A mão invisível do Google

Maior sistema operacional do mundo, Android foi de aquisição misteriosa do Google a ferramenta de poder

Rodrigo Trindade Do UOL, em São Paulo
Arte/UOL

10 anos depois

Você se assusta quando vê que o Facebook tem 2,27 bilhões de usuários? Saiba que o Google, embora tenha fracassado no ramo das redes sociais, tem uma ferramenta com mais alcance e, talvez, mais poder.

Isso porque o Android, sistema operacional para dispositivos móveis comprado despretensiosamente em 2005, opera 2,3 bilhões de celulares em todo mundo, dez anos após o lançamento do primeiro aparelho a funcionar com a plataforma.

Mas, 2018 pode ficar marcado como um ponto de virada para o serviço, já que a predominância do Android, até então "gratuito" para fabricantes de celulares, passou a ser vista como um instrumento de poder por meio do qual o Google impunha outros de seus produtos nos smartphones alheios. Isso resultou na maior multa da história aplicada pela Comissão Europeia, de 4,34 bilhões de euros.

A trajetória do sistema operacional foi tortuosa até o sucesso... e as polêmicas. Aqui nós relembramos este caminho.

A fundação

Hoje o Android é o sistema operacional responsável por habilitar a maioria dos smartphones do planeta. Só que houve um processo turbulento entre a fundação da empresa Android, que eventualmente seria comprada pelo Google, e a criação do produto pela qual ela ficou famosa.

Cofundada por Andy Rubin, Rich Miner, Nick Sears e Chris White, a empresa Android surgiu em outubro de 2003 para desenvolver um sistema operacional para câmeras digitais. Como sabemos em 2018, as câmeras digitais foram para o ostracismo quando foram substituídas pelos celulares. A startup percebeu a tendência na época e, no final de 2004, mudou seu foco para uma "solução de código aberto para aparelhos".

A exata mesma plataforma, o exato mesmo sistema operacional que construímos para câmeras viraram o Android para celulares

Andy Rubin

Andy Rubin, cofundador do Android, durante evento em Tóquio, em 2013

Johannes Eisele/AFP Johannes Eisele/AFP

A família Google

A Android foi esperta. Com os olhos voltados para o Windows Mobile e o Symbian, dois sistemas operacionais para celulares, deixou de lado as câmeras digitais e mirou num mercado que ainda tinha muito o que crescer.

A startup tinha apenas 22 meses de idade quando foi comprada pelo Google, em agosto de 2005.

Na época, o gigante das buscas não tinha um pé no mercado de celulares e viu na misteriosa empresa, que oferecia um software para telefones móveis, uma porta de entrada. As cifras da aquisição não foram reveladas na época, mas depois foi noticiado que o negócio custou US$ 50 milhões. SIm, uma bagatela perto do quanto ela vale hoje.

Adquirimos a Android por causa dos engenheiros talentosos e da ótima tecnologia. Estamos muito empolgados em contar com eles aqui

Google

Google, após aquisição da Android, em 2005

AP AP

A concorrente

Da aquisição pelo Google até o lançamento da versão 1.0 do Android, houve um intervalo de mais de três anos, período em que a Apple anunciou um produto que deu uma mexida no mercado de celulares: o iPhone.

O celular da empresa, na época comandada por Steve Jobs, chegou em junho de 2007, enquanto o sistema operacional do Google ainda amadurecia nos bastidores. Esperava-se um anúncio de um celular, mas em novembro veio a revelação: a novidade não era um aparelho, mas a Open Handset Alliance, uma iniciativa com parceiros de peso como a operadora T-Mobile, a fabricante de chips Qualcomm e as produtoras de celulares HTC e Motorola.

Eles cuidariam da criação de dispositivos, enquanto o Google criaria o sistema operacional para que tudo funcionasse.

O anúncio de hoje é mais ambicioso que qualquer Google Phone que a imprensa especulou nas últimas semanas. Nossa visão é que a poderosa plataforma que estamos revelando habilitará milhares de diferentes modelos de telefones

Eric Schmidt

Eric Schmidt, presidente do Google em 2008, quando ocorreu o anúncio da Open Handset Alliance

Reuters Reuters

No dia em que a Open Handset Alliance foi revelada, o Google lançou a versão beta e pública do Android 1.0 e apresentou o sistema operacional ao mundo em vídeos no YouTube. Um deles mostra a evolução absurda dos celulares de 2007 a 2018 (clique aqui para ver).

Em outro vídeo, Steve Horowitz, diretor de engenharia do Google, pega um celular da época para mostrar como era a navegação em páginas de internet e a exploração do Google Maps pelo dispositivo -- sem navegação em tempo real, só visualização de endereços no mapa. Parecia algo da idade da pedra.

A "aliança multinacional de tecnologia e líderes da indústria mobile" preparou o terreno para o lançamento do primeiro smartphone Android do mundo em outubro de 2008: o T-Mobile G1, também conhecido como HTC Dream em outros lugares do mundo.

Um doce de sistema operacional

Como uma plataforma de código aberto, o Android se espalhou rapidamente pelo mercado de celulares e, em 2010, superou o número de dispositivos que rodavam o iOS nos EUA. A liderança total no mercado americano veio em 2011, com a queda da popularidade do BlackBerry.

