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De olho na segurança

Vítimas de "estelionato sentimental" se unem pela internet contra golpista

Aliny Gama

Do UOL, em Maceió

  • Reprodução

    Pelo menos 25 mulheres de cinco Estados e do DF relatam ter sido vítimas de João Luiz de Melo Souza, 48

    Pelo menos 25 mulheres de cinco Estados e do DF relatam ter sido vítimas de João Luiz de Melo Souza, 48

Um grupo de mulheres se uniu pela internet para ajudar a polícia na investigação de um cearense de 48 anos, acusado de cometer "estelionato amoroso" pelo aplicativo de namoro Tinder. Pelo menos 25 mulheres de cinco Estados do Brasil --Ceará, Pará, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo-- e do Distrito Federal relatam ter sido vítimas do suspeito.

Sem saber o paradeiro do acusado João Luiz de Melo Souza, as vítimas criaram uma página no Facebook para receber denúncias, rastreá-lo e alertar os novos alvos do acusado. 

Além disso, foram criados dois grupos no WhatsApp: o primeiro com participação de 12 mulheres e o segundo composto por 21 pessoas. Pela plataforma, elas compartilham entre si possíveis provas contra Souza, que incluem áudios, fotos, cópias de conversas, comprovantes de depósitos e transferências bancárias.

Sob a condição de anonimato, o UOL Tecnologia entrevistou sete vítimas e observou uma semelhança entre o perfil delas. Todas são bonitas, solteiras, com idades entre 35 e 45 anos, profissão definida e vida financeira equilibrada.

"Foi rastreando pessoas e locais frequentados por ele que conseguimos reunir novas provas e descobrir novas vítimas. À medida que vamos investigando, vamos alertando as mulheres com quem ele se comunica de que ele é um estelionatário", disse uma das vítimas do acusado, que mora em Fortaleza.

Se não fosse a internet, não iríamos conseguir constatar que ele vem agindo em todos esses Estados

Ela contou que foi obrigada a vender um carro no valor de mais de R$ 30 mil para pagar dívidas que Souza teria feito no nome dela enquanto namoravam.

"Depois que a vítima se vê no golpe que caiu e passa a cobrar o dinheiro, ele ameaça, como diz que é do Exército, da polícia da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), ficamos intimidadas", relata.

"Hoje, meu trabalho foi investigar uma suposta vítima. Tinha seis meses que eu estava investigando a dona de um carro branco, que postou fotos dirigindo. Ele ostenta uma vida que é paga persuadindo as mulheres com quem se relaciona. Elas pagam roupas, perfumes, viagens; ele usa os carros delas e pede dinheiro constantemente", afirmou outra vítima, que mora em Brasília e administra, junto com outras mulheres, a página no Facebook.

Como ele age

Charmoso, educado, bem-sucedido profissionalmente, apaixonado e com proposta de relacionamento sério. Um verdadeiro "príncipe encantado" sonhado pela maioria das mulheres que deseja casar e ter filhos.

É dessa forma que o suspeito se mostra para conquistar suas vítimas, segundo a polícia. No perfil dele no Tinder, há fotos praticando esportes radicais, em viagens e com roupas similares a fardas militares.

Souza diz às vítimas que é tenente-coronel do Exército, agente secreto da Abin, economista, gerente de marketing e psicólogo.

"Então, sou do Exército, mas sou militar diferente, não trabalho de farda e nem quartel. Trabalho numa área secreta do Exército", diz ele em um áudio enviado para uma das vítimas.

"Paraquedismo eu já fiz no início quando eu entrei no Exército, eu sou oficial do Exército. Hoje em dia não, eu salto só por hobby. Também estou me aposentando esse ano, tá? Então, já estou vendo outra coisa. Esse é um dos motivos de eu vir morar em São Paulo, só que durante as Olimpíadas eu vou ficar no Rio. Eu tenho que ir passar pelo menos dois dias na semana no Rio", conta em outro áudio enviado para uma mulher de São Paulo.

Investigação

Segundo a Polícia Civil do Ceará, as vítimas que registraram boletim de ocorrência na delegacia da Mulher em Fortaleza, fizeram o mesmo relato: depois um tempo, ele ganha confiança da mulher e fala sobre os problemas financeiros. Em seguida, diz que só ela pode ajudá-lo e pede dinheiro emprestado, que nunca é pago como o prometido.

