Apocalipse ou enganação: o que foi o Bug do Milênio?

Victor Ferreira

Do Gamehall, em São Paulo

  • Reprodução/Dusan Calic

    Virada de 1999 para 2000 foi fonte de pânico para muita gente

    Virada de 1999 para 2000 foi fonte de pânico para muita gente

No final dos anos 1990, havia uma espécie de inquietude no ar, que podia ser sentido até por uma criança --tal qual este que vos escreve era naquela época--, especialmente nos últimos meses de 1999.

Além dos problemas típicos, havia um quase constante lembrete vindo de várias direções de que O MUNDO IA ACABAR.

A virada do milênio trazia um ar de mistério, e logo surgiu o medo de que algo terrível iria acontecer, de profecias de Nostradamus (lembra dele? Sou eu ou não falam mais este nome hoje me dia?) a cultos religiosos do fim do mundo.

O maior medo daquela época, porém, não vinha de nada particularmente esotérico, e sim do mundo tecnológico: o Bug do Milênio, também conhecido como Y2K (de "Year 2000", ou "Ano 2000") ou simplesmente "o problema do ano 2000", que prometia levar a humanidade de volta à Idade Média da noite para o dia.

Reprodução
Esse seria um retrato de meados de 2002, para quem acreditava nos estragos que o Bug do Milênio realizaria no mundo

Data menor economizava dados, acredite

Para entender o bug e a histeria que ele causou, é preciso de um pouco de contexto: nos anos 1960, o uso de computadores passou a ser mais comum dentro de agências governamentais e empresas. Por ser um equipamento extremamente caro e limitado, programadores e engenheiros procuravam diversas formas de diminuir seu uso de armazenamento e consumo de memória.

Uma maneira simples encontrada por todos era de salvar dois dígitos ao remover o "19" no registro de datas. Sendo assim, 1º de abril de 1964 seria reduzido para 010464 ao invés de 01041964 -- o que pode não parecer nada demais hoje em dia, mas naquela época cada byte contava.

Esta prática persistiu por décadas, até o ponto em que vários especialistas começaram a apontar uma possibilidade de erro grave: já que só os dois últimos dígitos são levados em conta, o computador subentende que está sempre no século 20. Ou seja, quando o ano 2000 chegasse, seu relógio interno não marcaria este número, e sim 1900.

Este bug causaria uma confusão interna na arquitetura e, diziam os mais alarmistas, poderia trazer consequências catastróficas às agências e companhias que tinham uma infra-estrutura computadorizada: o sistema econômico e bancário entraria em colapso por erros de cálculos e tarifas; usinas nucleares poderiam explodir por uma pane em seus serviços de controle automatizados; e falhas nos sistemas de transporte causariam inúmeros acidentes.

Apesar de avisos sobre os possíveis problemas existirem desde os anos 1970 --particularmente por parte do pioneiro da computação Bob Bemer, responsável pelas linguagens ASCII e COBOL-- o Bug do Milênio só começou a ser visto como uma ameaça à civilização moderna em meados dos anos 1990, quando computadores pessoais começaram a se tornar mais comuns no dia a dia das pessoas.

Por que nada aconteceu?

Uma investigação do governo americano em 1996 trouxe conclusões alarmantes, e a partir daí uma iniciativa global foi criada para atualizar estes sistemas, seja expandindo as datas para incluir o milênio em todo o sistema (o que era particularmente caro) até só fazer leves alterações em partes essenciais do código, para que a mudança para o século 21 ficasse subentendida. 

É estimado que US$ 580 bilhões tenham sido gastos em prevenção contra o Bug, sendo US$ 100 bilhões apenas nos EUA. O Brasil, por não ter uma infraestrutura tão tecnologicamente avançada, acabou não gastando muito com o processo.

Este esforço, inclusive, foi satirizado no clássico filme de comédia "Como Enlouquecer Seu Chefe", já que um dos deveres do protagonista Peter (Ron Livingston) é procurar  e corrigir datas com dois dígitos no código interno da empresa onde trabalha.

Reprodução
Ele odeia o trabalho dele profundamente, caso não tenha assistido ao filme

O medo do Bug do Milênio atingiu seu ápice em 1999, quando a mídia passou a cobrir extensivamente o fenômeno. Logo, o pânico de que a civilização moderna seria destruída levou pessoas a estocarem alimentos, comprarem armas e até construírem bunkers para sobreviver ao colapso mundial. Chegou ao ponto de que o terror causou o surgimento de um mercado paralelo, especializado em kits de sobrevivência para o Y2K.

Como você pode supor, a sociedade globalizada não foi destruída em 1º de janeiro de 2000, com o único evento relativamente preocupante acontecendo em uma usina nuclear do Japão, cujo equipamento de segurança falhou. Sistemas secundários, porém, evitaram que algo catastrófico acontecesse.

Reprodução
"OS ÚLTIMOS DIAS" - o tabloide satírico Weekly World News faz piada com o pânico envolvendo o Bug do Milênio

Desde então, há uma discussão sobre o legado do evento: será que o Bug do Milênio foi evitado com esta modernização do sistema de computação, ou nada de muito grave iria acontecer de qualquer forma, e o mundo entrou em pânico sem motivo? Por um lado, países como a Itália e a Coreia do Sul investiram pouco em proteção contra o Y2K, mas sofreram essencialmente os mesmos pequenos problemas que os EUA. Por outro, há relatos de que a atualização evitou erros graves dentro de governos e grandes companhias.

Curiosamente, durante os ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova York, o ambiente na cidade não se tornou ainda mais caótico graças à mudança no sistema de infraestrutura e transporte feitas originalmente como formas de prevenir ou diminuir os efeitos do Y2K.

Estamos livres disso para sempre?

Acredite ou não, o problema com registro de datas em computadores não acabou: em sistemas 32-bit com linguagem C, só é possível medir o tempo e hora até o dia 19 de janeiro de 2038, às 03:14:07 UTC (01:14:07 no Horário de Brasília). Ao que tudo indica, porém, o chamado Y2K38 é mais fácil de se resolver do que o Bug do Milênio.

Uma desvantagem do Y2K38 é que provavelmente não há outra música do Prince para servir de trilha sonora; já com o finado Y2K você poderia contar com "1999" --que não era inspirada no famigerado bug, claro.

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber as principais notícias do dia de graça pelo Facebook Messenger? Clique aqui e siga as instruções.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos