De olho na segurança

Descobriram que notebook no avião é muito perigoso; estamos correndo risco?

Do UOL, em São Paulo

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    Um incêndio na bateria poderia derrubar um avião

    Um incêndio na bateria poderia derrubar um avião

Se um único aparelho eletrônico pessoal esquentar demais e pegar fogo dentro de uma bagagem despachada em um avião, é possível que o sistema de extinção de incêndio da aeronave seja insuficiente para evitar um incêndio descontrolado, segundo uma nova pesquisa do governo dos EUA.

Os órgãos reguladores pensavam que incêndios pontuais de baterias de lítio seriam debelados pelo gás retardador de chama exigido para os compartimentos de carga dos aviões de passageiros. Mas testes realizados pela Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA, na sigla em inglês) apontaram que os sistemas de controle não são capazes de extinguir um incêndio em uma bateria combinado a outros materiais altamente inflamáveis, como o gás de uma lata de aerossol ou cosméticos normalmente transportados pelos passageiros.

"Pode causar um problema que comprometeria a aeronave", disse Duane Pfund, coordenador do programa internacional da Administração de Segurança de Materiais Perigosos e Oleodutos dos EUA (PHMSA, na sigla em inglês), em discurso, na quarta-feira, em um fórum sobre segurança da aviação em Washington. A PHMSA regula materiais perigosos em aviões juntamente com a FAA.

A pesquisa ressalta os riscos crescentes das baterias de lítio, cada vez mais usadas para alimentar de tudo, de telefones celulares a videogames. Os carregamentos a granel de baterias de lítio recarregáveis são proibidos em aviões de passageiros.  

Reprodução/Giphy

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Gadgets que queremos

As descobertas feitas no ano passado pela FAA levaram o governo a defender que a Organização da Aviação Civil Internacional das Nações Unidas pedisse a proibição de aparelhos eletrônicos maiores que um telefone celular em malas despachadas. O esforço foi insuficiente, disse Pfund.

"De uma forma ou de outra, precisamos lidar com esses perigos", disse Scott Schwartz, diretor do programa de produtos perigosos da Associação de Pilotos de Empresas Aéreas (Alpa, na sigla em inglês). A Alpa, que é a maior associação de pilotos da América do Norte, está realizando sua conferência anual de segurança.

A Alpa não assumiu nenhuma posição formal a respeito da proibição às baterias de lítio nas malas despachadas e existe o temor de que muitos passageiros simplesmente a ignorem. A associação busca que no mínimo haja mais campanhas de conscientização para diminuir a possibilidade de os viajantes colocarem baterias sobressalentes e aparelhos eletrônicos nas malas despachadas.

Apesar de os incêndios em itens das bagagens de mão também criarem riscos durante os voos, a experiência mostrou que eles podem ser extintos com água. Mas durante o voo a tripulação não consegue chegar às malas que estão no compartimento de carga, por isso deve confiar nos sistemas de extinção de incêndio do avião.

Os testes da FAA apontaram que o gás anti-incêndio halon instalado nos compartimentos de carga dos aviões não extinguiria o fogo de uma bateria de lítio, mas evitaria que a chama se espalhasse para materiais adjacentes, como papelão ou roupas. No entanto, latas de aerossol explodiram nos testes mesmo depois de serem banhadas pelo gás halon, concluiu a FAA.

"Existe o potencial de o evento resultante superar a capacidade de enfrentamento do avião", informou a FAA, em comunicado às empresas aéreas, no ano passado.

Estamos correndo riscos?

Já tivemos vários casos de celulares, notebooks, hoverboards (espécie de skate elétrico) e até um fone de ouvido explosivo. O que nos leva a perguntar: estamos todos expostos ao risco de nossos equipamentos explodirem?

