Conheça a empresa que consegue recriar seu rosto com uma amostra de DNA

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/pnas.org

    Imagem mostra lado a lado indivíduo que teve seu genoma coletado e a predição via software

    Imagem mostra lado a lado indivíduo que teve seu genoma coletado e a predição via software

Você se lembra do projeto Genoma? De 1990 a 2000, foi uma iniciativa internacional para mapear e estabelecer a sequência do genoma humano. Este, por sua vez, é a coleção de genes com as instruções para "produzir" uma pessoa. Agora, em 2017, um dos principais nomes daquele projeto tem planos ambiciosos quanto às possibilidades científicas e comerciais da genética. Por exemplo, recriar rostos de pessoas apenas com amostras de DNA.

Na época do projeto Genoma, Craig Venter presidia a Celera, empresa que participou da iniciativa já com interesses comerciais sobre as futuras descobertas. Hoje, Venter é fundador e CEO da Human Longevity Inc, fundada em 2013 na Califórnia. A empresa está por trás de um estudo publicado em setembro deste ano, no qual rostos individuais e outros traços físicos foram previstos usando dados de sequenciamento do genoma inteiro e aprendizado de máquina.

O trabalho, publicado na revista "Proceedings da National Academy of Sciences", contou com 1.061 voluntários etnicamente diversos, com idade entre 18 e 82 anos, tendo seus genomas sequenciados e dados de fenótipo coletados, como imagens faciais 3D, amostras de voz, cor de olhos e pele, idade, altura e peso.

A equipe de Venter afirma ter previsto a cor dos olhos, a cor da pele e o sexo dos voluntários com alta precisão, mas outros traços genéticos mais complexos se mostraram mais difíceis.

A equipe também desenvolveu um algoritmo de aprendizado de máquina chamado algoritmo de entropia máxima, que cruzou informações fenotípicas e demográficas sobre a pessoa - cor de pele, sexo etc - com seus genomas mapeados. O objetivo do algoritmo era basicamente criar um "retrato falado" com esses dados. O resultado está na imagem acima, comparando os rostos originais (à esquerda) com seus equivalentes criados por software.

A identificação correta teria ocorrido, em média, em 80% dos casos de etnia diversa e 50% nos participantes afro-americanos ou europeus. Apesar dos cientistas acreditarem que seus primeiros modelos preditivos se aproximam do real, também creem que essa "fotografia" precisa se tornar mais precisa.

"Acreditamos que, à medida que aumentamos o número de pessoas neste estudo e no banco de dados para centenas de milhares, poderemos prever com precisão tudo o que pode ser predito dos genomas dos indivíduos", diz Venter, que é autor sênior do artigo - o autor principal é o alemão Christoph Lippert, cientista de dados da Human Longevity.

Privacidade e juventude

Essa descoberta pode trazer um evidente progresso para a polícia científica, responsável pelos retratos falados e análises de laboratórios de objetos de crime. Afinal, com fios de cabelo de um criminoso encontrados na vítima e talvez um relato de testemunha, o procurado ganharia um rosto bem mais próximo do que as técnicas atuais.

O estudo alerta, no entanto, que isso possa ter "sérias implicações para a privacidade dos dados, a identificação e o consentimento adequadamente informado", pois é necessária uma "maior deliberação pública à medida que mais e mais genomas são gerados e colocados em bancos de dados públicos".

O foco da Human Longevity vai além de auxílio à polícia. A empresa tem como missão usar o genoma para combater o envelhecimento e doenças de seus clientes.

Eles definem seu ramo como "Inteligência de saúde", que na prática seria usar informações avançadas baseadas em genômica para capacitar as pessoas a "moldar sua própria saúde e mudar a prática do medicamento de reativo a proativo, personalizado e preventivo", como por exemplo saber a pessoa poderá receber diagnóstico de câncer e por isso realizar algum tipo de tratamento preventivo prévio.

É basicamente um "Minority Report" da saúde. Também vem sendo chamada de medicina personalizada ou de precisão, pois o método permite desenvolver tratamentos individualizados. Hoje são identificadas mais de 3.000 doenças e a reação para cerca de 100 medicamentos por meio dessa técnica.

Se está achando tudo "muito Black Mirror" para seu gosto, saiba que dinheiro para isso não falta, pois a empresa foi capitalizada em 2014 com um fundo de investimento inicial de US$ 70 milhões. E tanta grana faz sentido, pois empresas de peso já têm seus próprios centros de pesquisa do genoma, como a P5 (pertencente à Sony), Google Genomics e IBM Watson.

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