Como o passado brasileiro tem sido desvendado graças à ciberarqueologia

Gabriel Francisco Ribeiro

Do UOL, em São Paulo

Você já ouviu falar de ciberarqueologia? Pois deveria: um projeto nesta área, idealizado e realizado por brasileiros, tem desvendado vestígios antigos da história nacional no interior de São Paulo. Os pesquisadores conseguiram, com auxílio de computadores, descobrir pinturas rupestres que não foram observadas a olho nu. E isso pode até mudar para sempre a arqueologia.

A iniciativa começou em 2013, quando a USP (Universidade de São Paulo) realizou um seminário sobre ciberarqueologia. Foi o estopim para uma parceria surgir entre o MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia), o CITI (Centro Interdisciplinar de Tecnologias Interativas) e a norte-americana Universidade de Duke, com recursos da Fapesp. O projeto visava responder uma série de perguntas.

"A pergunta é: posso fazer a análise arqueológica sobre dados e não mais sobre o real? Essa pergunta maior tem várias implicações. E aí a gente juntou a engenharia com a arqueologia, mas vieram também a ciência da computação, a geologia, a biologia, antropologia, história... A ciberarqueologia é um dos campos em que a ciência se interpõe à computação e surge uma nova ciência que é da análise dos dados que sai desses técnicas", explica o coordenador do projeto Marcelo Zuffo, professor da EPUSP e membro do IEEE (Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos).

O projeto não é pioneiro no mundo – há outras formas de ciberarqueologia sendo trabalhadas mundo afora. Mas, segundo Zuffo, nenhuma chegou ao nível de escaneamento feito pelos brasileiros. Professor de arqueologia na USP e também um dos responsáveis pelo projeto, Astolfo Araújo relata que a forma que a pesquisa é feita por aqui pode mudar de fato a arqueologia.

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Caracteres presentes na Pedra do Sol, encontrada em Itapeva (SP)

"O que vimos de uso de ciberarqueologia no mundo é mais relacionado a estudos de monumentos, como escanear pirâmides e esse tipo de coisa. No Brasil não temos isso, então esforçamos métodos em escavações normais que não envolvem estruturas arquitetônicas. Como a maioria esmagadora dos sítios ao redor do mundo não tem nada monumental, no fim das contas nosso método vai ser mais útil para o desenvolvimento da arqueologia", aponta Araújo.

Como funciona a nova tecnologia

O projeto foi posto em prática já dentro de um estudo que Astolfo realizava também com ajuda da Fapesp: descobrir as ocupações mais antigas paleoíndias no Estado de São Paulo. Araújo não se opõe à presença da tecnologia nos trabalhos tradicionais de arqueólogos – muito pelo contrário, diz gostar da cabeça do engenheiro voltada a antecipar e resolver problemas.

Os pesquisadores seguem algumas etapas. "Primeiro escolhemos um sítio arqueológico. Além do processo escavatório clássico, vamos com várias tecnologias de escaneamento. Vamos com LIDAR, imageamemto 360º e imageamento Planar. A partir disso a gente coleta a base de dados", conta Zuffo.

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Escavação foi escaneada e reproduzida posteriormente com tecnologias

Até agora, a pesquisa já foi feita em três sítios arqueológicos: Abrigo da Santa e Abrigo de Itapeva, ambos localizados em Itapeva (SP), e o sítios Bastos, em Dourado (SP). No local escolhido, há o uso de drones, câmeras 360º e scanners, que servem para mapear em detalhes a área designada para a pesquisa.

Tudo é transformado em dados – e haja dados. Os pesquisadores até tiveram que construir um computador especial para a quantidade de dados resultantes dos processos. Só após o escaneamento do primeiro sítio foi gerado um volume bruto de 300 GB a 500 GB de dados.

Computador descobriu mais vestígios que o homem

Uma das primeiras surpresas do projeto foi perceber que os computadores foram capazes de detectar mais pinturas rupestres do que o olho humano - há indícios de presença humana no interior de SP há mais de 12 mil anos. O número total de objetos a mais ainda não está fechado já que a quantidade de dados a ser analisados é absurda, mas alguns já foram confirmados em uma nova visita de arqueólogos a campo.

"A capacidade de processamento do cérebro humano é limitada. Uma vez que você tem os dados armazenados pode lidar com eles de maneira que seria impossível. Pode fazer análises, usar algoritmos que mostram padrões que não consegue ver a olho nu. Ou o contrário: você achar que existe um padrão e o computador mostra que não. O resultado é que apareceram algumas figuras que não eram visíveis a olho nu, isso é espetacular", relata Astolfo.

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Arqueólogo Astolfo Araújo confirma em campo descoberta de arte rupestre em espiral após ser identificada pelo computador

Um dos próximos passos do projeto é fazer com que o sistema consiga entender automaticamente o que é o artefato analisado na base de dados – seja ele uma pintura rupestre, uma cerâmica, um osso humano ou uma pedra lascada. Além disso, agora os pesquisadores se perguntam: será que é possível, por meio dos padrões identificados, ligar o vestígio antigo a uma pessoa ou comunidade?

"Nós achamos que pode ter uma assinatura humana por trás de cada objeto, uma característica particular. A pergunta é: pode haver uma assinatura humana por trás disso? Aí o Astolfo falou que isso é muito importante para a arqueologia, já que pode dizer que é da mesma tribo ou até do mesmo artesão", aponta Zuffo.

Projeto já virou realidade virtual

Em visita à USP, o UOL Tecnologia teve a oportunidade de testar parte dos resultados do projeto: duas interfaces em 3D do Abrigo de Itapeva em óculos de realidade virtual. Uma delas é mais educativa e guiada, enquanto a outra é mais voltada a arqueólogos que queiram observar o sítio arqueológico. As plataformas criadas foram batizadas de Archeo VR.

A transformação do abrigo em 3D no óculos de realidade virtual foi possível graças ao escaneamento da área. E o resultado é bem bacana. A sensação ao usar o óculos de realidade virtual é que você está dentro do sítio arqueológico. A possibilidade de interagir com o ambiente é ainda mais legal e abre a possibilidade para que arqueólogos do mundo inteiro usem a tecnologia.

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Escaneamento do sítio arqueológico foi parar em óculos de realidade virtual

"A gente quer ter os dados na nuvem e arqueólogos do mundo todo pesquisando esses dados. Quem vai fazer isso é a equipe de Duke. A última etapa do projeto é abrir esse banco de dados. Dependemos de autorizações do MAE por questões éticas, autorização do Iphan, mas queremos fazer isso", anima-se Zuffo.

O óculos de realidade virtual aponta para outros benefícios além da troca de informações de um arqueólogo brasileiro com um chinês. Um deles envolve a própria proteção do ambiente escavado, que passa por constante degradação natural ou humana. O arqueólogo Astolfo Araújo, por exemplo, se anima com a possibilidade de ter o sítio em 3D para sempre, mesmo que ele seja destruído ou danificado.

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É possível observar caracteres de arte rupestre destacados no óculos de realidade virtual

Também dessa forma, arqueólogos podem visitar o sítio e fazer pesquisas sobre a escavação apenas usando o óculos, sem ir ao local e acabar aumentando o processo destrutivo do ambiente. A mesma possibilidade se abre para alunos: eles podem no futuro visitar um sítio arqueológico pelo óculos 3D, sem a necessidade de uma excursão ao local.

E para você? Bom, a equipe não descarta que os óculos apareçam no futuro em museus por aí e sugerem até games interativos que envolvam a arqueologia. Quem sabe você não acaba tendo a chance de virar um Indiana Jones por um tempo?

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