De olho na segurança

O que Zuckerberg não explicou sobre a crise do Facebook?

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

  • Stephen Lam/Reuters

    Zuck decidiu falar, mas deixou muitas perguntas sem resposta

    Zuck decidiu falar, mas deixou muitas perguntas sem resposta

Mark Zuckerberg pediu desculpas ao longo da quarta-feira (21) pelo escândalo político dos últimos dias que envolveu o Facebook e a empresa britânica Cambridge Analytica.

Na sua página e em entrevistas: pediu desculpas e adiantou algumas medidas que o Facebook tomará sobre o caso e sobre a privacidade dos usuários. Por outro lado, também se absteve de dizer ou esclarecer pontos importantes do caso.

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Por que o Facebook tentou impedir a imprensa?

No tuíte abaixo, Carole Cadwalladr, repórter do jornal britânico "The Observer", pertencente ao mesmo grupo do "The Guardian" (um dos jornais que deram em primeira mão a entrevista com o delator da Cambridge, Christopher Wylie) alega que o Facebook tentou processar o veículo.

"Nós lutamos contra três ameaças legais da CA & uma do Facebook. É um trabalho de um ano inteiro e nós o demos para @Channel4News & @nytimes para o bem maior", disse Carole.

O próprio "Guardian" havia dito em sua reportagem que antes da história ser divulgada, advogados do Facebook alertaram o "Observer" de que ele estava fazendo alegações "falsas e difamatórias" e que poderiam tomar ações legais. O Facebook negou ainda que a coleta da Cambridge Analytica foi uma "violação de dados".

[ATUALIZAÇÃO 23.mar.2018 10h36] Campbell Brown, chefe de parcerias de notícias do Facebook, reconheeceu em um evento promovido pelo jornal "Financial Times" na quinta (22), que foi um erro do Facebook ameaçar legalmente o "Guardian" e o "Observer". "Provavelmente não foi o nosso passo  mais sábio", disse ela.

Por que o Facebook não abriu o jogo na época?

Reprodução/Universidade de Cambridge
Aleksandr Kogan, criador do um teste que coletou informações de usuários do Facebook.

Se você está acompanhando as notícias recentes, sabe que o escândalo de agora teve início em 2014. Foi o ano em que o pesquisador Aleksandr Kogan, da Universidade de Cambridge, criou um teste de personalidade que poderia captar informações de usuários do Facebook. Ele foi contratado pela Cambridge Analytica para usar esse app na empresa.

O aplicativo gravava não só os resultados de cada quiz e os dados da conta do Facebook envolvida, mas de todos os amigos dos participantes do teste. Isso virou um banco de dados de 50 milhões de pessoas, que alimentaram um algoritmo usado para influenciar pessoas com propagandas eleitorais personalizadas. Elas teriam tido grande influência na vitória de Donald Trump nas eleições americanas de 2016 e na saída do Reino Unido da União Europeia no plebiscito "Brexit", no ano passado.

O Facebook descobriu só em 2015 o truque da Cambridge Analytica e exigiu que os dados fossem apagados. Zuckerberg afirma que a empresa deu um certificado legal ao Facebook confirmando que tinha feito isso, e que ele ficou sabendo apenas pelas reportagens recentes que isso aparentemente não aconteceu.

Mas fica a pergunta: se em 2015 o Facebook já tinha ciência da suspeita envolvendo a Cambridge e um contingente tão grande de usuários, por que ficou calada sobre isso naquele ano? Só após as denúncias da imprensa é que a empresa passou a levá-la a sério. Aliás, não custa lembrar que até o ano passado, o CEO disse que era "loucura" a hipótese de anúncios e notícias falsas no Facebook terem virado arma eleitoral.

A empresa assume ter parte de culpa?

Foi em 2007 que o Facebook abriu sua plataforma para desenvolvedores, e no ano seguinte, lançou o Facebook Connect, também chamado "Log in with Facebook". Isto é basicamente um dos principais fatores pelos longos tentáculos da rede social: permitir que qualquer app ou serviço web permita login usando uma conta do Facebook. Em troca, esse mesmo app ou serviço poderá usar os dados do usuário para criar "melhores serviços".

Até o momento Zuckerberg e o Facebook estão usando o termo "breach" ("vazamento") para objetificar o que a Cambridge fez com os dados dos usuários a partir de 2014. Mas o modelo de negócios e desenvolvimento da rede social já é assim há anos, com inúmeros apps. Então, talvez, "vazamento" não seja o termo adequado. Foi preciso haver um escândalo dessas proporções para que Zuckerberg pensasse que um dia algo assim pudesse acontecer?

Como os apps eram, são e serão monitorados pelo Facebook?

Um detalhe importante no caso com a Cambridge é que na época, em 2014 e 2015, a empresa e seu principal pesquisador, Aleksandr  Kogan, alegava que seu teste de personalidade "thisisyourdigitallife", que coletava dados pessoais dos usuários, era usado para fins acadêmicos. Kogan admite que mudou os termos de uso do app de acadêmico para comercial no curso do projeto, mas diz que o Facebook não fez objeção. 

Essa informação leva às perguntas: até aquela época, que tipos de controle o Facebook tinha sobre o que apps de terceiros faziam com os dados dos usuários? E que garantia tinham de que os dados ficavam nos computadores da respectiva empresa? Se ficam, por quanto tempo isso ocorre? Se é preciso apagar os dados, quem garante que isso acontecerá? E algo foi feito para melhorar isso depois de 2014?

Zuckerberg chegou a mencionar que recebeu em 2015 um certificado da Cambridge garantindo que os dados dos usuários foram apagados. O Facebook acreditou neles, e ficou por isso mesmo. Agora Zuck fala em realizar auditorias entre as desenvolvedoras de apps que cometerem alguma infração similar às da Cambridge. Mas não deu muitos detalhes de como isso vai acontecer.

Qual é o papel do Facebook na vitória de Trump?

Reprodução/CNBC
Campanha de Trump teria trabalhado junto com funcionários do Facebook

Nas entrevistas, Zuckerberg vilanizou bastante a Cambridge e sua atitude, mas pouco falou sobre o papel da Cambridge e do próprio Facebook na vitória do Donald Trump em 2016, algo que vem sendo alvo de escrutínio há meses.

No ano passado, a BBC fez uma reportagem sobre o trabalho conjunto entre funcionários do Facebook e da Cambridge na campanha de Trump em um escritório em San Antonio, Texas. Além da rede social, pessoas do Google e do YouTube eram "parceiros interativos" da campanha do republicano. Então, parece estranho o Facebook afirmar não saber nada dos planos eleitoreiros da Cambridge.

Outras dúvidas: a Cambridge obteve dados ilícitos do Facebook de outras fontes além do aplicativo de Aleksandr Kogan? Afinal, a empresa operava outros aplicativos além do "thisisyourdigitallife". Teria comprado dados de outros desenvolvedores?

E quanto aos supostos hackers russos e/ou do governo russo que geraram "fake news" na eleição americana, tem alguma relação com isso? Assim como a saída do diretor de segurança do Facebook, Alex Stamos, em agosto? Dentro do Facebook, Stamos vinha sendo um forte defensor de investigação e revelação da atividade da Rússia na rede social.

O que o Facebook sabe ou consegue saber sobre a Cambridge?

O Facebook retém dados, anúncios ou postagens conectadas à Cambridge Analytica para uma investigação mais detalhada? Se a Cambridge fez uso indevido de dados, qual conteúdo foi alimentado por esse uso indevido e quem mais participou? Ao "Recode", Zuckerberg disse que esses dados "não estão em nossos servidores". Sem isso, qual será o ponto de partida para o Facebook entender o problema todo?

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