Celular, redes sociais e streaming cativam rotina de "geração Black Mirror"

Diego Toledo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Petar Chernaev/Getty Images

Eles são jovens adultos, com entre 20 e 30 anos de idade. Carregam smartphones nos bolsos e, sempre que sobra um tempinho, checam as redes sociais. Na hora de ouvir música, ver filmes ou até mesmo assistir a programas de televisão, usam aplicativos que transmitem o conteúdo via streaming. Para  eles, um dos maiores hits do momento entre as séries é "Black Mirror", uma aclamada produção britânica, que teve sua terceira temporada lançada no mês passado pela Netflix.

E, assim como em "Black Mirror", que em seus episódios expõe dilemas, anseios e dramas da sociedade em um futuro próximo, em que a tecnologia tem um papel fundamental, esses jovens sentem o impacto de uma vida conectada à internet quase 24 horas por dia. Uns sofrem de ansiedade, outros acabam levando uma vida mais solitária. Até para enfrentar esses problemas, muitos apelam ao celular. E quase todos reclamam que o uso do smartphone e de outras ferramentas online atrapalha o sono. 

"Uma qualidade de sono menor gera uma série de outros problemas. Pode facilitar a depressão, facilita a falta de memória e de absorção de conteúdo. A gente acha que é uma coisa boba, mas não é", afirma a psicóloga Dora Góes, do Programa de Dependências Tecnológicas do Hospital das Clínicas, em São Paulo. "O uso intenso da tecnologia também aumenta a ansiedade. As pessoas ficam menos focadas, mais distraídas", acrescenta a pesquisadora.

Outro ponto em comum de jovens com esse perfil é que a internet e os recursos tecnológicos também estão muito presentes na vida profissional ou acadêmica deles. A publicitária Layla Oliveira, 27, atribui ao trabalho em uma empresa de telecomunicações as longas horas que passa conectada. Mas reconhece que o impacto da tecnologia é grande também na vida pessoal. "Eu fico desesperada de pensar em perder o telefone ", afirma. "Aqui tem todos os meus contatos, dados, senhas." 

Despertar com o celular

A rotina de Layla também sente o reflexo. A primeira coisa que ela faz ao acordar é checar o WhatsApp, e parou de usar o email do trabalho no smartphone exatamente para tentar ficar menos "ligada" nas horas de folga. A jovem publicitária conta que, algum tempo atrás, por conta do estresse do dia a dia, chegou a temer que estivesse sofrendo de síndrome do pânico ou de picos de ansiedade. Para lidar com o incômodo, passou a fazer mais atividades físicas, mas não abriu mão da tecnologia: no braço, usa uma fitbit – uma pulseira que monitora o número de passos dados, as calorias consumidas e a qualidade do sono.

O hábito de procurar o celular assim que acorda também faz parte da vida de Marjorie Nunes, 24. Ela trabalha com web design e não tem dúvidas em afirmar que tem um círculo maior de amizade online do que offline. Marjorie diz que vive em um "ritmo frenético" e costuma dormir apenas entre quatro e seis horas por dia. "Acho que o uso da tecnologia atrapalha meu sono em 80%", admite. "Às vezes, navegando na internet, começo a abrir novas abas no computador, ver coisas diferente e, quando eu me dou conta, já são quatro horas da manhã." 

Ela conta que a mãe é quem mais reclama do uso intenso do celular, mas lembra que isso é quase uma tendência. "Quando eu almoço com meus colegas de trabalho, todos também passam boa parte do tempo no celular", revela. E Marjorie ainda acrescenta que, quando sai à noite com os amigos, acaba influenciada a recorrer ao smartphone. "Todo mundo pega o celular e tira foto assim que chega na balada." 

Diego Toledo/UOL
Marjorie Nunes

Binge watching

Marjorie também é adepta de outra prática comum entre quem usa serviços de streaming para assistir a séries de TV: o binge watching - o hábito de ver vários episódios de um seriado em sequência por muitas horas. Como exemplo, ela conta que assistiu à primeira temporada de "Stranger Things", que tem oito episódios com cerca de 50 minutos cada, de uma só vez, sozinha, em uma noite de sexta para sábado.

Apesar de reconhecer que a vida fica um pouco mais solitária por conta do tempo que passa conectada, Marjorie também faz uma observação importante: a internet e a tecnologia são ferramentas importantes e indispensáveis para boa parte das pessoas nos dias de hoje. "Ela oferece tudo, facilita mais a comunicação e o acesso à informação, e ajuda muito quem leva uma vida corrida", completa a jovem.

