O que faz as pessoas voltarem para as redes sociais que odeiam?

Fabio Andrighetto

Colaboração para o UOL

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    Ansiedade em saber o que está ocorrendo com os outros fazem usuários voltarem para redes sociais

    Ansiedade em saber o que está ocorrendo com os outros fazem usuários voltarem para redes sociais

Você já sentiu vontade de apagar as suas contas em redes sociais e nunca mais voltar? Se isso já aconteceu, saiba que não está só. Tão comum quanto ter o desejo de deixar tudo para trás --e efetivamente colocar em prática essa vontade--  é voltar à rede social que abandonou. Esse comportamento curioso virou até objeto de estudo.

Em 2015, para tentar compreender por que algumas pessoas continuavam a usar a mesma rede social que planejavam sair, a Universidade Cornell, em Nova York, analisou mais de 5.000 usuários cadastrados no 99 Days of Freedom, site que pretende ajudar pessoas que querem deixar o Facebook como o AA (Alcoólicos Anônimos) faz pelos alcoólatras.

Essa pesquisa mostrou que questões relacionadas à privacidade e à vigilância tornam as pessoas mais propensas a voltar. Costumam voltar as pessoas que sentem necessidade de saber o que está acontecendo com outras pessoas, o que elas andam pensando e o que estão fazendo.

Para a psicóloga Ana Luiza Mano, coordenadora do site Psicólogos da Internet, a razão da volta pode estar ligada ao motivo da saída. Encontrar uma situação da qual não se sabe lidar pode ser o estopim do afastamento.

"Existe a possibilidade de ser um tema específico", diz. "Como a morte de alguém ou o fim de um namoro. Pode ser doloroso ver alguns tipos de postagens, mas quando isso se abranda fica mais fácil voltar."

Vai e volta

O administrador de empresa R.B.C., 37, apagou o perfil no Facebook, mas voltou em poucos dias. "Fiquei cansado no momento em que tudo era política", conta. "Depois voltei por causa de páginas que eram interessantes, mas nunca mais postei nada sério. Hoje, meu Face só tem besteira."

Depois de não aguentar mais "textões" sobre todos os temas possíveis, o publicitário F.B.A., 25, achou que era a melhor hora para desembarcar da rede social de Mark Zuckerberg. "Quando parecia que não poderia ficar mais ridículo, alguém ultrapassava esse limite. Todo mundo virou especialista em tudo", diz.

Segundo ele, a volta ao Facebook foi uma necessidade de trabalho. "Eu sempre escuto 'te mando no Face'. Mesmo existindo e-mail, algumas pessoas preferem assim, acham mais fácil. Só uso para recados profissionais e da família."

Mestre em tecnologias da inteligência pela PUC-SP, Fabio de Paula explica que, apesar de apresentarmos episódios de comportamentos antissociais ao longo da vida, somos seres naturalmente sociais e queremos conhecer e manter contrato com outras pessoas. "Eles voltam por causa da sociabilidade" diz, "mas voltam calejados, com outra visão do que são as redes sociais."

A designer A.C., 39, mesmo conectada, sentia falta do convívio social, por isso ela resolveu sair. "Sair para jantar com os amigos, se reunir em casa, e não ficar tirando fotos e olhando foto do que os outros estão fazendo", conta. "Querem entrar na sua vida e você quer entrar na dos outros."

"Resolvi tirar isso da minha vida e ver como eu me comportava, se aquilo era realmente essencial para mim", relembra. Ela também relata que voltou por motivos profissionais e que procura não dar atenção à opinião alheia.

Questões relacionadas à privacidade e ao narcisismo propiciado pelas redes sociais provocaram o afastamento da produtora de moda N. L., 38. "As pessoas inventam uma vida, uma besteira", conta. "Eu era no Facebook o que sou, mas esperavam uma personagem."

Para Fabio de Paula, nós ainda estamos nos adaptando ao virtual. Por não percebermos completamente a emoção da pessoa com quem estamos nos comunicando, a empatia fica debilitada e abre espaço para comportamentos antissociais.

Você não é capaz de compreender plenamente a emoção que alguém coloca em determinada frase. Muitas vezes isso pode ser mal interpretado.Fabio de Paula

A psicóloga Ana Luiza Mano ressalta que o contexto cultural também precisa ser considerado. Segundo ela, os brasileiros se relacionam com as redes sociais de uma maneira diferente do que fazem os norte-americanos, europeus, africanos ou asiáticos.

Para quem retorna à rede social ou pensa em abandoná-la, a psicóloga sugere reflexão. "Tente achar um meio termo, algo que você poderia fazer para não tomar uma atitude tão drástica nesse sentido."

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