Eu zapo, tu zapas...

Faz dez anos que o queridinho dos brasileiros chegou e mudou tudo. Como viemos parar aqui?

Rodrigo Trindade Do UOL, em São Paulo
Mathias Pape/UOL

Você já parou para pensar como conversava com amigos e familiares há 10 anos?

Era um tempo de celulares "burros", câmeras de 2 MP, comunidades de Orkut e mensagens trocadas pelo MSN. Já existia smartphone naquela época, mas era um luxo. Em 2009, a galera ganhou um jeito totalmente novo de se comunicar: mensagens "de graça" nos telefones inteligentes, independentemente de operadora e modelo. Foi uma revolução.

O WhatsApp nasceu no dia 24 de fevereiro daquele ano e foi ganhando cada vez mais fãs. Virou o favorito de brasileiros, indianos e do pessoal de outros 110 países que vivia condenado a um número limitado de torpedos SMS.

Disso, ninguém tem saudade.

Foi por causa dele que as operadoras mudaram seus serviços:

  • Os combos ligações + pacote de SMS viraram franquia de dados
  • A receita das operadoras com dados pulou de 23% (2012) para 71% (2018)*
  • Dos 229 milhões de celulares no Brasil**, 120 milhões têm o WhatsApp

    *Fonte: SindiTelebrasil / **aproximadamente, pelo número de chips habilitados

Eles estavam na hora e no lugar certos. Os usuários queriam uma plataforma de mensagens mais rica que o SMS. Também queriam usar algo que não fosse conduzido por operadoras e ajudasse a reduzir custos. De repente, todos nós podíamos mandar mensagens livremente

Jessica Ekholm

Jessica Ekholm, vice-presidente da empresa de consultoria Gartner

Os fundadores

Jan Koum

Foi quem teve a ideia de criar o WhatsApp, depois que comprou um iPhone e conheceu a jovem App Store. Nasceu na União Soviética, perto de Kiev, atual capital ucraniana, também no dia 24 de fevereiro. Por lá, via que os pais raramente usavam o telefone, com medo de terem as ligações grampeadas pelo Estado. Isso o inspirou, mas, curiosamente, o app não servia para troca de mensagens. Koum migrou para os EUA com a mãe, aos 16 anos. Na Califórnia, fez faculdade e começou a trabalhar na Ernts & Young. Foi ali que conheceu Brian Acton, que o arrastou para o Yahoo, onde ficou até 2007.

Brian Acton

O americano tem uma história menos emocionante, mas tão bem sucedida quanto. Fez ciência da computação na Universidade Stanford e passou por, entre outras empresas, Apple e Adobe antes de se tornar o 44º funcionário do Yahoo, em 1996. No ano seguinte, conheceu Koum, que fez auditoria no Yahoo como funcionário da Ernst & Young. Ficou muito amigo do ucraniano, mas não fez parte da fundação do WhatsApp. O status de cofundador só veio em novembro de 2009, depois que Acton arrumou US$ 250 mil de cinco amigos ex-Yahoo para sustentar a empresa nos estágios iniciais.

Cresci numa sociedade onde tudo que você fazia era espionado, gravado, denunciado. Ninguém deveria ter o direito de espionar, senão vira um Estado totalitário... O tipo de Estado que eu escapei quando criança para vir para este país, onde há democracia e liberdade de expressão. Nosso objetivo é proteger isso
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Jan Koum

Jan Koum, ao "The Guardian"

Um mensageiro por linhas tortas

WhatsApp é uma brincadeira com o termo "what's up?", um "e aí?" ou "o que está rolando?", em inglês. O app que Koum tinha pensado --e criou com o desenvolvedor russo Igor Solomennikov-- te informaria o status dos seus contatos. Bem isso: "estou na academia", "estou no cinema", "estou em uma ligação" e só.

Com a chegada das notificações no iOS 3.0, as atualizações pipocavam na tela das pessoas. Por que, então, não criar um serviço de troca de mensagens? Foi o que aconteceu. Mas, no começo o WhatsApp não trazia toda a segurança para evitar que você sofresse com a falta de privacidade e uma comunicação vigiada, como aconteceu com os pais de Koum.

Primeiros pilares

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    Criptografia

    O primeiro pilar do WhatsApp foi fincado em 2012, com a criptografia --que virou "de ponta a ponta" em abril de 2016. Com ela, só o emissor e o receptor (ou receptores, no caso de grupos) têm acesso ao conteúdo trocado. "As chaves relativas a uma conversa são restritas aos interlocutores. Ninguém tem acesso, nem o WhatsApp. Não há como tirar [a criptografia] para um usuário específico, a não ser que se inutilize o WhatsApp para ele", explicou Acton.

