Resolveu? O que o Facebook mudou desde o escândalo do vazamento de dados

Marcelle Souza

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Saul Loeb/AFP

    Zuckeberg precisou correr atrás do prejuízo

    Zuckeberg precisou correr atrás do prejuízo

A ficha de Mark Zuckerberg demorou, mas caiu. Desde que explodiu o escândalo sobre o uso indevido de dados de 87 milhões usuários pela empresa britânica Cambridge Analytica, o Facebook apresentou uma série de mudanças na plataforma.

Em meio a investigações nos Estados Unidos e na Europa, a rede social passou a divulgar filtros e ferramentas de controle de privacidade quase semanalmente. Houve até uma reorganização interna da companhia, em parte para se adequar à nova política de dados em vigor no continente.

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Entenda

Mudança no controle de privacidade

Uma das primeiras respostas do Facebook foi a divulgação de um pacote de mudanças para simplificar o controle de privacidade.

Houve uma alteração visual no conteúdo para celulares, a fim de facilitar a navegação. Depois, reformularam o menu "Atalhos de Privacidade", que ganhou uma aparência mais amigável. Os controles permaneceram os mesmos: autenticação de dois fatores (senha + SMS), revisão de postagens antigas, controle de exibição de anúncios e restrição de quais amigos podem ver seus posts.

Por fim, colocaram o menu "Acesse Sua Informação", com dados sobre o que você pode excluir da linha do tempo ou perfil. Surgiu a opção de fazer o download de toda a sua "vida" na rede social.

Políticas de conteúdo mais claras

Outra tentativa do Facebook de mostrar transparência para investidores e usuários foi a divulgação de um documento de 27 páginas com as regras de publicação na plataforma. Pela primeira vez, foram abertos os critérios para bloquear um conteúdo ou perfil na rede social.

O relatório, apresentado em abril, trazia informações mais detalhadas do que as disponíveis até então. O material é usado pelos moderadores do Facebook para definir o que deve ser excluído, como mensagens e perfis considerados terroristas, conteúdo sexual e discurso de ódio.

No caso de propaganda terrorista, prevenção ao suicídio e spam, as ações, segundo o Facebook, têm dados bons resultados. No primeiro trimestre deste ano, por exemplo, 2 milhões de conteúdos classificados como propagada terrorista e 21 milhões de posts ligados a nudez e pornografia foram removidos. Em 99% dos casos, isso foi feito antes que ele fosse visto por um ser humano. O Facebook também desativou mais de meio milhão de perfis relacionadas a golpes contra os usuários. 

Combate ao discurso de ódio

Um dos principais desafios do Facebook, no entanto, é combater o discurso de ódio na plataforma. O problema, dizem os responsáveis pela rede, são as limitações da inteligência artificial diante das nuances da linguagem em diferentes contextos e idiomas, dificultando a implantação de filtros automáticos.

Para se aprimorar nessa área, a empresa anunciou em abril a contratação de 20 mil moderadores de conteúdo, com a função de tirar dúvidas levantadas por computadores.

No Instagram, Zuckeberg anunciou ainda uma melhora nos filtros de comentários ofensivos. A ideia aprimorar o combate ao bullying na rede, mas, por enquanto, a ferramenta só funcionará em inglês.

Proteção de dados para além da União Europeia

No último dia 25, entrou em vigor o novo regulamento europeu sobre proteção de dados, o GDPR, que fez com que todas as empresas que atuam na internet tivessem que adotar novas políticas para funcionar nos países da região.

Apesar de se limitar à União Europeia, o Facebook anunciou no dia 24 de maio que iria estender a novidade para os usuários do mundo inteiro. A ideia é que todos que tiverem um perfil ou página na rede social sejam consultados sobre acesso e utilização de dados pessoais, preferências de publicidade e controle de navegação.

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Entenda

Bloqueio de anúncios estrangeiros

Pouco antes da realização do referendo sobre aborto na Irlanda, o Facebook decidiu bloquear os anúncios baseados no exterior. Na semana seguinte, a empresa anunciou que a medida também seria adotada nos Estados Unidos.

Segundo a empresa, o objetivo era proteger a integridade de eleições e referendos de influência indevida. A mudança foi uma resposta ao escândalo de uso indevido de dados de usuários e uma possível manipulação dos resultados do referendo Brexit, no Reino Unido, e das últimas eleições presidenciais nos EUA. Nos dois casos, a suspeita é que perfis russos teriam tentado influenciar as votações.

Ferramenta para detectar notícias falsas

No Brasil, uma das ações divulgadas recentemente foi o lançamento de recurso para combater a disseminação de fake news (notícias falsas).

Com ele, os usuários vão poder classificar notícias como verdadeiras ou falsas. Os links suspeitos são enviados para as agências Aos Fatos e Lupa, para que chequem as informações. Se o conteúdo for confirmado como falso, terá o seu alcance diminuído pela plataforma. As páginas que publicarem fake news com alta frequência não terão mais a opção de usar anúncios para impulsionar a audiência.

Logo após o anúncio, porém, as agências foram alvo de ataques na internet. Páginas ligadas a grupos de direita criticaram a ação e passaram a agredir e ameaçar os jornalistas envolvidos no procedimento. Organizações como a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) condenaram os ataques.

O Facebook disse que está comprometido em combater a desinformação e que a ferramenta já alcançou "resultados encorajadores" após o lançamento. 

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Suspensão de aplicativos

Depois do escândalo envolvendo a Cambridge Analytica, o Facebook fez uma auditoria e anunciou em maio a suspensão de cerca de 200 aplicativos da plataforma que usaram indevidamente dados de usuários.

A rede social não informou quais aplicativos foram cancelados. "A investigação continua", afirmou em nota Ime Archibong, vice-presidente de produtos associados ao Facebook.

Ferramenta para limpar histórico de navegação

Ainda não existe uma data, mas Zuckerberg prometeu que a empresa trabalha em um novo controle de privacidade, o "clear history". Com a ferramenta, os usuários poderão excluir o histórico de navegação, junto com os cookies do navegador.

"A ferramenta vai permitir que você veja os sites e aplicativos que nos enviam informação quando você os utiliza, [vai permitir que você] delete essa informação de sua conta e desative nossa habilidade para armazenar [essa informação] associada à sua conta", disse.

A empresa disse que deve levar alguns meses até que a ferramenta esteja disponível.

Reestruturação interna

As investigações envolvendo o Facebook também fizeram a empresa passar por uma reestruturação interna, com troca de executivos e novos lançamentos. Tudo para manter a confiança dos investidores, fortemente afetada pelas notícias envolvendo o Facebook nos últimos meses.

A partir da mudança, a companhia passou a se dividir em três pilares: seus principais produtos (Facebook, Messenger, Instagram e WhatsApp); tecnologias emergentes, como aplicativos de realidade virtual; e propaganda, segurança e desenvolvimento.

Agora é esperar para saber se os anúncios farão mesmo o efeito desejado.

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