Um vídeo destruiu sua vida: 'Você quer esquecer, mas Google sempre lembra'

Juliana Carpanez

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Adam Smith postou no YouTube um vídeo de protesto que transformou sua vida

    Adam Smith postou no YouTube um vídeo de protesto que transformou sua vida

Em 2012, o conteúdo de um vídeo postado na internet destruiu a vida do executivo norte-americano Adam Smith, 39. Vídeo gravado e publicado por ele mesmo, no YouTube, em que aparece constrangendo uma mulher. O objetivo inicial era participar de uma manifestação a favor do casamento gay. Mas a atitude agressiva capturada nas imagens fez com que os ataques se voltassem contra ele, numa intensidade que jamais conseguiria prever. No intervalo de uma noite, deixou de ser o acusador para virar o acusado.

Cinco anos depois, ao fazer um balanço sobre o que aprendeu com as sérias consequências de uma postagem infeliz, desabafou ao UOL: "As pessoas ainda se lembram como se fosse hoje. Fiquei em depressão profunda durante um ano inteiro, me senti destruído. Mas acredito que a cura para uma experiência traumática está em compartilhar, colocar luz sobre temas sombrios".

Luz, então. Smith fez o vídeo ao embarcar em uma onda de protestos contra a rede de restaurantes Chick-fil-A, que na época havia se oposto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ele chegou a uma filial com a câmera do celular ligada, pronto para registrar o momento em que pedia um copo d'água grátis (estratégia idealizada por uma youtuber para causar prejuízo ao restaurante). Também tinha a intenção de postar a interação --que, segundo ele, seria inicialmente feita de maneira pacífica--, seguindo as instruções também divulgadas online. Sabia o que estava fazendo e até hoje diz não se arrepender de ter aderido à manifestação.

O arrependimento que ele relata não vem da gravação ou postagem, mas da forma como tratou Rachel Elizabeth, uma solícita atendente do drive-thru. No arquivo com dois minutos e 20 segundos, Smith sobe o tom e aparece hostilizando a moça. Diz que ela trabalha para uma empresa detestável, com valores horrorosos e reforça o motivo de sua participação no movimento: "Sou heterossexual, não sou gay. Só não tolero o ódio". Foi justamente ódio que recebeu, em enormes quantidades, no online e no offline, quando seu arquivo viralizou naquela noite.

Arquivo Pessoal
Com a experiência, Smith disse ter se tornado mais tolerante com os erros
Logo após a postagem, a companhia onde trabalhava como diretor financeiro, no Arizona (EUA), recebeu ameaças de bomba. Sua família também virou alvo de intimidações. Foi demitido. Perdeu assim um emprego que pagava US$ 200 mil (cerca de R$ 665 mil) ao ano. E o equivalente a US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,27 milhões) em ações desta mesma companhia.

Teve de desocupar uma casa espaçosa onde vivia com a mulher e os quatro filhos. Mudou de cidade quando conseguiu um novo emprego --do qual foi demitido em duas semanas, porque o chefe descobriu o vídeo polêmico. Ficou dois anos e meio desempregado, mandando currículos sem sucesso e alimentando a família com cupons de desconto. 

(O vídeo ainda está disponível na rede, mas esta reportagem não incluirá o conteúdo justamente pelo constrangimento que causou às pessoas envolvidas.) 

Pedras virtuais

Smith logo sentiu o revertério. Antes de toda a sequência de infortúnios acima se completar, postou outro vídeo (de quase oito minutos) desculpando-se com Rachel pela grosseria --em nenhum momento, no entanto, ele reflete sobre a postagem de um conteúdo constrangedor.

Na gravação, diz que sua intenção de protesto pacífico se perdeu quando viu, durante a espera naquele mesmo restaurante, tantas pessoas manifestando-se contra o casamento gay. "Não percebi que a humilhei porque estava obcecado em representar o 'lado certo' da discussão. Justifiquei a minha ação com a certeza [que estava do 'lado certo']."

Em um programa da TV, Rachel aceitou as desculpas de Smith. A internet não.

"Na internet, é como se tivéssemos uma câmera registrando cada minuto de nossas vidas. Antes, quando cometíamos um erro, apenas algumas pessoas o testemunhavam. Agora, esse mesmo erro pode ser visto por bilhões de pessoas. Quando isso acontece, julgamos de maneira muito dura, esquecendo que já fizemos escolhas parecidas", relata o administrador de empresas. "Jogamos pedras. Pedras virtuais na forma de comentários duros e de ameaças", resume ele, que disse ter se tornado mais tolerante com os erros. Dos outros e dele mesmo.

Precisamos de mais compaixão e empatia com os outros e com nós mesmos. A vida pode ser dura e, às vezes, precisamos uns dos outros para conseguir encará-la

Adam Smith, executivo 

Sua história ilustra justamente como alguém pode ir de atirador a alvo num simples "publicar". "Acreditei que participar de um protesto digital era seguro, um relato pessoal sobre um assunto quente. Meu erro foi não perceber que minhas emoções estavam aguçadas ao pedir aquele copo d'água", relata o autor de "Million Dollar Cup of Water - Discovering the Wealth in Authenticity" (O copo de água de um milhão de dólares - Descobrindo riqueza na autenticidade, em tradução livre), livro publicado em 2015.
 

A importância da clareza

Fica então a dica de quem aprendeu da pior forma. "Quando quiser se posicionar na internet, faça com o maior grau de atenção às suas emoções e intenções. Faça também com amor e bondade: você pode ser alvo dos haters [pessoas agressivas], mas terá clareza sobre aquilo que defendeu. Meu posicionamento não ficou tão claro e, por isso, fui um alvo fácil."

Fiquei em choque. Você quer se esconder, mas não consegue. Quer esquecer, mas o Google sempre lembra. Quer morrer, mas tem quem dependa de você para sair desse buraco escuro

Adam Smith, executivo 

Na ocasião, ele disse ter se sentido mal-interpretado por aqueles que desconheciam o protesto, frustrado por ser tão grosseiro com outra pessoa e apavorado com as retaliações. "Fiquei em choque. Você quer se esconder, mas não consegue. Quer esquecer, mas o Google sempre lembra. Quer morrer, mas tem quem dependa de você para sair desse buraco escuro. É brutal de uma forma que não consigo nem começar a descrever, a não ser para dizer que parece não haver saída."

As coisas começaram a melhorar depois de uma entrevista exibida pelo canal ABC, em março de 2015, que deu origem a diversas ofertas de emprego. Smith foi então trabalhar em uma empresa de software em Arlington (Texas), onde atua como diretor financeiro e de recursos humanos.  Ele conta que, quando mudou de cidade, foi logo reconhecido. "As pessoas têm muitas perguntas, querem saber como alguém lida com a humilhação pública. A maioria fica tão quebrada emocionalmente que prefere não compartilhar a experiência." 

Em julho, o executivo planeja se mudar com a família para a Costa Rica --ele continuará trabalhando remotamente para a mesma empresa e pretende também se dedicar a um novo livro. O tema: como as lideranças devem se basear em compaixão, não na ganância.

"De muitas maneiras, esta experiência destruiu a minha vida. Perdi aquilo que eu considerava importante, aquilo que era minha identidade. Pensava que minha carreira e o dinheiro faziam de mim alguém importante, digno da admiração dos outros. Quando perdi isso, não fiquei com nada além de mim mesmo. Hoje considero essa situação um presente. Um presente que eu nunca teria desejado, mas do qual eu precisava para encontrar uma verdade mais profunda."

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