O estudante de engenharia elétrica Hugo da Cruz, 23, é um outro exemplo de quem recorre à tecnologia para se distrair, se informar e se comunicar com um círculo maior de pessoas. Ele mora no município de Suzano, na Grande São Paulo, e estuda no bairro da Mooca, na zona leste da capital paulista. O celular é um aliado importante para ele no longo trajeto de trem: para passar o tempo, o aparelho permite que ele leia, estude, ouça música ou veja vídeos. "Serve como distração durante o tempo que eu passo viajando", diz o estudante.

Mas como em qualquer bom episódio de "Black Mirror", a relação de Hugo com a tecnologia também tem seu lado negativo. Ele reconhece que o uso intenso do celular prejudica as noites de sono e que costuma apelar ao aparelho como uma válvula de escape, após um dia cansativo de estudos. "Eu uso à noite, pra me distrair, depois de um dia cheio, e como se desse pra evitar que o dia seguinte chegue logo", conta. "Isso acaba gerando uma batalha entre descontração e energia."

Na tentativa de se livrar do problema, Hugo também apela ao smartphone: agora, tem dormido com os fones de ouvido do celular tocando uma música suave, instrumental, ou vídeos de ASMR (sigla em inglês de "resposta sensorial autônoma do meridiano"), que prometem ajudar no relaxamento da mente. Foi a solução dele para passar menos tempo na timeline do Facebook ou perdido nas abas abertas do navegador de internet.

Diego Toledo/UOL
Hugo Cruz

Solidão x aplicativos de encontros

Mas nem sempre o celular é imprescindível, assim como mais tempo gasto online não significa necessariamente menos espaço para a vida social em carne e osso. Um trio de estudantes de arquitetura, que também virou fã de "Black Mirror", tem conseguido se virar bem sem um uso tão intenso do smartphone e lembra que, às vezes, os aplicativos de celular podem ajudar a estabelecer relacionamentos pessoais.

Gustavo da Mata, 21, Giulia Coppini, 21, e Renan Oliveira, 23, se conheceram na faculdade e se tornaram amigos. Gustavo e Giulia estão há quase um mês sem smartphone – ele perdeu o que usava, e ela teve o seu roubado. É verdade que ambos não ficaram muito tempo desconectados: Gustavo apelou ao laptop, que leva para onde pode, e Giulia tratou de recuperar um celular antigo. Já Renan se considera uma exceção no ciclo de amigos porque não tem uma fixação grande pelo aparelho: "As pessoas até ficam bravas comigo porque eu demoro para responder as mensagens."

Ao falar sobre a relação entre vida online e relacionamentos amorosos, os três lembram que um dos motivos que leva muitos de seus amigos a ficarem com o celular o tempo todo são os aplicativos de encontros, como o Tinder, e outros voltados especificamente para o público gay, como Grindr, Hornet e Scruff. Renan é o único solteiro do trio, Gustavo e Giulia têm namorados, e os três são gays. Na opinião deles, os amigos héteros costumam ficar menos tempo conectados em aplicativos de encontros, e a vantagem para os gays é a facilidade que o sistema oferece, com um grande leque de opções e um risco menor de decepção.    

Diego Toledo/UOL
Layla Oliveira

Saúde e dependência

"O smartphone está aí pra facilitar a nossa vida, mas ele acaba também participando de hábitos nossos e até substituindo outros hábitos", afirma a psicóloga Ana Luiza Mano, do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática (NPPI) da PUC-SP. "Nem sempre a gente se identifica com o ambiente que a gente está rodeado", acrescenta. "Com a internet, o mundo ficou gigante. Você pode acessar praticamente qualquer pessoa com quem se identifica porque tem algo em comum."

As psicólogas concordam que a tecnologia e a internet se tornaram parte da nossa vida e uma ferramenta útil e prática para quem busca informação, auxílio para realizar o seu trabalho ou apenas entretenimento. O uso intenso dessas ferramentas só se torna um problema quando começa a oferecer um risco à saúde. "A tecnologia não causa prejuízo quando a gente usa ela normalmente", diz Dora Góes, do Hospital das Clínicas. "Mas ela causa prejuízo, mesmo que a pessoa não admita, quando ela vira escrava da tecnologia."

"A pessoa que usa excessivamente a internet, ou uma tecnologia, não é necessariamente dependente. Quem é dependente não consegue fazer atividades da rotina básica, por conta do uso", afirma Ana Luiza Manso, da PUC-SP. "A internet, o smartphone e a tecnologia não são o problema. O problema é o jeito como a pessoa coloca o emocional dela naquilo."

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