Casa conectada está longe? Quando a Internet das Coisas pegará no Brasil?

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação/Samsung

    Family Hub, geladeira inteligente da Samsung apresentada na CES 2016

    Family Hub, geladeira inteligente da Samsung apresentada na CES 2016

Internet das coisas é o nome de um recente conceito em tecnologia que define uma série de objetos conectados entre si. De acordo com a "IoT" (sigla em inglês de "Internet of Things"), nosso futuro próximo comporta não apenas computadores e celulares coletando, processando e trocando dados. Mas também eletrodomésticos, carros, sistemas de vigilância e de infraestrutura.

Para resumir, a indústria da internet das coisas quer transformar sua residência na casa dos Jetsons, família do futuro de antigos desenhos animados. Mas se mesmo lá fora o conceito, comentado há anos e que aparece em feiras importantes, como a CES, a CE China e a IFA, só chega aos mercados de forma moderada, no Brasil a adesão vem sendo ainda mais lenta.

No mercado brasileiro, há alguns produtos sintonizados com essa tendência, como fornos elétricos que fazem download de receitas por aplicativo móvel (LG), lavadoras de roupa que monitoram o progresso da lavagem pelo celular (Samsung), cafeteiras que agendam a hora do cafezinho e geladeiras que sugerem listas de compras convertidas em um QR code para smartphone ou tablet (Electrolux).

No entanto, é evidente que esses produtos não contam com muita divulgação das próprias fabricantes e ainda são muito caros.

Para se ter uma ideia, o mais barato dos itens citados no parágrafo acima é a cafeteira Prodigio da Nespresso, por R$ 849; já o forno da LG tem preço sugerido de R$ 22 mil --fora que não encontramos o produto à venda em nenhum site de e-commerce no momento em que esta reportagem foi concluída.

Afinal, é possível especular um momento em que esses e mais produtos serão uma realidade palpável nos lares brasileiros?

Pietro Delai, gerente de pesquisas da consultoria IDC, acredita que o mercado brasileiro de tecnologia sempre foi mais conservador em relação ao que é tendência lá fora. Neste ano o BNDES realizou uma chamada pública para escolher propostas para um estudo técnico sobre IoT. É possível que nos próximos meses o banco comece a subsidiar políticas públicas sobre o tema.

"Essa política governamental é necessária. Em outros países já acontece, como no mercado chinês. A gente tomou esse movimento agora. Para você ter mais uso de Internet das coisas, tem que ter mais gente fabricando. Para isso, é preciso saber onde está o interesse dos consumidores e das empresas", disse Delai.

Para ele, também falta uma melhora na infraestrutura de telecomunicações do país para garantir a eficiência da conectividade, além de definir como esses dispositivos se comunicam entre si, pois atualmente são usadas diversas padronizações e normas técnicas para isso.

Sem essa definição, o usuário corre o risco de comprar, por exemplo, um fogão inteligente que não vai conseguir "conversar" com a geladeira.

O diretor da GfK para Tecnologia, Oliver Römerscheidt, não quis especular uma data exata para que a Internet das Coisas prospere por aqui, embora creia que no ano que vem mais produtos dessa tendência devem chegar. Mas o brasileiro precisa entender o conceito e ver um uso prático em sua vida para aceitar as novas tecnologias.

Um estudo da GfK em sete países --EUA, Reino Unido, Alemanha, Coreia do Sul, Japão, China e Brasil-- ouviu 7 mil consumidores, que apontaram custo elevado (36%) e conexão de internet ruim (21%) como os principais entraves para a casa conectada.

"A IoT é uma soma de vários conceitos. É possível que alguns deles ganhem força mais rápido do que outros, como segurança do lar e entretenimento. SmarTVs já existem aqui há algum tempo e são um exemplo de Internet das Coisas", diz Römerscheidt.

Allan Pires, presidente da Targit na América Latina, vai na mesma lógica. "O consumidor não vai comprar a Internet das Coisas, mas uma solução construída com Internet das Coisas". 

Seu palpite para a consolidação da IoT no país seria daqui a quatro anos, em 2020. Até lá, entender as reais aplicações e solucionar os problemas desse conceito são o grande desafio para a indústria.

Como exemplo, ele cita a questão da segurança em uma casa conectada. "Se alguém bloqueia seu celular, você não vai morrer. Mas em uma residência que conecta tudo, alguém pode cortar sua energia e te tirar da comunicação com o mundo externo", alerta.

Um prenúncio desse perigo aconteceu há poucas semanas, quando um ataque a servidores da internet usou equipamentos conectados a redes domésticas como "robôs" para derrubar servidores que armazenam alguns grandes serviços de internet, como Twitter, Spotify e Reddit. Câmeras de segurança podem servir para esse fim.

Pires também atenta para a necessidade de se investir em equipamentos pesados de processamento e gestão de dados, pois o volume de informações que objetos conectados vão gerar será muito maior do que já faz os computadores e smartphones hoje.

"Demanda um tempo para criar algoritmos que rapidamente perceberão padrões e trarão melhorias para todos. Isso impactará pessoas, empresas e governos. Será possível perceber como se comportam epidemias de gripe e reagir a elas muito mais rápido do que fazemos hoje", projeta.

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber as principais notícias do dia de graça pelo Facebook Messenger? Clique aqui e siga as instruções.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos