Análise: sem surpresas em lançamento, Apple não traz mais inovação

Lilian Ferreira*

Do UOL, em San Francisco

A Apple é famosa por revolucionar o mercado da tecnologia. O iPod com os tocadores de música, o iPhone com os smartphones, o iPad com os tablets. Sempre à frente de seu tempo, esses produtos trouxeram inovações não em sua função básica, mas em como entregar o mesmo de uma maneira muito mais simples para o usuário com recursos que faziam todos se perguntarem: como ninguém pensou nisso antes? Mas agora a vanguarda parece ter ficado no passado. Os novos iPhones 6S e 6S Plus e o iPad Pro trazem "novos" recursos que já estão nos concorrentes do mercado.

A empresa parece ter parado de querer superar os rivais com grandes novidades e estar focada na sua já fiel e grande base de clientes. Hoje, o iPhone é o celular mais vendido no mundo e os fãs da marca costumam ir à loucura a cada novo anúncio, não sei se pelo costume de sempre ou por estarem felizes por ter em seu celular predileto as mesmas características encontradas em outros aparelhos. Nessa quarta-feira (9), na plateia durante a apresentação dos novos aparelhos, convidados e jornalistas aplaudiam e faziam grande barulho para cada pequena função apresentada, mesmo que fosse boba ou já fosse comum no mercado.

A caneta -- ou melhor, lápis -- do iPad talvez seja o grande exemplo. Steve Jobs criticou a caneta stylus da Microsoft no lançamento do iPhone em 2007, mas oito anos depois, o iPencil do iPad Pro foi ovacionado como grande "novidade" na convenção de lançamentos da empresa em 2015. A empresa de Bill Gates usa a caneta desde então, e seu tablet Surface Pro 3, o mais atual, também tem tela grande, teclado e é focado em produtividade e trabalho, na tentativa de substituir notebooks. Parece familiar? Sim, exatamente o "novo" foco do iPad Pro. Ah, mas o iPad Pro agora tem integração com o pacote Office... oops, de quem mesmo?

Já nos iPhones, sem mudanças no visual (com exceção à cor rosa dourado, sensação entre as mulheres), o sensor de pressão na tela é um avanço, mas a função já apareceu em outros dispositivos, como o celular Mate S da Huawei. E mesmo assim, não traz nenhuma aplicação realmente revolucionária. O novo toque, muito mais ligado a um jeito de apertar do que com a pressão empregada na tela, permite abrir um rápido menu de opções para o aplicativo, visualizar fotos e e-mails sem ter que abrir uma nova tela ou navegar pelos apps abertos. Deixa a vida mais rápida, lembra o sistema do Facebook de abrir notícias dentro do app sem abrir uma nova janela, mas sem nenhuma grande mudança.

Para um produto Apple, empresa conhecida por ser fácil de manusear, o novo toque não é nada intuitivo. Eu tive de ter "aulas" com dois demonstradores para aprender a usar a nova função. Os próprios profissionais treinados também apresentaram certa dificuldade algumas vezes. Se você dá um toque, abre o app normalmente, se pressiona um pouco mais forte, a tela treme e abre a configuração de tela. Até aí, tudo igual. E como consigo o toque 3D? Na verdade é um toque em dois, um movimento com o dedo, para baixo ou para os lados, depois de tocar a tela, é como um pressionar duas vezes, que faz o menu aparecer. Uma das demonstradoras diante da minha dificuldade falou: "logo se vê que você é usuária de Android". Pois é...

As novidades nas câmeras dos iPhones 6S e 6S Plus também vêm para acompanhar o mercado. A câmera traseira de 8 MP e frontal de 1,2 MP do iPhone 6 já estavam obsoletas perto dos concorrentes -- passaram para 12 MP e 5 MP. A empresa, que sempre se destacou pela qualidade das fotos, também vinha perdendo espaço nesse quesito. Os lançamentos da Samsung, por exemplo, no mês passado, foram de celulares com telas maiores que o iPhone 6S Plus (5,5 polegadas contra 5,7 polegadas do S6 Edge Plus e do Note 5) e também com câmera melhor, de 16 MP. Alguns aparelhos já possuem flash frontal, o que foi especulado como novidade para o iPhone, mas a Apple só ficou na tática de usar a tela como um flash falso, o que o Moto X já faz. E vale lembrar que o iPhone se rendeu no ano passado aos chamados phablets, e criou o iPhone 6 Plus, com tela maior, também seguindo tendência do mercado.

E as chamadas fotos vivas que possuem movimento? Divulgada como grande novidade, já existem nos aparelhos da Samsung desde o S5, pelo menos. Ele consiste em fotos que na verdade são vídeos de 1,5 segundo. É uma foto animada. Recurso legal, mas bem longe de ser disruptivo.

E quem tem Nintendo Wii deve ter lembrado de seu controle ao ver o novo controle da Apple TV. Quem já "conhece" a Siri, também não se surpreendeu muito com suas funções agora na TV. Controle com sensor de movimento, já tinha no mercado. Comandos por voz também. Apps para TV são vendidos como o futuro da televisão há alguns anos. Novos jogos serão lançados, outros que eram apenas para iPad ou iPhone agora poderão ser jogados na TV, como você fazia quando era criança. A busca inteligente da Siri, que busca filmes no Netflix, Hulu e iTunes, é legal, mas ainda está longe do que esperavam os usuários desde 2011, data da última atualização. Já para o relógio inteligente, as novidades foram novos apps e pulseiras.

Enfim, os aparelhos se mostraram grandes e importantes upgrades das versões anteriores de iPhones, mas sem mostrar ao resto do mercado o que a Apple vai trazer para justificar e manter a fama de lançadora de tendências -- o que colocou a empresa na posição de marca mais valiosa do mundo.

*A jornalista viajou a convite da Apple.

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