A encruzilhada do 5G brasuca

Presidente da Anatel diz: ou conexão de ponta para poucos ou serviço meia-boca para todos

Helton Simões Gomes Do UOL, em São Paulo
Arte/UOL

A revolução

Velocidades gigantescas de internet, atrasos imperceptíveis na conexão e ligação entre máquinas como nunca se viu. Essas são as características do 5G, o sucessor do 4G, que, por isso, vem sendo tratado como um jogo totalmente novo nas telecomunicações.

Países como China e Estados Unidos correm para estar na dianteira quando o serviço for ao ar. E, no Brasil, o leilão das faixas de frequência usadas pela quinta geração da internet móvel vai ocorrer já nos próximos meses, afirmou Leonardo Euler de Morais, o novo presidente da Agência Nacional das Telecomunicações (Anatel) ao UOL Tecnologia.

Ou seja, não teremos um cenário de "internet discada" como ocorreu quando outras tecnologias vieram ao Brasil. Estamos ao lado dos primeiros a adotar a nova conexão.

Só que, ao detalhar como a agência conduzirá a licitação, Morais tocou na principal treta do processo: escolher entre um modelo que favoreça a competição entre as maiores operadoras do país e outro que permita às empresas vencedoras explorar o que o 5G promete. Ou seja, ter 5G para todo mundo ou ter um que não vai ser essa maravilha toda.

Se o 4G mudou a vida das pessoas, o 5G vai revolucionar a forma como nós vivemos e produzimos (...) O Brasil vai estar na vanguarda desse processo

Leonardo Euler de Morais

Leonardo Euler de Morais, presidente da Anatel

Divulgação/MCTIC Divulgação/MCTIC

Assim como o 5G, Morais também é uma quebra de paradigma: há 13 anos no órgão, é o primeiro presidente da Anatel a sair das fileiras de servidores da agência --ele entrou no primeiro concurso, feito em 2005. Agora, vai chefiar a autarquia que regulamenta os mercados de telefonia, banda larga e TV paga.

Dentre os vários cargos que ocupou, liderou a área que define quais faixas de frequência são liberadas para cada serviço e que estabeleceu os parâmetros do 5G, e conta:

A primeira faceta do 5G que vai se consolidar no Brasil vai ser a que permite maior troca de dados. Isso ocorrerá com a licitação do 3,5 GHz

A escolha desta faixa está em sintonia com os passos iniciais do 5G ao redor do mundo. Na Coreia do Sul, por exemplo, esse espectro foi leiloado em julho deste ano.

"Estamos trabalhando para disponibilizá-la no final de 2019 ou primeiro trimestre de 2020", contou.

Antes de passar adiante, é bom entender a revolução que será o 5G. Ele não será só uma geração de tecnologia de celular que renova os patamares de velocidade --ainda assim, o mercado espera conexões acima de 1 gbps (gigabit por segundo).

Os índices de latência (aquilo que faz os pacotes de dados chegarem atrasados às telas do seu celular ou computador) serão bem baixos.

Sabe quando você joga "Fortnite" e, de uma hora para outra, o personagem some e aparece bem do seu lado atirando loucamente? Não foram os mortos-vivos que ganharam superpoderes e ficaram mais rápidos. Foi a sua latência que em algum momento aumentou e, ao normalizar, entregou todos os dados atrasados de uma vez.

Em "Counter Strike", é essa demora que faz você tomar um tiro na cabeça antes mesmo de entrar na tela, porque a latência da internet do seu adversário é menor, e os dados do game chegam antes ao computador dele. Bam!, game over para você.

Com o 5G, nada disso vai acontecer.

Fala que eu te escuto

Para muitos, o grande lance do 5G é permitir bombar a chamada Internet das Coisas (IoT). Hoje, você já vê TVs, celulares e relógios inteligentes ligados à internet. Mas imagine semáforos, postes e máquinas do porte de tratores, drones e carros conectados à rede. E mais: conversando entre si para executar tarefas sem receber comandos de humanos.