"Deixa eu te dar duas notícias: a primeira é que não tenho dinheiro nem pra almoçar. Estou saindo de uma reunião e nem sei como vou fazer, porque nem tomei café hoje, estou sem dinheiro total. Segundo é que só tá faltando R$ 360 para pagar a pensão, pagar o negócio lá do cara. Estou um pouco nervoso, com vontade de chorar, uma falta de ar", diz ele chorando em outro áudio enviado para uma vítima do Ceará.

"Com uma semana, ele começa falando que sonhou com você grávida, esse papo é para todas. Depois ele pede em casamento muito rápido, comigo foi em 15 dias. Ele falou para todas nós a mesma história: você é a mulher da minha vida e quero ter um filho com você. Na realidade, ele nunca amou ninguém", contou outra vítima, que mora no Distrito Federal. Segundo a mulher, o prejuízo que Souza a causou foi de mais de R$ 100 mil.

A delegada da mulher em Fortaleza, Rena Gomes, disse que pelo menos seis vítimas no Ceará registraram boletim de ocorrência contra João Luiz Melo de Sousa. Dois inquéritos foram instaurados, e a polícia está na fase de colher depoimentos de vítimas e testemunhas.

Segundo a delegada, já existem provas suficientes para indiciar o acusado. Ele deverá ser intimado em breve para prestar esclarecimentos. Os inquéritos ainda não têm prazo para serem finalizados.

A Polícia Civil do Ceará informou que está em contato com delegacias da mulher de todo o Brasil solicitando informações sobre boletins de ocorrência de casos semelhantes envolvendo o nome do acusado.

"As mulheres estão se encorajando e vindo denunciar os casos. Inicialmente, observamos os crimes de estelionato sentimental, que sempre age envolvendo emocionalmente a vítima para usar o dinheiro dela; falsidade ideológica, por se apresentar como economista, gerente de marketing, militar e psicólogo; além de apropriação indevida de documento público ou particular, pois usa distintivos do Exército, Abin e outros setores de segurança", informou a delegada.

O UOL Tecnologia tentou contato com João Luiz Melo, entre a última quinta-feira (16) e esta segunda-feira (20), para três números dele --do Ceará, Distrito Federal e São Paulo--, mas os números estavam desligados.

O Exército Brasileiro e a Abin informaram que João Luiz Melo de Souza não é integrante de nenhum dos dois órgãos e nunca fez parte do quadro de militares lotados nas instituições

Já o Tinder informou que o aplicativo já teve 11 bilhões de conexões em poucos anos de atuação e que casos semelhantes como o relatado no texto "representam uma porcentagem minúscula" das experiências.

"Levamos a segurança de nossos usuários muito a sério e continuamos a aconselhar as milhares de pessoas que estão no Tinder a serem vigilantes, prestarem atenção a nossas dicas básicas de segurança, disponíveis no https://www.gotinder.com/safety; a usarem o senso comum nas interações e a reportar qualquer atividade suspeita no botão 'Denunciar', disponível na interface de conversas", orienta a empresa.

O Tinder informou ainda que está tomando as providências cabíveis na sede nos Estados Unidos para exclusão do perfil de Souza. "Se algum crime foi cometido, encorajamos os nossos usuários a reportarem o caso para as autoridades locais. Nosso time dedicado à segurança irá cooperar com as autoridades, caso sejam diretamente contatados", destacou.

Dicas de segurança

Dentre as dicas de segurança do Tinder, o aplicativo destaca que para evitar golpes é recomendável ficar atentos a pessoas com os seguintes comportamentos: mandam mensagens contendo links para sites de terceiros; rapidamente pedem para trocar mensagens fora do Tinder; pedem por dinheiro; somem de repente e logo reaparecem usando outro nome; pedem detalhes sobre seu endereço, usando a justificativa de mandar flores ou presentes.

Além disso, o aplicativo cita alguns exemplos de violação dos termos de uso, como: pedir por dinheiro ou doações; qualquer pessoa que aparente ter menos de 18 anos; pessoas que enviam mensagens ofensivas ou de assédio; pessoas que se comportam inapropriadamente depois que se conheceram pessoalmente; perfis fraudulentos; e spam ou solicitações, como tentativas de vender produtos ou serviços.

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