Fonte de renda do Facebook, dados pessoais viraram produto

Giovanni Santa Rosa

Colaboração para o UOL

  • Reprodução/CNN

    Em entrevista, Mark Zuckerberg explica o uso de dados no Facebook

    Em entrevista, Mark Zuckerberg explica o uso de dados no Facebook

O mais recente escândalo envolvendo o Facebook elevou a uma proporção gigantesca um problema que tem aparecido aos poucos há um tempo: não apenas deixamos muitos dados nas redes sociais, mas também essas informações são usadas para influenciar pessoas, vender produtos e identificar personalidades. 

"Hoje, os dados são uma commodity como o petróleo. Ainda estamos descobrindo o potencial deles e o que pode ser feito a partir dessa matéria-prima", diz Anderson Ramos, sócio-fundador e CTO da Flipside, empresa de segurança da informação engajada na conscientização de uso de dados.

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Os usos mais comuns do big data (nome dado ao gigantesco volume de dados reunidos hoje em dia) estão na publicidade, no comércio e nos negócios. Programas de computador com inteligência artificial analisam os dados e identificam padrões para entender melhor o perfil de consumidores ou clientes.

Mas a captura de dados não é só na internet: na China, câmeras instaladas nas ruas conseguem identificar pessoas apenas pelo seu jeito de andar. 

Você consegue fazer análise de imagem das câmeras de uma loja e gerar um mapa de calor que mostra quais são os corredores e gôndolas mais visitados

Mauro Sartin, diretor da Extractta

Sartin lembra também que o próprio smartphone é uma fonte de dados bastante rica. Apps e jogos aparentemente inofensivos e simplórios podem pedir permissões amplas e explorarem os dados obtidos.

Sites de passagens aéreas e de reservas em hotéis também usam big data para mostrar preços de acordo com o perfil e o poder aquisitivo do consumidor, conta Ramos.

Também há suspeitas sobre as redes de farmácias e as informações que elas coletam sobre seus clientes. "Isso pode ser usado por planos de saúde para descobrir doenças pré-existentes, ou mesmo por empresas na hora de escolher quem contratar ou demitir", afirma o CTO da Flipside.

A campanha de Trump se baseou justamente nisso: entender o eleitorado, seus valores e suas preocupações. A partir disso, publicações sugeridas mostravam artigos que apontavam o republicano como o candidato ideal para aquela pessoa. Ao que tudo indica, a mesma estratégia foi empregada também da campanha do Brexit, votação que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia.

Quem decide a eleição não são os ativistas ou os eleitores engajados, e sim as pessoas que decidem de última hora, os chamados 'swing voters'. A Cambridge Analytica mapeou o perfil dessas pessoas para formatar a campanha de um candidato ideal. 

Anderson Ramos, sócio-fundador e CTO da Flipside

Além disso, existem outras ferramentas para mapear nosso comportamento na internet -- mesmo visitas em sites podem servir para identificar quem nós somos e o que fazemos na rede. Com isso, é possível elaborar estratégias bastante sofisticadas.

"Um site falso, supostamente de uma posição ideológica A, começa a plantar notícias falsas sobre ações absurdas de grupos dessa posição A e mapear os visitantes do site. Outro site, também falso, de ideologia B, oposta a A, mas feito pelo mesmo grupo, é criado para criticar as ações fictícias dos militantes de A. A partir dos visitantes de ambos os sites, dá para mapear quem são os usuários, suas preferências e seus comportamentos, e isso serve para qualquer candidato, seja ele extremista ou moderado", explica Ramos.

 Ainda assim, segundo os especialistas, não é o caso de condenar uma tecnologia porque há um mau uso dela. As possibilidades de usos positivos do big data também são amplas. "O próprio Facebook, por exemplo, usa uma inteligência artificial para tentar prevenir suicídios, baseado nos padrões de comportamento dos usuários", explica Ramos. Já Sartin afirma que a cura de doenças pode ser descoberta graças ao uso massivo de dados e a análise usando inteligência artificial.

Como se proteger?

Depois de ler tudo isso, você deve estar se perguntando o que pode fazer para proteger seus dados e informações. Os três especialistas ouvidos pela reportagem concordam em um ponto: é preciso ter consciência no uso das redes sociais e aplicativos.

"Você não sairia por aí ostentando para pessoas desconhecidas ou brigando com elas, então, por que você faria isso nas redes?", argumenta Sartin.

Magrani recomenda que o usuário do Facebook fique atento a apps, jogos e enquetes e observe sempre os termos de uso, para saber que informações estão sendo coletadas e como elas serão usadas. O especialista também diz que rever suas configurações pode ajudar. "Hoje, já dá para colocar sua lista de amigos como particular", diz o coordenador da área de direito do ITS Rio.

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