Como Trump pode afetar radicalmente a exploração espacial

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação/SpaceX

    Trump quer passar a Estação Espacial Internacional para a iniciativa privada

    Trump quer passar a Estação Espacial Internacional para a iniciativa privada

Não é de hoje que a Nasa reclama do orçamento limitado para as viagens espaciais, mas isso pode mudar nos próximos anos. Uma proposta de corte orçamentário do governo Trump pode afetar radicalmente os rumos da exploração espacial no futuro próximo.

Trump quer cortar o orçamento destinado pelos EUA para a Estação Espacial Internacional, a ISS, para liberar mais verba para a Nasa. O lance mandatário é mandar astronautas para a Lua novamente.

Assim, a ISS se tornaria um empreendimento controlado pela indústria privada e não pelo governo. Em outras palavras, ele quer privatizar a estação espacial e, eventualmente, substituir a ISS por uma nova estação totalmente privada.

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A ISS custa entre US$ 3 e US$ 4 bilhões por ano aos cofres dos EUA. Entre construção, manutenção e custos operacionais, os EUA já gastaram quase US$ 100 bilhões com a estação.

Com a privatização, os custos da ISS deixariam de sair do bolso dos EUA, e a Nasa seria um dos potenciais clientes da estação espacial privada. Hoje, a agência espacial norte-americana e seus parceiros de outros países gerenciam a estação espacial e conduzem experimentos lá em cima.

A proposta deve encontrar rejeição entre os parceiros dos EUA na ISS e já bateu de frente com outros membros do partido Republicano, como o senador Ted Cruz, que acha idiota a ideia de abandonar a estação após investir bilhões de dólares nela, ainda mais quando ela continuará operacional até, pelo menos, 2028.

Além da ISS, outros projetos da Nasa seriam afetados pelas mudanças no direcionamento do dinheiro, como o telescópio WFIRST, equipado com um espelho do mesmo tamanho que o Hubble, mas com um campo de visão cerca de 100 vezes maior, excelente para vasculhar detalhadamente várias regiões do espaço ao mesmo tempo.

Vale notar, a construção do telescópio já teve problemas orçamentais - ele deveria custar US$ 1,6 bilhão e já passou dos US$ 3,2 bilhões.

Fabrici Coffrini/AFP
Trump quer levar a NASA de volta para a Lua e para isso vai tentar cortar verbas de outros projetos do programa espacial.

A proposta de Trump envolve também encontrar usos comerciais para a estação espacial. Mas a iniciativa privada não se anima muito com a ideia, pois a ISS é uma estrutura feita para pesquisa científica, o que inviabiliza viagens turísticas e outras formas de exploração. Sem possíveis fontes de renda, os custos de manutenção se tornam um problema.

Empresas como a Axiom Space, Bigelow Aerospace e NanoRacks até querem desenvolver módulos comercias para a estação espacial, mas não querem assumir o controle da ISS.

Corrida (turística) espacial

Abandonar o principal posto avançado dos EUA fora da Terra seria, a principio, deixar a China e a Europa assumirem a dianteira da corrida espacial, disse o vice-presidente da Aerospace Industry Association, Frak Slazer, ao Washington Post.

Mas até aí, é uma corrida que os EUA já estão perdendo. E não é de hoje. Desde que a NASA encerrou os voos dos ônibus espaciais, a agência depende de foguetes russos Soyuz para enviar astronautas para a ISS.

Divulgação/SpaceX
Trump quer levar os astronautas para a Lua e pegar carona na popularidade que Elon Musk obteve ao mandar um carro para o espaço.

Nesse sentido, empresas privadas como a Blue Origin e a SpaceX tem mais chances de sucesso e podem se beneficiar de uma estação espacial para mirar voos mais longos, como a sonhada viagem à Marte de Elon Musk.

As companhias privadas têm obtido sucesso em desenvolver e lançar foguetes mais sofisticados do que os da NASA - o recente voo do Falcon Heavy, da SpaceX, atraiu a atenção do mundo ao colocar um carro Tesla no espaço. Essas empresas têm planos bastante ambiciosos de viagem interplanetária e de exploração comercial do espaço próximo, como voos de passageiros em altitudes suborbitais e mesmo voos turísticos até a Lua.

Os planos de Trump para a Nasa são vagos, mas parecem querer pegar carona no sucesso da SpaceX, passando a batata quente que é gerenciar a ISS para os empresários e trocando a exploração do espaço próximo por possíveis viagens espaciais de longa distância.

As pesquisas desenvolvidas na ISS não são glamorosas quanto os voos da SpaceX e os pousos lunares do passado e, ao que parece, é isso que interessa ao presidente dos EUA.

Colônias extraterrestres

Trump quer levar os astronautas de volta para a Lua e fala disso desde os tempos da campanha presidencial. Além de render uma boa propaganda, o plano dos EUA parece ser instalar uma colônia no satélite. A Nasa segue com o projeto de uma nova estação espacial na orbita da Lua, chamada de Lunar Orbital Platform-Gateway.

A colônia lunar pode servir tanto como um teste quanto como uma base de suporte para viagens para planetas mais distantes. Não é um projeto barato: o orçamento da Nasa hoje é de US$ 19 bilhões ao ano e seriam preciso alguns bilhões a mais para construir e manter um projeto desse porte.

E se você acha que US$ 19 bilhões por ano parece muito, saiba que o valor corresponde a apenas 0,5% dos gastos do governo dos EUA, bem menos do que os 15% gastos em defesa ou dos 24% que vão para a segurança social norte-americana.

Todos os projetos necessários para a missão lunar, como a estação orbital e novos módulos de pouso, seriam cobertos pela verba destinada aos "sistemas de exploração avançada", seção da proposta de Trump que deve dar à Nasa mais US$ 889 milhões em 2019 e chegar a US$ 1 bilhão em 2022.

Divulgação/NASA
Para levar astronautas para a Lua, a NASA precisa desenvolver foguetes para substituir os ônibus espaciais, aposentados em 2011.

Seja para a iniciativa privada ou para as agências estatais, a próxima parada da corrida espacial deve ser em Marte. Mas é pouco provável que Trump esteja no Salão Oval quando os astronautas chegarem ao planeta vermelho.

Mesmo com um incremento considerável no orçamento, a Nasa ainda está desenvolvendo o foguete Space Launcher System e sua nova nave, a Orion.

A agência só vai conseguir lançar missões tripuladas por volta de 2023 e estima levar pessoas para a Lua novamente no mínimo em 2024. Ou seja, depois do fim de um segundo mandato de Donald Trump.

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