Quero meu próprio "bitcoin": veja como criar sua moeda virtual

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução

Desde que o valor do bitcoin subiu consideravelmente ao longo do ano passado (atingindo a marca de US$ 20 mil), a criptomoeda começou a atrair o interesse de muita gente.

Mas o bitcoin está longe de ser a única moeda virtual do mundo. Longe disso. O site CoinMarketCap lista incríveis 1.542 criptomoedas diferentes.

Claro, a popularidade do bitcoin é um componente nesse número, mas não é o único. O fato é que qualquer um pode criar a qualquer momento uma criptomoeda. Então, você me pergunta: se eu quisesse criar meu próprio dinheiro virtual, o que eu teria que fazer?

Antes de mais nada, vale lembrar: uma criptomoeda é um registro digital criptografado que tem valor financeiro e funciona como um dinheiro em papel. A diferença é que todas as transações são feitas 100% pela internet.

Tenha amigos

Divulgação

Para uma criptomoeda ter sucesso, ela não pode simplesmente ser usada apenas pelo seu dono (ou grupo de criadores). Isso parece óbvio, mas é sempre bom ressaltar que uma moeda virtual sozinha não vai ter valor nenhum se ninguém a utilizar.

Mesmo sendo virtuais, as criptomoedas seguem a lógica: quanto mais gente estiver fazendo transações com ela, mais valor ela tende a alcançar.

Veja o que aconteceu com o bitcoin. Há quase 10 anos, quando foi criado, ele não tinha um valor muito alto. Com o tempo mais e mais pessoas foram acreditando, comprando, minerando e a criptomoeda  se tornou a mais popular hoje em dia.

Assim, tenha amigos e reze para os amigos dos seus amigos também gostarem da ideia. Ter uma rede de pessoas que confiem em sua criptomoeda e acreditem no potencial dela é fundamental.

Antes de investir tempo e dinheiro na criação do dinheiro virtual (também pode ser chamado critptoativo), é interessante se aproximar de pessoas entusiastas do tema, entrar em comunidades, observar comportamentos e encontrar oportunidades.

"A criptomoeda depende da comunidade, depende que ela seja alimentada nessa comunidade", afirma João Carlos Lopes Fernandes, professor do departamento de engenharia de computação do Instituto Mauá de Tecnologia.

Se não é programador, pague por uma solução pronta

Getty Images

Sendo bem simplista, a criptomoeda é um registro digital criptografado que funciona dentro de um banco de dados poderoso e seguro chamado blockchain (sistema de blocos) que possibilita as transações.

Para criar esse arquivo virtual e o banco de dados você precisa ter conhecimentos de programação e criptografia e uma equipe que desenvolva isso bem. É bom saber também que algumas criptomoedas têm o seu código aberto e disponível para quem quiser acessar. Então, podem servir de inspiração.

Caso não seja um expert na área, existem algumas opções. Há vários sites e programas que podem ser usados para você criar a sua criptomoeda. Com alguns deles, você pode escolher até o tipo de criptografia mais adequado para você.

Já no caso do blockchain, você pode usar sistemas prontos e que já estejam consolidados, como os do bitcoin e do etherium (que também dá nome a uma criptomoeda).

"Não vamos inventar a roda. O custo é menor de usar algo pronto e que já funciona bem. Se você for criar o seu blockchain, por exemplo, terá mais um trabalho que será o de convencer as pessoas de que é um sistema seguro e tão bom quanto os demais", afirma o professor Fernandes.

"E antes de tudo você tem que se preocupar com o que a criptomoeda representa, a quem ela vai atender, a quantidade que você vai emitir e como será sua distribuição. Qual é o anseio da comunidade para você lançar essa moeda? O valor dela só existe se tiver alguém disposto a aceitar. Se você errar aí, ela não vai valer nada", ressalta Carl Amorim, representante do Blockchain Research Institute no Brasil, sobre a importância de ter um projeto prévio bem consolidado antes de sair por aí pesquisando plataformas para dar vida ao seu criptoativo.

Tenha um equipamento bom

iStock

No universo das criptomoedas não existe um servidor potente que centraliza todo o processamento. O que acontece é que vários computadores ligados uns aos outros na mesma rede trabalham incessantemente emprestando seu poder computacional para administrar o sistema e gerar mais e mais dinheiro virtual.

O processo é popularmente chamado de mineração e envolve a validação de todas as transações feitas dentro do blockchain.

Por isso, você precisa ter um computador que tenha no mínimo uma placa de vídeo potente e um processador rápido. Sabe aquele computador "gamer", voltado para quem ama jogar pelo PC? Então, muita gente tem investido neles para a mineração. 

As configurações variam com os diversos tipos de criptomoedas e por isso é difícil definir qual é o equipamento ideal. De qualquer forma, é fundamental ter uma máquina voltada apenas para a mineração. Não é aconselhável usar o computador do dia a dia, mesmo que ele seja bom.

O investimento médio começa a partir de R$ 2 mil, segundo Fernandes. Para se ter uma ideia, um levantamento feito pelo site  TechRadar apontou as seis melhores placas gráficas para a mineração de criptomoedas. Os preços variam de US$ 449 (Nvidia GTX 1070 Ti) a US$ 1.299,99 (Nvidia GTX 1080 Ti). Algo como R$ 1.508 e R$ 4.368, sem impostos.

Uma outra pesquisa feita em dezembro do ano passado aqui no Brasil apontou as configurações ideias para uma máquina com boa performance e custo-benefício. Imagina o valor? 

Bom, unindo o processador AMD Ryzen 5 1600 (na época R$ 700), placa de vídeo Nvidia GeForce GTX 1060 6GB (R$ 1.300) e outros componentes chegou-se ao total de R$ 3.545. 