Em entrevista ao UOL Tecnologia, o professor Antonio Carlos Gianoto, do departamento de engenharia elétrica da FEI, disse que as explosões normalmente acontecem em aparelhos com bateria de ion-lítio de segunda linha. A chance de uma bateria de qualidade inferior explodir é grande, avaliou: "Ela explode por superaquecimento."

Baterias perigosas ou paranoia?

Embora haja um componente em comum em parte dos casos - a bateria de íon-lítio -, Gianoto defende que são exceções. "A exposição para o fabricante é muito grande e negativa, não vejo como uma tendência os produtos eletrônicos darem defeito", disse. 

Esse tipo de bateria, constituída por uma única célula de íon-lítio, que é recarregável, é usada em smartphones, notebooks e muitos outros eletrônicos de nosso cotidiano. Ela começou a ser vendida comercialmente em 1991 pela Sony e, ao longo dos anos, tornou-se a mais utilizada para dispositivos eletrônicos portáteis.

Além do aumento da vida útil se comparada às pilhas de níquel (pode durar mais de 20 anos), se destaca pela baixa condutividade elétrica e pela redução drástica de tamanho e peso em relação aos antigos modelos.

Por tudo isso, João Carlos Lopes Fernandes, professor de engenharia elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia, avalia ser "normal" a existência de casos pontuais. "O que está acontecendo é o aumento da quantidade de equipamentos [com este modelo de bateria]", diz.

"Como aumentou bastante, o controle de qualidade falha. Estes casos que aparecem podem ser também de desgaste de equipamentos. Vejo como normal, como acontece com carro que faz recall", afirma. "É necessário utilizar com cuidado, mas eu conheço pouquíssimas pessoas que tiveram problema."

A palavra é cuidado, especialmente porque, no curto prazo, não há uma alternativa para as baterias de íon-lítio. Atualmente existem outros materiais sendo testados, mas os dois especialistas dizem que a tecnologia das atuais baterias é antiga e segura. Problemas podem acontecer com qualquer tipo de eletrônico, mas são pontos fora da curva, defendem.

"O aquecimento ocorre quando o usuário está jogando ou falando ao telefone por longos espaços de tempo, pois para suprir está demanda a bateria começa a aquecer para fornecer a energia necessária. O fato de o celular esquentar não é razão para preocupação; eles são projetados para trabalhar dessa maneira. Mas se o aquecimento é excessivo, fique atento. Uma bateria aquece aproximadamente até 135 ºC, mais do que isso ela pode explodir", explica Lopes Fernandes.

Dá para reduzir o risco?

Depois do escândalo dos celulares da linha Galaxy Note 7, que explodiam recorrentemente, um relatório informou que a causa das explosões era um problema na bateria. A Apple, grande rival da Samsung, também conviveu com relatos de explosões do iPhone 6 Plus

Claro, problemas podem acontecer também com marcas renomadas. Por isso, além dos cuidados com aparelhos e acessórios de segunda linha, os consumidores devem prestar atenção no uso correto de produtos originais.

Segundo os especialistas, é responsabilidade do usuário utilizar os produtos de acordo com as normas – e com acessórios originais ou homologados.

O professor da Mauá, no entanto, reforça que os problemas mais recorrentes são com aparelhos que tenham acessórios (como carregadores e fios) que não têm aval técnico. Há entidades internacionais de certificação de produtos, como a UL e IEEE, que estabelecem exaustivos requisitos de segurança para as baterias de íon-lítio.

No Brasil, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) regulamentou a Resolução 481, que define os procedimentos de ensaios e os requisitos de segurança e desempenho elétrico que as baterias de celulares devem atender. São avaliados a retenção de carga (auto-descarga); a recuperação da capacidade após estocagem em estado parcial de carga; o desempenho frente a ciclos de carga e descarga (durabilidade); e a carga prolongada. Todas as baterias utilizadas nos celulares no Brasil, sem exceção, devem ser submetidas a esse processo.  

Getty Images/iStockphoto/manopjk

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(Com Blomberg)

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