De olho na segurança

Quer saber o que tudo o que a Apple guarda sobre você? Espere sentado

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

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    O pedido pode ser feito por qualquer pessoa, só falta os dados chegarem

    O pedido pode ser feito por qualquer pessoa, só falta os dados chegarem

escândalo envolvendo a privacidade de usuários do Facebook fez muita gente atentar para a necessidade de, pelo menos, controlar como os dados online são usados (saiba por que você deveria estar preocupado). Já mostramos como descobrir o que o Facebook e o Google sabem sobre você. Se você é um fã da Apple, talvez tenha a falsa sensação de que está seguro. Mas não é bem assim.

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O próprio Tim Cook, executivo-chefe da Apple, na época que o vazamento de dados veio à tona, cutucou Mark Zuckerberg e disse que "não estaria nesta situação". De fato a Apple possui uma preocupação com a privacidade e segurança dos usuários um pouco acima da média em relação a outras gigantes da tecnologia.

A posição da Apple também é mais confortável nesse sentido, porque a empresa nunca se deu bem no ramo das redes sociais, onde dados de usuários são a principal moeda.

Mas a Apple também tem lá seus tetos de vidro e é importante você saber quais informações ela armazenou (com a sua autorização, provavelmente) a seu respeito. 

Inspirada pelo assustador relatório que mostrou tudo o que o Facebook sabia sobre mim, pedi à Apple que me enviasse um registro do que tinha guardado sobre mim.

Segundo a Apple, o pedido pode ser feito por qualquer usuário (veja abaixo). Só tem um problema: os dados podem nunca chegar.

Enviei minha solicitação no dia 2 de maio. Dois dias depois, recebi um email da empresa pedindo algumas informações para prosseguir com o pedido. Respondi cerca de 5 horas depois, informando: nome completo, Apple ID, email, endereço, telefone e o número de série de um produto Apple registrado.

Ou seja, por mais bizarro que seja, entreguei mais dados do que recebi. Dados, inclusive, que a Apple diz ter sobre mim.

No dia 9, tentei um novo contato. Nada. Mais de vinte dias depois, ainda estou esperando o acesso às minhas informações. 

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da Apple no dia 14 de maio para verificar se existe um prazo limite para o envio dos dados. Até o momento também não houve resposta.

Nos Estados Unidos, dois jornalistas fizeram o mesmo procedimento e, por sorte, conseguiram. Jefferson Graham, colunista do USA Today, e Zack Whittaker, editor de segurança do site Zdnet, conseguiram em pouco mais de uma semana -- vale ressaltar que para conseguir o relatório de Facebook e Google você gasta apenas alguns minutos.

Eles contam que o tamanho do arquivo é menor que o do Facebook, o que indicaria que a Apple aparentemente salva bem menos dados pessoais do usuário. O documento de Graham tinha 9 MB, contra os 243 MB do Google e 881 MB do Facebook. Já o de Whittaker tinha 5 MB.

Nos relatórios, constam email, endereço, registros de backup dos dispositivos usados, quando eles fizeram uploads de suas fotos para o iCloud, o registro de cada download de aplicativos e músicas que eles já fizeram, aparelhos e outros produtos da Apple comprados, quando passaram por reparos, tentativas de chamadas no FaceTime e envio de mensagens pelo iMessage. Se você também costuma jogar conectado ao Game Center, as informações de sessões de jogo também ficam registradas. 

O que a Apple diz que sabe

Segundo a Apple, as informações pessoais são usadas para que os usuários tenham uma melhor experiência com seus produtos e serviços. Alguns dados não são obrigatórios e você pode optar por não fornecê-los, mas com isso a Apple diz que não pode personalizar aquilo que te oferece.

Ao ter qualquer tipo de relacionamento com a Apple – como criar um ID Apple, comprar um produto, baixar uma atualização de software ou participar de uma pesquisa online --, a empresa explica que coleta e armazena informações: nome, endereço, telefone, email, preferências de contato e informações de cartão de crédito.

