectar, no entanto, foram necessárias algumas tentativas, em pontos diferentes da orla. Quando "pegou", a internet fluiu com rapidez. Uma página, como a do UOL, por exemplo, demorou cerca de 15 segundos para ser carregada. Mesmo tempo esperado para carregar um vídeo no YouTube e entrar no Facebook. Frequentadores do local ouvidos pela reportagem, no entanto, disseram desconhecer a existência da rede.

Orla de Ipanema

Situada ao lado do Leblon, a rede pública da orla de Ipanema apresentou mais instabilidade que a vizinha, mas chegou a funcionar com até 2,01 mpbs de velocidade. O problema é que a internet caiu diversas vezes no período do teste da reportagem. Para conectar, foi preciso caminhar e contar com a sorte para achar o melhor ponto. A primeira página do UOL demorou até 30 segundos para carregar quando a internet funcionou. A reportagem, no entanto, não conseguiu visualizar nenhum vídeo no YouTube.

O comerciante Wiliarde Cortez, 34, que trabalha no Arpoador, conta que a rede "só vive com problemas". "Vira e mexe vem alguém mexer no equipamento do Wi-Fi, mas nunca funciona quando eu tento", reclamou.

Favela Santa Marta

Localizada em Botafogo, zona sul da cidade, a favela Santa Marta recebeu em 2008 a primeira UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do Rio. A reportagem caminhou por diversos pontos da comunidade, mas não conseguiu se conectar à rede Wi-Fi gratuita, que aparecia nas opções do smartphone com as barras cheias.

O comerciante Jonathas da Silva, 22, conta que a internet pública até funciona, mas é bastante instável. "Se fosse depender da pública, ia ser meio difícil. Às vezes fica até uma semana sem pegar e volta do nada", relatou. Segundo ele, a velocidade varia de acordo com o horário e a localização. "À noite é mais difícil, porque quase todos os moradores já voltaram do trabalho".  No dia em que a reportagem visitou o local, no período da tarde, o comerciante contou que a internet havia funcionado pela manhã. "Tem que ter sorte", comentou.

Moradora de Santa Marta, a estudante Ketlen Oliveira, 14, diz que a internet "funciona bem perto dos pontos de Wi-Fi". "Consigo entrar no Facebook, abrir sites e até ver vídeos, mas, quando chove, para de funcionar".

Orla de Copacabana

Um dos locais mais frequentados por turistas e cariocas na Cidade Maravilhosa, a orla de Copacabana, na zona sul, tem a rede Wi-Fi pública há mais de um ano, segundo o atendente de venda Thiago Cruz, 28, que trabalha no local. "Não funciona de jeito nenhum. E, quando entrava, a conexão era um lixo. Não vale a pena insistir. Melhor um 3G ruim", declarou. A reportagem tentou acessar a rede em diversos pontos, mas não conseguiu, apesar de em alguns deles as barras estarem cheias.

Orla do Leme

Assim como na praia do bairro vizinho, no Leme a internet gratuita frustra os usuários. A reportagem caminhou pela orla com o smartphone em mãos e tentou diversas vezes se conectar à rede. Consultados, frequentadores disseram desconhecer o funcionamento da rede.

Aterro do Flamengo

A reportagem tentou, sem sucesso, se conectar à rede do governo estadual em diversos pontos do Aterro do Flamengo, na zona sul da cidade.

O turista argentino Daniel Safi, 51, de Mar del Plata, fazia um cruzeiro marítimo com a mulher e o filho e parou no Rio de Janeiro na última quarta (25). Durante um passeio pela cidade, ele teve dúvidas sobre qual ônibus pegar para voltar ao porto e tentou entrar na internet no local, pois havia sido informado que a cidade contava com Wi-Fi público. Não conseguiu e teve que procurar na rua quem soubesse falar espanhol para ajudá-lo. "Seria muito importante para nós, turistas, que a internet funcionasse. No cruzeiro, a internet custa US$ 27 por hora. É impossível pagar."

Entorno do Maracanã

Nos arredores do palco da final das Copas do Mundo de 1950 e 2014, o estudante Vítor Werneck, 18, que mora ao lado do estádio, na zona norte da cidade, desde que nasceu, caminhava olhando para o celular. Abordado pela reportagem, ele disse que nunca havia ouvido falar na existência de Wi-Fi grátis no local. Depois de uma tentativa frustrada de acessar a rede, ele disse: "Parece que vou ter que continuar usando o 3G mesmo".

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