Análise: Há algo de podre no reino da Apple

Leonid Bershidski

  • AFP

Os executivos da Apple atribuíram a primeira queda de receita anual da empresa desde 2003 ao cenário macroeconômico desfavorável e a um ciclo de atualizações menos impressionante do que em 2015. Essas desculpas não explicam nada. Isso não significa exatamente que o colosso tenha bases inconsistentes, mas o modelo de negócio da Apple foi desafiado.

O modelo de negócio depende muito da venda de um produto de enorme sucesso - o iPhone - com um número de modelos crescente, mas ainda pequeno. O iPhone foi responsável por 65% da receita da Apple no trimestre até março. Essa participação foi relativamente constante nos últimos dois anos. O principal produto foi responsável por grande parte da queda ano a ano nos três meses até março.

O iPhone é tão caro que a empresa capta mais de 90% de todos os lucros globais com smartphones embora domine menos de 20% das vendas unitárias do mercado. Essa posição de mercado incrível se baseia ultimamente em três pilares: o enorme patrimônio da marca, construído pela revolução promovida pela Apple no âmbito dos smartphones de 2007-2011; o modelo de vendas nos EUA (e, com menos importância, na Europa) em que as operadoras subsidiam as vendas de celulares, absorvendo a maior parte do preço exorbitante definido pela Apple; e o crescimento rápido do consumo na China.

O primeiro pilar é ainda está de pé: a Apple é a marca mais valiosa do mundo. Os outros dois, no entanto, estão desabando. O modelo de subsídio de celular está praticamente morto nos EUA. As operadoras sempre odiaram o custo antecipado dos subsídios, mas aguentaram durante sua extensa fase de crescimento. Elas disputavam participação de mercado em um momento em que a penetração dos smartphones crescia rapidamente e faziam tudo o possível para conquistar clientes para suas redes. Agora, a penetração está chegando aos 90%, e não faz sentido que as operadoras paguem cada vez que um cliente quiser um smartphone melhor.

Para os fabricantes de celulares, isso significa que será necessário vender mais unidades pelo preço de aparelhos liberados ou através dos planos de parcelamento das operadoras, que não são tão úteis quanto os subsídios diretos porque é uma luta para as operadoras securitizar as vendas a prazo e distribuir assim o custo do cliente por um período mais longo. Vender sem subsídios é uma proposta difícil para a Apple por causa de sua remarcação. Essencialmente, ela vende o mesmo celular que outros fabricantes - em alguns casos, um inferior - a um preço muito mais elevado, atraindo compradores com histórias de um ecossistema confortável que inclui todos os tipos de aplicativos, mídias e facilidades, como uma solução de pagamento fácil ou desbloqueio de portas de quartos de hotel com o próprio celular.

Isso funciona com o fã-clube Apple e com os recém-convertidos (ver o primeiro pilar). Mas não funciona com a maioria das pessoas, a julgar pelos dados de venda de unidades; e não é apenas uma questão de não conseguir pagar US$ 700 por um smartphone. Os aparelhos mais famosos de hoje, alguns com especificações melhores que as ofertas da Apple, custam US$ 400 ou menos. Eu não compro um iPhone desde 2013; o aparelho que uso atualmente é um Google Nexus 6P feito pela Huawei, de US$ 450, que tem uma tela maior e mais nítida, um processador mais rápido e uma bateria mais duradoura do que o iPhone 6s Plus, de US$ 750 - tudo em um aparelho mais leve. Eu tenho dinheiro para comprar o iPhone mais novo, mas não quero: existem outras opções melhores.

Isso nos leva diretamente ao terceiro pilar - a China. Durante a mais recente divulgação de lucros, o CEO da Apple, Tim Cook, e o diretor financeiro, Luca Maestri, falaram sobre os problemas da empresa em Hong Kong, onde a moeda está indexada ao dólar norte-americano, o que é menos atraente para os turistas. Até certo ponto, isso explica a queda de receita ano a ano de 26% na Grande China, mas há também um declínio de 11% na China Continental (7% em termos de câmbio constante). Essa queda poderia ser parcialmente atribuída ao fim do crescimento exuberante do país, mas eu desconfio que há um limite para o número de consumidores chineses que se deixariam levar por uma marca ocidental forte, em vez de analisarem aspectos do preço e da tecnologia. Xiaomi e Huawei são líderes do mercado na China em termos de vendas unitárias. Ambas fabricam celulares ótimos, vendidos por menos de 60% dos preços da Apple.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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