Segundo a Apple, o relatório enviado é menor porque a maioria das informações fica armazenada no dispositivo e não nos servidores da empresa.

Informações de amigos e familiares

Quando você usa os produtos da Apple (compartilha conteúdos com família e amigos, envia vales-presentes ou convida pessoas para fóruns ou serviços), entrega também dados pessoais de seus conhecidos. Neste caso, nome, endereço, email e telefone.

"A Apple usará essas informações para completar suas solicitações, fornecer o produto ou serviço relevante ou com finalidades antifraude", explica a empresa em seu site.

Informações NÃO pessoais

A Apple também conseguem coletar e armazenar os dados não pessoais, ou seja, informações que não necessariamente são informadas pelos usuários. Alguns exemplos são: idioma, código postal, modelo do dispositivo, localização, fuso horário, atividades e buscas nos serviços oferecidos (como iCloud, iTunes, App Store etc).

"Com seu consentimento explícito, podemos coletar dados sobre como você usa seu dispositivo e os aplicativos para ajudar os desenvolvedores de aplicativos a melhorarem seus produtos", argumenta.

Podemos coletar, usar, transferir e revelar informações não pessoais para qualquer propósito. [...] Se nós juntarmos as informações não pessoais com informações pessoais, as informações combinadas serão tratadas como informações pessoais enquanto permanecerem combinadas

Como a empresa usa isso tudo?

Oficialmente, a empresa usa para manter o usuário atualizado sobre anúncios de produtos, atualizações de software e eventos e oferecer produtos, serviços, conteúdo e publicidade direcionados.

Mas a Apple afirma que pode usar as informações pessoais para confirmar a identidade de cada usuário e determinar os serviços mais adequados com base em seu perfil. "Por exemplo, podemos usar a data de nascimento para determinar a idade de titulares de IDs Apple", descreve.

A empresa pode também usar os seus dados para "propósitos internos", como auditoria, análise de dados e pesquisa para melhorias em produtos e serviços ou para direcionar comunicados importantes sobre compras e alterações nas regras de produtos e serviços oferecidos.

Todas essas informações ainda podem ser disponibilizadas para "parceiros estratégicos" da Apple. Sem fornecer detalhes de quem são, a empresa reforça que o compartilhamento é feito (novamente) para fornecer ou melhorar "produtos, serviços e propaganda".

E a segurança?

A companhia alega que leva a proteção e a privacidade "muito a sério". "Quando seus dados pessoais são armazenados pela Apple, usamos sistemas de computador com acesso limitado mantidos em instalações que incluem medidas físicas de segurança. Os dados do iCloud são armazenados criptografados, mesmo quando utilizamos o armazenamento de terceiros."

Apesar disso, ela sugere que os parceiros com quem compartilha as informações de usuários também têm a responsabilidade de protegê-las.

Como fazer o pedido?

Se você quiser ao menos tentar descobrir algo da Apple, siga os passos abaixo:

A primeira coisa a se fazer é solicitar o acesso ao arquivo. Para isso, vá na parte de "Perguntas sobre privacidade", localizado no site da empresa.

No item "tenho uma pergunta sobre", selecione "Perguntas sobre privacidade".

Em seguida, preencha os campos "Região", "Nome", "Sobrenome" e "E-mail"

No campo "Assunto", insira o motivo do seu pedido. Que tal "Cópia dos arquivos da Apple" ou algo parecido?

Reprodução
Preencha as informações solicitadas e envie para a Apple

Logo abaixo, aparece o item "Comentários". Aqui você deve descrever o que deseja. Pode ser um texto simples, como "Gostaria de ter acesso às informações privadas que a Apple tem sobre mim".

Agora, envie o seu pedido e aguarde. Sentado.

Getty Images

Você é o produto: cada passo que você dá na web gera rastros e essas informações são usadas para te vigiar e influenciar o seu comportamento

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