Tecnologia que monitora emoções quer mudar a produtividade e o consumo

Do UOL, em São Paulo

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Tecnologias que monitoram emoções e programas de inteligência emocional artificial podem ser a próxima evolução na produtividade no trabalho, principalmente em profissões altamente estressantes, onde a capacidade de tomar decisões corretas com rapidez significa ganhar ou perder milhões.

Elas prometem melhorar a concentração e a produtividade, mas levantam questões sobre até onde as empresas podem invadir a privacidade de seus empregados.

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Desenvolvida pela Philips em parceria com o banco holandês ABN AMRO, o Rationalizer, é uma ferramenta composta por dois itens: um estiloso bracelete que vai no pulso dos corretores do banco e mede seu estado emocional via atividade elétrica subcutânea (de forma bem parecida com a que um detector de mentiras ou o Apple Watch funciona) e uma bacia com luzes LED que mostra a intensidade dessas emoções com padrões de cores.

O bracelete envia as informações para a bacia via wi-fi. O nível de estresse do usuário é indicado por luzes vermelhas. Quando o corretor vê que o "espelho de emoções", nome meio cafona da bacia, está muito vermelha, é hora de parar de comprar e vender ações e ir tomar um copo d'água e dar uma relaxada antes de voltar para as suas negociações.

Veja o Rationalizer em ação

Segundo os pesquisadores da Philips, quando o usuário tem noção de seu estado emocional, ele é mais propenso a repensar suas decisões. Além de melhorar a produtividade, as informações adquiridas pelo Rationalizer podem ajudar os gestores a compreender os fatores internos e externos que influenciam os riscos tomados pelos grupos no ambiente de trabalho.

Economia emocional

O monitoramento de emoções também interessa ao varejo e, na universidade de Claremont, nos EUA, um grupo de pesquisadores acredita que produtos e serviços otimizados emocionalmente serão o padrão "muito em breve". "Qualquer negócio com um consumidor vai ser afetado pela habilidade de medir a reação emocional do cliente", diz o diretor do centro de estudos neurocientíficos da universidade, Paul Zak.

A Affectiva é uma startup nos arredores de Boston, nos EUA, que desenvolve uma plataforma para produtos emocionalmente inteligentes, usando sensores para mapear as expressões faciais dos consumidores e, por meio de aplicativos de inteligência artificial, interagir com eles de forma apropriada. Ela quer levar essa ferramenta para todo tipo de produtos e mercados.

Em 2016, a Apple adquiriu uma empresa similar, a Emotient, que desenvolve uma tecnologia de leitura facial para interpretar emoções. Ou seja, em breve o seu iPhone será capaz de saber, por conta própria, como você está se sentindo, só de olhar para ele.

Invasão de privacidade?

Mas por melhores que sejam as intenções, será que é legal que as empresas tenham esse nível de informação e até mesmo controle sobre seus funcionários e clientes?

Para o doutor Pedro Henrique Demercian, professor assistente-doutor de Direito Processual Penal da PUC-SP, o avanço de tecnologias como o Rationalizer e a Affectiva, tende a limitar cada vez mais a privacidade do indivíduo, ficando cada vez menos livre de interferências alheias.

Segundo ele, o Rationalizer, principalmente por fornecer dados do estado emocional dos usuários para seus gestores, viola princípios éticos de convivência

Há notória violação à intimidade, que é aquela esfera do indivíduo que é resguardada até mesmo no âmbito familiar

Pedro Henrique Demercian, professor assistente-doutor de Direito Processual Penal da PUC-SP

"O empregador, portanto, mais do que invadir a privacidade, está invadindo uma esfera ainda mais restrita que é a própria intimidade, que é tutelada constitucionalmente", alerta o doutor.

Interação com o público

Um dos usos mais criativos das tecnologias de monitoramento emocional nasceu da vontade da DJ norte-americana Rana June saber mais sobre o engajamento do público durante seus shows. Para a artista, quanto maior o espetáculo, mais difícil era saber se o público estava curtindo a performance.

"Toda noite eu saía do palco e checava o que as pessoas falavam no Twitter", lembra June. "Mas você não sabe quem elas são. E se elas estão tuitando durante o show, elas estão mesmo envolvidas? São dados muito incompletos".

Ela decidiu testar uma ideia nova quando se apresentou no jantar dos correspondentes, a concorrida festa da imprensa na Casa Branca, em 2012. Usando o Kinect, da Microsoft, a DJ criou uma zona de detecção de movimentos na área próxima ao palco e deixou o mapa de calor gerado pelo dispositivo guiar sua apresentação. Se uma parte da zona parecia ter menos gente ou estar mais parada, June dirigia sua atenção para aquele lado.

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Rana June teve a ideia para a Lightwave quando atacava de DJ

A coisa deu tão certo que Rana June desenvolveu a partir daí a Lightwave, uma startup que planeja coletar e analisar em tempo real dados emocionais do público em eventos. Ao colocar pulseiras similares ao Rationalizer nos braços dos torcedores de uma partida da liga universitária de basquete e sensores de som escondidos no estádio, a Lightwave é capaz de coletar milhões de dados, que mostram como o público está se sentindo a cada décimo de segundo da partida.

As informações geradas pela Lightwave são valiosas para organizadores de eventos, artistas e, principalmente, para profissionais do marketing e anunciantes. Ao monitorar em tempo real o estado emocional da torcida de um evento esportivo, você pode decidir o melhor momento para veicular uma propaganda, por exemplo.

Desde 2012, a Lightwave fornece essas informações para empresas como Google, Pepsi, 20th Century Fox, Jaguar e outros. O estudo feito pela empresa no torneio de basquete universitário dos EUA foi patrocinado por uma marca de desodorante da Unilever, a terceira maior empresa de bens de consumo do mundo.

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As pulseiras usadas pela Lightwave para monitorar a torcida da NCAA podem ser substituída por tatuagens temporárias num festival - ou pelo smartwatch que já vai estar no braço do espectador.

Por todos os lados

As tecnologias de monitoramento de emoções atuais envolvem acessórios específicos, como pulseiras como o Rationalizer e as da Lightwave, ou, pelo menos, câmeras com sensores para mapeamento facial. Uma companhia nos EUA chamada MC10 já produz adesivos chamados "biostamps" para monitoramento médico e a tecnologia pode ser adaptada para tatuagens temporárias capazes de transmitir dados para a Lightwave, por exemplo.

Mas isso deve mudar nos próximos anos, com a popularização da internet das coisas.

Seu telefone tem uma câmera, sua TV e seu laptop também. Todos os dados coletados por eles podem se juntar as informações biométricas do seu gadget vestível e montar um perfil emocional de você 

Rana el Kaliouby, CEO da Affectiva

Ela acredita que entre três ou cinco anos, todos os nossos aparelhos serão capazes de monitorar emoções. "E assim como monitoramento de localização foi de assustador para comum em poucos anos, os dados emocionais também vão se tornar uma parte corriqueira dos negócios".

Ainda assim, a executiva sabe que questões sobre privacidade surgirão com a popularização da economia emocional. Kaliouby diz que a Affectiva já recusou vários clientes que queriam usar sua tecnologia de forma invasiva. "Queremos dar suporte para usos da tecnologia onde as pessoas querem compartilhar suas emoções e não para os usos que tentam arrancar informações que as pessoas não decidiram compartilhar".

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