Com chip dentro da mão, executivo defende "superproteção" de dados pessoais

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

Os chamados "dispositivos vestíveis" farão um em cada cinco pagamentos com dispositivos móveis até 2020. Se isso ocorrer mesmo, a proteção de dados nos dispositivos é uma questão a se pensar desde já. Evgeny Chereshnev, vice-presidente de marketing da Kaspersky Lab, empresa de segurança digital, está levando isso tão a sério que implantou um chip NFC em sua mão esquerda, próximo ao polegar, para estudar as consequências de nos conectarmos a tudo ao nosso redor.

Chereshnev, apelidado de "Che", veio a São Paulo para se apresentar na Campus Party na quarta-feira (27). Ele não concorda com o estado atual dos dados pessoais, que são controlados em sua maior parte por empresas e governos. Acha que é mais seguro e correto que tais dados estejam de posse unicamente de seus donos, então sua experiência com o chip é uma visão pragmática disso.

"Vamos encarar, isso é o futuro. Vai substituir todas as senhas, 99% delas não são seguras, porque foram inventadas para máquinas, e para estas é mais seguro haver números e letras aleatórias. E no estado atual, você precisa de senhas com 16 caracteres ou mais. Acho que o chip é uma forma de não precisarmos mais disso, mas não a única", afirmou.

O executivo russo entende que a tecnologia NFC (sigla em inglês para Campo de Comunicação por Proximidade) é hoje uma das mais propícias para avançarmos em conceitos como pagamento digital e Internet das Coisas --que imagina casas, carros e outros objetos inteligentes interagindo entre si. E aparentemente é mais segura e prática também.

"Escolhemos NFC porque está disponível para todos, é bem segura porque você tem que saber onde o chip está para acessá-lo, e principalmente porque não precisa de bateria ou manutenção. Só toco o leitor de chip e ele é ligado. Mas tem algumas restrições. Eu tenho que tocar fisicamente o objeto para interagir com ele. E preferimos que fosse com pelo menos três metros de distância. Mas isso só será realista em um futuro próximo", explicou. 

O NFC é uma tecnologia que permite a troca de informações sem fio, com a proximidade dos dispositivos. Já é usada para compra de passagens de metrô, abrir e ligar carros, carregar vídeos (que podem ser vistos em um celular com a tecnologia) e realizar pagamentos (como faz o PagSeguro).

Che mostrou ao UOL que é capaz de destravar a tela de seu celular apenas encostando a parte da mão que armazena seu chip. Em um vídeo, mostra como conseguiu abrir e mover uma porta de seu escritório a uma distância de alguns centímetros, como os Jedi dos filmes "Star Wars". Conseguiu ampliar o alcance com a ajuda de um Kinect, dispositivo dos videogames XBox que rastreia os movimentos do corpo humano.

Mas alguém com um outro chip NFC não conseguiria repetir o feito da porta justamente por conta da segurança implicada. "O meu chip sinaliza para o sistema que sou eu, especificamente, que está tentando abrir a porta e que eu tenho permissão para fazer isso", explicou o executivo.

"A memória da NFC é o bastante, pois estamos tentando entender como o futuro vai se desenvolver. De quantos dados precisamos? Como eles serão protegidos e transmitidos? Talvez não será NFC a usada, pode ser Bluetooth ou wi-fi, não sei. É por isso que estamos pesquisando. Nas próximas questões, haverá mais memória, mais criptografia, então precisará de um processador. E precisaremos ver formas de alimentar a energia nisso, como converter energia física em elétrica, por exemplo", prevê.

Chereshnev não teme ter um "objeto estranho" em seu corpo pelo resto da vida. "Não me preocupo com a radiofrequência do chip porque a uso em períodos curtos do dia e estamos cercados por ondas de todo tipo, de celulares, satélites e estamos bem. E o chip é envolto em um biovidro, material que não é alergênico. Fiz exames há um ano com raios X e está tudo certo. Acredito que tecnicamente já somos ciborgues, e isso não nasceu ontem. Vítimas de acidentes já usam braços, pernas e olhos artificiais", filosofou. 

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