Automóveis que dirigem sozinhos são o melhor exemplo de como tudo isso pode funcionar junto. Ao falar com o carro da frente, com sensores no semáforo e com outros equipamentos conectados, ele saberá se deve frear ou acelerar. Esse bate-papo rolará sem qualquer demora, graças à baixa latência e as altas velocidades.

A Huawei já fez os cálculos: um carro sem motorista que use o 4G a 100 km/h percorre 1,4 metro até acionar o freio quando nota um obstáculo. No 5G, a distância é de só 2,8 cm.

VEJA TAMBÉM:

As faixas são grandes rodovias no céu por onde circulam pacotes de dados, e a banda seria o comprimento dessa estrada.

Dentro da faixa 3,5 GHz, a Anatel possui uma banda de 200 Mhz para ser licitada. Mas há um impasse sobre a divisão desse lote.

Nós só temos um desafio, um trade off [conflito de escolha], que é entre competição e eficiência espectral

Leonardo Euler de Morais, novo presidente da Anatel

Opções para leiloar o 5G

  • 2 blocos

    Cada um deles teria 100 Mhz. Isso permitiria a escolha de apenas duas das quatro grandes operadoras de celulares no Brasil (Claro, Vivo, Tim e Oi)

  • 3 blocos

    Seriam um de 80 Mhz e dois de 60 Mhz. Com isso, o número de vencedoras do leilão já subiria para três

  • 4 blocos

    Cada um seria de 50 Mhz. Assim, todas as operadoras teriam chance de arrematar um bloco, mas, devido à limitação de espectro, só conseguiriam oferecer um serviço com limitações

Conforme diminuo os blocos, eu privilegio a competição, mas reduzo a eficiência espectral

A solução seria fazer um leilão conjunto, dessa faixa voltada ao 5G e de frequências destinadas ao 4G (100 Mhz na faixa de 2,3 Ghz e dois blocos de 10 Mhz nos 700 Mhz).

"Quando coloco [em leilão] um conjunto maior de espectro, eu dou diferentes perspectivas aos players. Quem entrar nos 2,3 Ghz estaria consolidando suas operações no 4G ou no 4,5G. Quem entrar no 3,5 Ghz estaria olhando sua perspectiva no 5G."

Divulgação/Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (MCTIC) Divulgação/Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (MCTIC)

Outra coisa que influenciou a decisão de fazer leilão do 5G a partir do fim de 2019 foi que China e EUA prometem para o ano que vem o domínio da quinta geração da internet.

Hoje são poucos os celulares que estão previstos para ter essa conexão, mas como os dois países são os maiores celeiros de fabricantes de equipamentos de telecomunicação e das maiores fabricantes de celulares do mundo, a chance de isso mudar é breve é grande.

Hoje não existe um ecossistema maduro para o 5G, sobretudo os celulares. Ainda que existam estações de radiofrequência (antenas de celular), não existem aparelhos

Leonardo Euler de Morais

Leonardo Euler de Morais

Thinkstock Thinkstock

Filé com osso

Além de cobrar pela licença de uso das faixas, a Anatel deve impor aos vencedores do leilão investimento em infraestrutura da rede, afirma Morais.

O Brasil tem muitas lacunas de infraestrutura, e certames são oportunidades ímpares para que possamos colocar obrigações de fazer em detrimento de obrigações de pagar. Essas obrigações de fazer têm de estar vinculadas a investimentos que não seriam realizados por uma livre decisão de mercado

Essa lógica é a reedição do edital do 3G, que ficou conhecido como "filé com osso". As empresas que venceram a licitação para operar em regiões mais rentáveis, como a capital de São Paulo, Sul e Sudeste --o filé-- tiveram de levar serviço para áreas com menor interesse econômico.