No comecinho da ascensão do Android, o Google adotou uma maneira divertida de identificar as atualizações do sistema operacional: dar nome de doces a elas. A brincadeira começou na versão 1.5, apelidada de Cupcake, que chegou em 2009.

Cada nova versão relevante do sistema operacional foi batizada com algum docinho. O nome foi evoluindo em ordem alfabética. Depois do Cupcake, veio o Donut (1.6). Depois, o Eclair (2.0-2.1). Assim por diante, até o mais recente, o Pie (9.0).

Já que esses dispositivos tornam nossas vidas tão doces, cada versão do Android é nomeada em homenagem a uma sobremesa

Google

Google, em comunicado oficial após o lançamento do Android KitKat (4.4)

As principais versões

Eclair (2.0-2.1)

Terceira versão do Android com nome de doce, o Eclair chegou em outubro de 2009 e introduziu a navegação por Google Maps. Na época, aparelhos de GPS eram os que davam o caminho para os motoristas, mas isso estava prestes a mudar. Outra novidade foi a conversão de voz para texto, tecnologia muito aprimorada desde então.

Jelly Bean (4.1-4.3)

Sabe o Google Assistente? O nascimento dele está associado à família Jelly Bean, que começou em junho de 2012 com o 4.1. Ela introduziu o Google Now, que era acessível diretamente na tela inicial e trazia informações cotidianas importantes, como o clima, eventos do calendário e o tempo de deslocamento até o trabalho.

Lollipop (5.0)

O Android Lollipop (5.0) renovou a aparência do sistema operacional usando os princípios do Material Design, uma nova identidade visual do Google. Esta versão também se estendeu a outros dispositivos, como Android Wear e Android TV, permitindo que você retome atividades iniciadas no celular em outros aparelhos.

Pie (9.0)

A versão dos 10 anos do Android veio com grandes mudanças no visual do sistema e trocou os três botões tradicionais por um só. Mas a mudança mais interessante é que este Android tenha uma inteligência que ajuda a prolongar a duração da bateria. O Pie também tem ferramentas robustas para ajudar a diminuir o vício em smartphones, um problema moderno.

Um gigante desleal

Com mais de 2 bilhões de dispositivos rodando seu sistema operacional, além de seus aplicativos e serviços, o Google esmagou a concorrência. Fora a Apple e seu iOS, é difícil de imaginar alguém fazendo frente ao poder do gigante de buscas, seja na criação de um novo sistema operacional para smartphones, uma loja de aplicativos, um buscador ou um navegador por GPS.

É um domínio que lembra o da Microsoft no final dos anos 90, quando a empresa fundada por Bill Gates foi acusada de minar o avanço de navegadores de internet que concorressem com o Internet Explorer. Isso porque o Windows estava presente em 95% dos computadores e vinha com o Internet Explorer instalado, prática que violava uma decisão judicial da Justiça dos EUA.

A situação do Google não é tão significativa em porcentual, mas em números absolutos o Android é ainda mais onipresente do que o Windows. A Comissão Europeia abriu u processo e acusa a empresa de exigir que os fabricantes de celulares pré-instalassem o Google Search e o Chrome como condição para que a Play Store fosse usada nos aparelhos. Como concorrer com serviços instalados em mais de 2 bilhões de aparelhos?

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O "de graça" que enriquece

O Android é oferecido de graça pelo Google às fabricantes de celulares, mas por ter se tornado uma ferramenta de poder e vir em conjunto com outros produtos da empresa, o sistema operacional é fundamental para a receita anual dela. Ao ligar um smartphone com Android, você já é instigado a logar em sua conta do Google e, logando ou não, compartilha sua localização por padrão, da mesma maneira que anúncios personalizados estão ativados de pronto.

Os anúncios direcionados aos seus interesses sempre foram o ganha-pão do Google. O Android só aumenta a fartura do que o Google sabe de você, inclusive o que você quer. Mas mesmo sem os anúncios o gigante das buscas tira seus trocados dos smartphones, pois ele leva 30% de todos os gastos na Play Store. Os usuários de Android corresponderam a 34% da receita global com aplicativos em 2017, segundo a App Annie. Foi menos que a App Store da Apple, mas já é uma boa graninha.

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Mudanças no horizonte

Com a multa de 4,34 bilhões de euros aplicada pela Comissão Europeia, o Google decidiu desfazer a gratuidade do Android - ao menos para o mercado europeu. Tecnicamente, o sistema operacional continuará gratuito, mas os aplicativos pré-instalados precisarão ser pagos pelas fabricantes de telefones se elas quiserem usá-los. Em outubro, Hiroshi Lockheimer, presidente de plataformas e ecossistemas da empresa, anunciou as mudanças.

"A pré-instalação do Google Search e do Chrome junto com nossos outros aplicativos nos ajudou a financiar o desenvolvimento e a distribuição gratuita do Android. Apresentaremos um novo contrato de licenciamento pago para smartphones e tablets enviados para o Espaço Econômico Europeu", afirmou.

Tais mudanças entraram em efeito no último dia 29. O Google ainda recorre ao processo da Comissão Europeia, mas as alterações forçadas por ela sinalizam alterações significativas no modelo construído pelo Android até seu 10º aniversário.

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