É para o bolso sangrar, não? Mesmo assim, nem pense em usar o seu equipamento para minerar outras moedas virtuais. Segundo os especialistas, elas estariam competindo entre si e a chance da mineração ser efetiva diminui bastante. 

Outro ponto importante é assegurar que o seu equipamento é seguro. No começo, você pode achar que ninguém vai tentar roubar seus dados ou sua criptomoeda ou ter acesso aos seus dados. Mas é melhor não correr esse risco.

Proteja o equipamento com senhas criptografadas e mantenha o antivírus, firewall e sistema operacional atualizados.

Estude o mercado financeiro e fique de olho na legislação

Reprodução/Pixabay

Para convencer seus amigos e a sua rede que a sua criptomoeda é interessante, você precisa entender bem a lógica do mercado financeiro e o que quer alcançar com o seu ativo digital.

Assim como na bolsa de valores, moedas fortes convencem melhor e conseguem mais investimentos do que as fracas. É só lembrar do dólar, do euro, da libra.

"Depois que você criou a sua marca você precisa ter aceitação mundial. Isso é complicado. Olha onde o bitcoin chegou. É conhecido no mundo inteiro. Por isso, tem que convencer pessoas e permitir que a sua criptomoeda exista e seja movimentada em diferentes países. Isso contribui também para que ela ganhe relevância", explica o professor Fernandes.

A necessidade do seu dinheiro virtual existir fora do Brasil também é importante, pois há algumas polêmicas envolvendo a falta de uma legislação brasileira específica valide ou invalide as criptomoedas. Imagina se daqui alguns anos a sua moeda virtual fica supervalorizada e uma nova lei proíbe a movimentação de qualquer dinheiro do tipo? O prejuízo será enorme.

Além disso, é bom lembrar que a flutuação das criptomoedas é muito alta. Então, se as pessoas começarem a comprar demais ou a vender muito, o valor do seu ativo financeiro vai oscilar bastante.

É preciso ter mineradores

Qilai Shen/Bloomberg

Só a criação da sua criptomoeda não é suficiente para que ela cresça. Mesmo que ela comece a ficar popular em sua rede de conhecidos, na prática é fundamental que você tenha computadores minerando criptoativos no blockchain que você adotou.

A mineração consiste em ter computadores ligados dentro da mesma rede (blockchain) que ficam trabalhando juntos para aumentar a capacidade desse sistema.

Em criptomoedas como bitcoin e monero, as máquinas ficam tentando resolver equações matemáticas. Ao resolver um problema, o computador envolvido é remunerado com uma parte do dinheiro virtual.

E é por isso que muitas pessoas e empresas têm montados estruturas gigantescas numa tentativa de obter lucro com esses pagamentos. Imagine você ganhando um monte de centavos e a cada problema resolvido o sistema acrescentar mais e mais a esses centavos.

A resolução matemática é o tipo mais comum usado na lógica das criptomoedas, mas as possibilidades são inúmeras.

Por exemplo, o criador da criptomoeda X pode definir que o seu sistema vai gerar mais dinheiro virtual conforme o número de downloads e uploads em determinados lugares. Ou então, pela quebra de criptografia dos pixels de imagens espalhadas pela internet.

Isso tudo é definido antes de você lançar a sua criptomoeda na rede.

Segundo Fernando Barrueco, diretor da Bomesp (Bolsa de Moedas Digitais Empresariais de São Paulo), se você utilizar um blockchain pronto (como do bitcoin e etherium) o trabalho de convencer pessoas a minerar para você será bem menor. Isso acontece, pois dentro desses sistemas existem outras inúmeras moedas virtuais funcionando em paralelo. Quando uma máquina trabalha, por exemplo, para minerar o bitcoin, ela alimenta o funcionamento de todo o sistema. Com isso, tudo o que está ali dentro, seja bitcoin, seja a moeda X, Y e Z, funciona também.

Tenha dinheiro "real"

Getty Images/iStockphoto

E a dica de outro que vai permear todo os passos anteriores é: tenha dinheiro!

Se você quer ter chances de ver sua criptomoeda deslanchar, vai precisar investir bastante. Seja no equipamento, seja na segurança, seja no processo de convencer toda uma comunidade de que sua moeda pode ser interessante para eles.

Infelizmente, não há um valor determinado para isso. Mas só para termos uma ideia, tudo será baseado na relação: custo de um equipamento com configuração rápida (com placa de vídeo e processador bons) + custo do desenvolvimento ou utilização de um blockchain já existente no mercado + custo de uma conexão com internet boa (em média, mais de 1GB). 

E não se esqueça de que a conta de luz também vai aumentar.

Aceite que pode fracassar

Getty Images

Bom, existem mais de 1.500 moedas circulando por aí, por isso você pode fracassar.

Os especialistas ouvidos pelo UOL foram unânimes neste tópico: tenha um projeto bem elaborado e que traga um diferencial para a comunidade que você deseja alcançar. Isso aumentará suas chances.

Depois de tudo isso, você pode estar pensando "quanto trabalho, não?". E realmente é. O sucesso ou fracasso do seu dinheiro virtual depende de uma série de fatores e não é simples como muitos pensam. Por isso, estude bem o cenário, desenvolva um projeto de criptomoeda interessante e tenha sorte. 

Contribuíram com a reportagem:

  • Carl Amorim, representante do Blockchain Research Institute no Brasil
  • Fernando Barrueco, diretor da Bomesp (Bolsa de Moedas Digitais Empresariais de São Paulo) e representante da Fundação Niobium, entidade internacional sem fins lucrativos que possui sua própria criptomoeda
  • João Carlos Lopes Fernandes, professor do departamento de engenharia de computação do Instituto Mauá de Tecnologia.

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