Em 2007, quando fizemos a primeira licitação para o 3G, o Brasil tinha até então 5.565 municípios, dos quais 1.836, um terço praticamente, não tinham acesso a telefonia móvel celular, nem de primeira ou segunda geração, muito menos de terceira geração. Dois anos depois, esses 1.836 municípios estavam cobertos

Internet das coisas (caras)

Lembra que falamos sobre o 5G não ser só um salto na velocidade da internet móvel? Pois é, o novo presidente da Anatel concorda. Para ele, a internet das coisas (IoT, na sigla em inglês) será um dos grandes trunfos. Mas é preciso entender as diversas necessidades.

"Latência será o nome do jogo. A grande diferenciação no futuro vai ser latência e velocidade, tanto na banda larga fixa quanto na móvel. Uma vez que você vai ter aplicações críticas de IoT, como carros autônomos, a latência demandada será muito baixa", disse.
 

  • IoT para aplicações massivas

    Essa vertente precisa de diversos sensores para que haja uma constante captura de dados. "No agronegócio, você pode ter agricultura de precisão, com sensores que vão contribuir bastante para o ganho de produtividade no campo."

    Imagem: Getty Images/iStockphoto
  • IoT para aplicações críticas

    Aqui, não a massificação de sensores, mas baixa latência. "Teremos IoT para aplicações críticas, como os carros autônomos e telemedicina." Se com carros isso é essencial, imagina com caminhões que se dirigem sozinhos?

    Imagem: Divulgação

Enquanto as aplicações críticas dependerão dos fabricantes colocarem seus produtos na rua, as aplicações massivas, na avaliação de Morais, o enrosco está nos impostos.

O problema é o Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel), um tributo que incide sobre qualquer dispositivo de radiofrequência, do celular às antenas de satélite. Ele é composto por duas taxas, uma cobrada no ato instalação e outra anualmente.

Como aplicações massivas de IoT exigirão muitos sensores, o imposto pode afastar interessados. "Esse mercado só será expandido e consolidado no Brasil caso não tenhamos o Fistel aplicado sobre ele."

Rafael Luiz Azevedo/Agência Pública Rafael Luiz Azevedo/Agência Pública

Existe outro porém. Como a faixa de 3,5 GHz pode causar interferências nos serviços de satélite que operam em frequências próximas, usá-la comprometer as antenas parabólicas.

Mas não espere uma megaoperação como a da migração da TV analógica para a TV digital para que a faixa dos 700 Mhz fosse liberada para o 4G.

Morais acredita ainda que o 5G deve trazer novos modelos de negócio para as operadoras, inclusive para a banda larga. Além de contratos baseados na oferta de determinadas velocidades, devem surgir ofertas por limites de latência.

Essa mudança na forma como o valor do boleto que chega à sua casa é calculado pode conter a guinada das operadoras rumo aos pacotes limitados de dados, que são muito usados nos contratos de celular.

A franquia de dados, que diminui a velocidade quando acaba o pacote de dados, começou a ser usada também pela banda larga, em 2016. Mas isso provocou uma gritaria de todos os lados.

A Anatel suspendeu a possibilidade de limitar o acesso de quem extrapola a franquia no mesmo ano. Relembre aqui.

Apesar de previsto em contrato, nunca houve a devida comunicação aos usuários. Além disso, a própria franquia de dados era muito limitada, diferentemente da de outros países, o que fez a Anatel intervir de forma mais intensa

Morais

O vai e volta no caso continua, mas Morais entende que pode fazer sentido provedores regionais de internet ou empresas de conexão via satélite precisarem oferecer serviços de banda fixa com franquias.

Acho que essa questão não deveria estar no horizonte de curto prazo da agência. Não é alta a demanda por uma revisão de decisão que está posta e que proíbe por tempo indeterminado as limitações

"Esses atores que levam internet para áreas remotas, assim como provedores pequenos, têm dificuldades com planos que não são atrelados a algum tipo de limitação."

Não se desespere agora. Essa, diz ele, é uma questão a ser analisada caso a caso.

Curtiu? Compartilhe.

Topo