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    Propaganda

    O segundo pilar era o da remuneração. O WhatsApp era pago no início. O preço era quase simbólico, US$ 0,99, mas gerava questionamentos: por que não ser gratuito, com anúncios custeando tudo? A resposta era visual: "anúncios são uma porcaria, ainda mais na tela pequena de um dispositivo portátil. Queremos a melhor experiência e fazer propaganda só vai atrapalhar uma interface limpa." Mas também passava pela repulsa à propaganda e coleta de dados para anúncios personalizados, modelo adotado pelo Facebook.

Diferentemente das redes sociais, a natureza do WhatsApp é a troca de mensagens privada, simples, confiável e segura. Essas são as nossas bases

Carl Woog

Carl Woog, chefe de comunicações do WhatsApp

Venda ao Facebook e contradições

Se houve um aprendizado que Acton tirou do Yahoo, ele tinha a ver com propagandas. À "Forbes", o cofundador lembrou de seu envolvimento com uma plataforma de anúncios do Yahoo e chamou o trabalho de "deprimente", além de argumentar que "você não torna a vida de ninguém melhor ao fazer anúncios funcionarem melhor".

Em 2011, quando conseguiram US$ 8 milhões de financiamento da empresa de capital de risco Sequoia prometeram que não forçariam ao WhatsApp a adoção de nenhum modelo de anúncios.

Eles realmente odiavam a coisa. Num post feito por Koum no blog do WhatsApp, em junho 2012, ele escreve praticamente um manifesto contra propaganda, com direito a uma frase do filme "O Clube da Luta".

A publicidade nos faz perseguir carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos, para que possamos comprar coisas que não precisamos

Ironicamente, perto do aniversário de 5 anos, o aplicativo foi comprado pelo Facebook por US$ 19 bilhões. Na ocasião, o WhatsApp tinha 450 milhões de usuários mensais e ganhava um milhão de novos usuários a cada dia.

Com a aquisição, o destino levou Koum e Acton para a empresa que, em 2007, rejeitou os dois em um processo seletivo.

O Facebook me rejeitou. Foi uma ótima oportunidade para me conectar com algumas pessoas fantásticas. Ansioso para as próximas aventuras da vida
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Brian Acton

Brian Acton, comentando uma tentativa de entrar no Facebook em 2009

O app começou a ter seus princípios abalados depois da aquisição, já que, em agosto 2016, o Facebook começou a sugerir amigos baseados nos seus contatos do WhatsApp. O acesso a esses dados também afetou os anúncios exibidos na rede social.

Como era de se esperar, a união não foi estável. Acton deixou a empresa em setembro de 2017 para fundar uma ONG que trabalha na intersecção da tecnologia e comunicação.

Após o escândalo da Cambridge Analytica, que usou nossos dados no Facebook de forma questionável, ele também aderiu ao movimento #deletefacebook (apague sua conta). Já Koum ficou até o final de abril de 2018 e afirmou que se afastaria da tecnologia para curtir seus hobbies: colecionar Porsches e jogar ultimate frisbee.

O Facebook, porém, agora tem poder de derrubar os pilares fundamentais: coletar o mínimo de dados possíveis dos usuários, não armazenar as mensagens (elas passam pelo sistema, mas não são armazenadas) e criptografar tudo... Para quem era absolutamente contra a propaganda, o WhatsApp foi parar no lado errado da mesa.

Havia um monte de apps complicados e bagunçados demais para as pessoas usarem. Nossa expectativa era por um "torpedo SMS" melhor, mais rápido, fácil e criptografado. E o WhatsApp fez o que devia: uma plataforma limpa, confiável, com criptografia de ponta a ponta, que fosse gratuita e que a maioria dos nossos amigos usasse também

Jessica Ekholm

Jessica Ekholm, vice-presidente da Gartner

O dono do pedaço...

  • WhatsApp é o app de troca de mensagens mais popular em 112 países
  • Tem 1,5 bilhão de usuários ativos em 180 países
  • Brasileiros e indianos dominam 
  • São 2 bilhões de chamadas de vídeo feitas por dia no mundo
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Quem está na briga?

  • Messenger

    O Facebook Messenger faz parte da rede social mais popular do planeta, mas como app de comunicação está em segundo lugar. EUA, Canadá, França e Austrália são alguns dos países onde domina. Ele é o líder em 57 territórios.

  • WeChat

    Em número de usuários, o WeChat é o terceiro maior aplicativo de mensagens do mundo, mas ele é líder em apenas um país. A China, sozinha, basta para que o app da Tencent tenha 1,08 bilhão de usuários ativos diariamente.

  • Viber

    Durante um momento, o Viber apareceu como uma versão gratuita para ligações, enquanto o WhatsApp fazia os SMS de graça. Por aqui, acabou engolido, mas lidera em países do Leste Europeu. No total, ele é o app mais usado em 11 locais.

  • