Empresas na China adotam bonés para vigiar emoções de trabalhadores

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

  • China Daily/Reuters

Que tal trabalhar com um bonezinho que faz você trabalhar mais? Empresas na China estão tornando a prática cada vez mais comum por meio de sensores acoplados a uma espécie de boné capazes de medir o estado emocional dos funcionários.

O objetivo, segundo as empresas, é que os gestores consigam ajustar o fluxo de trabalho e o ritmo de produção conforme os níveis de estresse, felicidade e tristeza dos colaboradores.

Ou seja, se você está com problemas pessoais e está muito triste, nem é preciso contar ao seu chefe. Ele saberá automaticamente ao receber o resultado dos dados obtidos pelo acessório, que pode ser um boné, um chapéu ou um capacete.

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Uma das empresas que tem trabalhado com o capacete é a Zhongheng Electric, em Hangzhou. De acordo com uma matéria publicada pelo site South China Morning Post, a organização diz que é possível aumentar a eficiência geral dos trabalhadores controlando a duração dos intervalos para reduzir o estresse mental.

A tecnologia envolve sensores sem fio que monitoram constantemente as ondas cerebrais do indivíduo e transmitem as informações para um sistema de inteligência artificial que faz a leitura das emoções.

"Quando o sistema emite um aviso, o gerente pede para que o funcionário tire um dia de folga ou mude para um posto menos crítico. Alguns trabalhos exigem alta concentração. Não há espaço para um erro", disse Jin Jia, professor associado de neurociência e psicologia cognitiva na escola de negócios da Universidade de Ningbo. A instituição de ensino abriga um centro de pesquisa financiado pelo governo chinês e desenvolve um projeto nesta área.

O site ainda destaca que a China tem usado os "capacetes inteligentes" em vários setores da indústria, como transportes, fábricas em geral e empresas estatais. A organização State Grid Zhejiang Electric Power diz ter aumentado seus lucros em cerca de 2 bilhões de yuans (US$ 315 milhões) desde que começou a utilizar a tecnologia de vigilância emocional em 2014.

Em uma crítica a matéria do site chinês, a revista do MIT Instituto de Tecnologia de Massachusetts) ressaltou que a leitura do cérebro somente pelas ondas cerebrais "é muito limitada no que pode detectar e a reação entre esses sinais e a emoção humana ainda não está clara". Por isso, supõe que os lucros obtidos pelo uso da tecnologia são "duvidosos".

Mais polêmica

Além disso, a preocupação com a privacidade dos trabalhadores e a falta de leis que assegurem seus direitos são dois importantes pontos a serem observados. Algo que certamente terá que ser melhor explorado antes de tecnologias assim ganharem o mundo-- e as fábricas.

"É alarmante que as empresas chinesas estejam implementando essa tecnologia de vigilância de maneira tão disseminada", afirmou o pesquisador da Anistia Internacional na China, William Nee, ao site Cnet.

"O governo chinês não permite sindicatos independentes e, portanto, os trabalhadores têm pouco recurso se seus empregadores quiserem usar tecnologias de vigilância biométrica potencialmente invasivas. Da mesma forma, não há salvaguardas para impedir que o governo obtenha dados coletados de empresas e, potencialmente, use-os para violar os direitos humanos", concluiu Nee.

Não é só a China

Pesquisas envolvendo o uso de tecnologias que monitoram emoções para melhorar a produtividade o consumo não são novidades.

Apesar de a China ser um dos lugares que mais tem adotado recursos assim, os Estados Unidos também focam seus esforços em desenvolver acessórios que consigam feitos parecidos.

Um deles é o projeto da startup Affectiva, nos arredores de Boston, que estuda usar sensores e inteligência artificial para mapear expressões faciais de consumidores e definir estratégias com base nos resultados. A própria Apple comprou em 2016 uma empresa que estuda algo semelhante. Será que o iPhone vai conseguir prever se estamos tristes, felizes ou estressados fazendo apenas a leitura do nosso rosto?

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