RIP, iPhone SE: por que choro a morte dos celulares pequenos

Emerson Kimura

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Reprodução

    Todo Carnaval tem seu fim... Hora de dar tchau para o SE

    Todo Carnaval tem seu fim... Hora de dar tchau para o SE

Em setembro de 2012, um anúncio da Apple mostrava o então recém-lançado iPhone 5, com tela de 4 polegadas, sendo utilizado com apenas uma mão. Aquele tamanho (12,3 x 5,8 cm), dizia o vídeo, não era coincidência, mas "bom senso". Hoje, seis anos depois, os menores iPhones à venda têm tela de 4,7 polegadas e medem 13,8 x 6,7 cm. E o site da Apple diz: "Bem-vindo às telonas".

O que aconteceu com o tal "bom senso"?

Ele começou a ser deixado de lado em 2014, quando a Apple lançou os iPhones 6 e 6 Plus, e teve o seu fim decretado no último dia 12, com o fim das vendas do iPhone SEPara mim, o último celular bom e pequeno, o último celular com "bom senso", o último bastião de resistência.

Como desgraça pouca é bobagem, os três novos modelos de iPhone são todos gigantes: o iPhone XS, o iPhone XS Max e o iPhone XR. O primeiro, que é o menor deles, tem tela de 5,8 polegadas. Ou seja, mede 14,3 x 7,0 cm.

Por que celular pequeno?

Com o crescimento do tamanho dos celulares, há quem ache curiosa a preferência de algumas pessoas por aparelhos menores. Maior é melhor, tela normal é tela grande; por que, então, usar um modelo pequeno?

Antes de responder essa pergunta, esclareço: quando digo "pequenos", quero dizer com no máximo 13 cm de altura. Reforço esse ponto, porque os celulares cresceram tanto que as referências ficaram completamente distorcidas. Dito isso, vamos à resposta.

A grande vantagem dos celulares pequenos é, obviamente, a facilidade para guardá-los e carregá-los. É muito mais agradável correr, por exemplo, sem um trambolho pulando com o corpo ou saindo do bolso. Chego ao ponto de não usar capa protetora para não interferir no tamanho.

Além disso, é muito mais fácil usar o aparelho com apenas uma mão -- e há muitas vantagens de sair por aí com um aparelho discreto. Mas um benefício menos óbvio é o fato de ele ser pouco viciante. A tela pequena desestimula o uso obsessivo das redes sociais e plataformas de vídeos.

Acredito que donos de celulares pequenos prefiram dividir as tarefas em diferentes telas --o tablet para ler textos, a TV para assistir a vídeos, o eReader para ler livros, o computador para coisas que envolvam digitação etc. Pelo menos esse é o meu caso. Evito ver vídeos no celular e, quando possível, uso o PC para responder as mensagens que recebo. Não tenho games nem aplicativos de redes sociais instalados.

Mas não basta ser pequeno, tem que ser bom. E o único aparelho que juntava (e ainda junta, de alguma maneira) essas duas características, na minha opinião, era o iPhone SE.

Relembre o review do iPhone SE

Uso o iPhone SE desde 2016, quando foi lançado. Com o consagrado design externo do iPhone 5 (provavelmente o último celular projetado sob supervisão de Steve Jobs) e componentes internos semelhantes ao do iPhone 6S (topo de linha na época), ele era uma boa opção tanto para fãs de celulares pequenos quanto para consumidores que buscam aparelhos mais baratos (ou menos caros). 

O hardware é excelente. O visual é bonito e marcante, uma evolução do histórico design apresentado no iPhone 4. O iPhone SE foi o último celular da Apple com um corpo realmente distinto e único antes do iPhone X.

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A construção é sólida, a câmera é muito boa. O processador, top de linha na época do lançamento, ainda apresenta bom desempenho. O ponto negativo fica para a câmera frontal, que tem resolução muito baixa.

Por tudo isso, decidi comprá-lo mesmo preferindo Android a iOS.

Falta de opção

Foi uma escolha difícil, mas rápida --não havia, em 2016, muitas alternativas. A que chegava mais perto do que eu procurava era o Xperia Z5 Compact, da Sony, que não foi lançado no Brasil.

Era uma situação triste e irônica. Uma das grandes vantagens do Android é justamente a variedade de modelos, e o aparelho que mais se aproximava das minhas exigências era feito pela Apple, que tem fama de limitar as escolhas.

A resposta para a carência de aparelhos bons e pequenos é óbvia: baixa demanda. O consumidor gosta de telas grandes.

O tal "bom senso" até era uma jogada de marketing da Apple, mas a empresa realmente resistiu e só agora se rendeu à tendência. Ela viu todas as marcas relegarem seus compactos a categorias inferiores --hoje a variedade de celulares pequenos é baixa mesmo entre os modelos mais básicos.

Mas, o que pode ter matado o SE é o preço. Alguns analistas viam o aparelho não tanto como uma opção para entusiastas de compactos, mas principalmente como uma alternativa mais barata, voltada a consumidores de menor renda ou que não queriam gastar tanto com um celular.

A estratégia atual da Apple hoje é crescer investindo em aparelhos mais caros, observa Ben Thompson, que escreve o "Stratechery".

No ano passado, ela lançou o iPhone X, celular mais caro da sua história. O resultado? Um aumento do preço médio de venda (ASP, na sigla em inglês) de seus celulares e, consequentemente, da receita gerada por eles --mesmo sem grandes mudanças no número de unidades vendidas. Tanto o ASP quanto a receita dos celulares da Apple não cresciam desde 2015. A nova estratégia deu certo.

Dentro desse contexto, o fim do iPhone SE faz ainda mais sentido. 

Um iPhonão desse, bicho

Arte/UOL

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