A transferência de mente humana para computador é papo sério ou maluquice?

Leonardo Luís

Colaboração para o UOL Tecnologia

  • Getty Images/iStockphoto

    Cientistas e empresas acreditam que é possível transferir o cérebro para uma máquina

    Cientistas e empresas acreditam que é possível transferir o cérebro para uma máquina

A transferência mental –ou "'upload' da mente", ou "transplante de consciências"– não é uma aspiração nova: está no imaginário humano há mais de meio século. A ideia de transferir a mente para um computador ou para outro ser humano existe na ficção desde ao menos a década de 1950. A questão é: com a tecnologia atual, isso já pode ser visto como uma possibilidade real ou continua sendo uma ideia de maluco?

Quase sete décadas depois das primeiras referências na ficção, os avanços para que a mente humana se abrigue fora do seu corpo ainda são tímidos – e os cientistas ainda se dividem sobre se isso é de fato possível.

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O maior barulho vindo dessa área nos últimos tempos foi feito pela startup Nectome, que recebeu nos últimos meses US$ 960 mil do governo norte-americano e US$ 120 mil da aceleradora de startups Y Combinator para desenvolver pesquisas sobre preservação do cérebro humano.

Um dos fundadores da Nectome foi premiado por ter criado uma técnica chamada "vitrifixação", capaz de preservar o cérebro de coelhos e porcos. A técnica reconstitui o órgão em uma forma semelhante ao vidro, o que possibilita submetê-lo à temperatura de -122°C sem a formação de cristais de gelo e, assim, conservá-lo por séculos.

Dos cérebros de animais aos de seres humanos é só questão de tempo, segundo a empresa. E, com cérebros humanos preservados, a empresa aposta que no futuro será possível fazer o upload da mente de pessoas que já morreram para um computador. Em outras palavras, fazer de nós digitalmente imortais.

"Acreditamos que ainda neste século será viável digitalizar seu cérebro e usar a informação para recriar sua mente", diz.

Mas tem um detalhe importante: o cérebro pode viver uma espera eterna. O próximo passo, o da digitalização, não existe ainda. E, talvez, nunca vire realidade.

Ken Miller, neurocientista da Universidade de Columbia, acredita que ainda estamos muito longe de ter o conhecimento para saber ler e recriar a mente.

Precisaríamos entender não apenas como a informação é instantaneamente processada em cada um dos múltiplos circuitos cerebrais, mas como esses circuitos cerebrais se modificam para aprender, criar e reter memórias de novas experiências sem perder memórias de velhas experiências

Ken Miller, neurocientista da Universidade de Columbia

Ou seja, o método usado pela startup tem que ser capaz de armazenar o imenso nível de detalhes da atividade cerebral humana.

"Estamos muito longe de entender qualquer uma dessas coisas. Além disso, precisaríamos entender como alimentar a informação cerebral que chega por meio dos sentidos e, além do mais, como o cérebro e o corpo interagem", diz Miller.

Muitos neurocientistas enxergam o cérebro como um computador: os dados sensoriais (aquilo que é captado por olhos, ouvidos etc.) são informações que alimentam a máquina para gerar comportamentos e reações. A ideia para fazer um upload mental seria criar um mapa do cérebro para convertê-lo para o ambiente digital.

Anders Sandberg e Nick Bostrom, dois pesquisadores do Future of Humanity Institute, da Universidade de Oxford, dizem que escanear a estrutura de um cérebro em detalhes e construir um software a partir disso poderá ser possível antes da metade do século.

Só que para isso acontecer precisam existir modelos eletrofisiológicos (ou seja, os mapas das propriedades elétricas das células humanas) – o que também não temos atualmente. Ou seja, não apenas não existe a conversão do cérebro para o mundo digital, como o próprio mapa ainda precisa ser criado.

Partindo da ideia de que esse mapa cerebral seja extremamente complexo, o próximo passo seria ter equipamentos para rodar esses modelos. E também não chegamos lá ainda. Mas Randal Koenem, doutor em neurociência da comunicação pela Universidade McGill, diz que nossos cérebros poderão ser inteiramente emulados por uma máquina por volta do ano de 2045

A previsão está fundada na Lei de Moore, segundo a qual a potência dos computadores dobra a cada 18 meses. Apoiados nisso, os especialistas do projeto calculam que na década de 2040 os computadores serão potentes a ponto de simular a inteligência humana.

Atualmente, segundo os pesquisadores, só temos computadores potentes o suficiente para simular o cérebro de animais invertebrados como caracóis, formigas e drosófilas. Isso significa que com a tecnologia atual computadores só conseguem fazer um mapa completo dos detalhes dos neurônios desses animais, incluindo seus aspectos eletroquímicos, bioquímicos e morfológicos, e imitar a forma como eles interagem.

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