Quatro minutos: esse é o tempo pra você virar milionário no Vale do Silício

Gabriel Francisco Ribeiro

Do UOL, em Sunnyvale (EUA)*

  • Gabriel Francisco Ribeiro/UOL

    Entrada é recheada de placas com empresas que passaram pela Plug and Play e foram compradas por gigantes

    Entrada é recheada de placas com empresas que passaram pela Plug and Play e foram compradas por gigantes

Para muitos, ficar milionário é algo que pode levar toda uma vida - ou nem isso. Na região do Vale do Silício na Califórnia (EUA), berço e lar de grandes empresas de tecnologia da atualidade, o tempo para alcançar isso é quase o mesmo do preparo de um macarrão instantâneo: quatro minutos.

Esse é o tempo que uma startup tem para "se vender" nos dias de seleção da Plug and Play, uma das maiores aceleradoras de novas empresas no mundo. O processo começa com uma inscrição no site da Plug and Play e, se eles gostarem, pode culminar com uma chance de apresentação. Nesse estágio, em menos de cinco minutos, as empresas devem contar sua trajetória e dizer para possíveis futuros investidores por que são diferentes de outras tantas concorrentes. Haja pressão.

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O UOL Tecnologia esteve na aceleradora em um dia de seleção de companhias de viagem e pode perceber que a pressão já começa na entrada da Plug and Play. Toda a parede do hall de entrada da companhia, que ocupa um largo espaço em Sunnyvale (56 km ao sul de San Francisco), é ocupada por quadros com nomes de empresas que foram aceleradas por lá e compradas por gigantes.

A aceleradora é famosa por ter sido a casa inicial, por exemplo, de PayPal e Dropbox. Hoje, ambas as companhias valem, respectivamente, cerca de US$ 97 bilhões e US$ 7 bilhões. Outras tantas que passaram pela Plug and Play foram compradas por Google, Apple, Yahoo, LinkedIn, Microsoft, Intel... A gigante aceleradora, com presença em 28 países ao redor do mundo, é o lugar para uma nova empresa de tec estar.

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Algumas das várias empresas que mantêm relações com a aceleradora

"A Plug and Play é importante porque tem conexões. Tudo hoje em dia envolve conexões", apontou o islandês Hilmar Halldórsson, CEO da empresa Trip Creator, enquanto se preparava para a sua vez na apertada sala com representantes de algumas das principais empresas de turismo do mundo, entre aéreas e hoteleiras.

O dia de seleção muda totalmente o clima da Plug and Play, que é invadida por homens e mulheres de todas as partes do mundo em busca de um lugar ao sol. Em uma tarde, até 40 empresas se apresentam uma após a outra, como se fosse uma linha de produção de fábrica.

São quatro minutos de apresentação e mais dois de perguntas e respostas para cada companhia. Ao fim, os representantes das empresas de turismo votam nas que seguirão no programa. 

Tensão e nervosismo?

Do lado de fora da sala – a reportagem não pode entrar para acompanhar as sigilosas apresentações – o clima é misto. Alguns se preparam com notebooks e tablets, outros olham de relance para o que ocorre lá dentro. Há até quem reclame.

"Era pra gente estar lá dentro", criticava um dos executivos que teria uma apresentação mais tarde. Esse representante, por sinal, tentava passar ar de tranquilidade e dizia que não sentia pressão frente a outros concorrentes – ele achava, inclusive, que eu era um dos possíveis adversários e por isso se afastou da mesa em que estava.

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Apresentações a portas fechadas selam destino de startups em dias de seleção

Dentro da sala, algumas apresentações rendiam aplausos calorosos e outras nem tanto. Fora, Halldórsson, animado com a presença da Islândia na Copa do Mundo de 2018, acompanhava tudo de longe enquanto conversava com a reportagem e também checava seu smartphone. Contudo, não demonstrava um grande nervosismo com os quatro minutos que poderiam mudar sua vida.

"Não é tanta pressão, são poucas pessoas ali dentro. Já fiz apresentação para três mil pessoas, aquilo foi pressão. Em quatro minutos você precisa ser direto e se diferenciar dos outros. Tenho só 10 slides de PowerPoint para apresentar, acho que vai dar tempo", explicou o executivo islandês.

Se deu tempo ou não, a reportagem não pode acompanhar. Um longo dia, seguido ao menos de uma recepção à noite que agradaria quem não fosse selecionado em busca de contatos, aguardava todos os executivos tensos e animados por ali.

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Na parede, quadro mostra nível atual de valorização de empresas que passaram por lá

Ah, lembra do CEO que criticou o fato de não ouvir os outros concorrentes dentro da sala e que dizia estar totalmente tranquilo? Enquanto a reportagem ia embora, ele estava fumando um cigarro no térreo da Plug and Play antes de sua entrada na sala. Nervoso, eu?

Por que a Plug and Play?

A imagem da Plug and Play que move o imaginário de inúmeras startups ao redor do mundo vem dos cases de sucesso de tantas empresas que foram aceleradas por lá. As conexões compartilhadas no local, que tem apenas 150 funcionários realmente ligados à companhia, são o que faz a aceleradora ser tão atrativa. Não à toa, seu slogan é "o Vale do Silício em uma caixa".

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Bancadas baixas em área premium permitem conversas com visitantes importantes

As companhias que passam pela seleção ganham o direito de usufruir por alguns meses gratuitamente de um espaço – em geral, cubículos com algumas cadeiras – em uma espécie de área premium da Plug and Play, no segundo andar. Por lá, podem aproveitar um pouco também da infraestrutura da companhia, além da ajuda de conselheiros com passagens por grandes empresas. Mas o verdadeiro diferencial é mesmo estar presente por ali.

"Costumamos receber visitas de presidentes de países e CEOs de grandes empresas do mundo. Você pode estar sentado em sua mesa, uma pessoa importante passar e querer descobrir o que sua companhia faz. Disso, pode sair uma parceria", explica Allison Romero, diretora de marketing da Plug and Play.

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Banco do Brasil está na Plug and Play

Foi o que aconteceu, por exemplo, com a reportagem – embora não estejamos à altura de presidentes ou CEOs, claro. Em uma volta pela Plug and Play, foi possível bater papo com alguns empreendedores que estão lá – entre eles, existe uma área alugada pelo Banco do Brasil em uma parceria com a empresa.

Em um cubículo animado, o UOL Tecnologia pode conhecer também a companhia eleita a melhor do mês: a Game Commerce já está há dois anos na Plug and Play (passaram a alugar um espaço após o fim do programa) e já colhe os frutos, desenvolvendo jogos interativos no celular para empresas como Puma, Dunkin'  Donuts e até o canal brasileiro Esporte Interativo.

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Game Commerce, empresa do mês, faz jogos interativos para celulares

Ser a companhia do mês é algo grande: seu nome também vai para um quadro em alguma das paredes do enorme prédio que abriga áreas de lazer, restaurantes e permite a entrada de cachorros. É por meio desses quadros, inclusive, que a competição até alucinante é estimulada – um deles mostra o quanto cada companhia famosa que passou pela aceleradora vale agora.

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Plug and Play tem área de descanso para funcionários e visitantes em busca de sucesso

Com nervosismo ou não, casos de sucesso de origem quase instantânea não faltam por lá. E é possível imaginar que um dia faltem paredes para tantos quadros na Plug and Play.

*O repórter viajou a convite do Airbnb

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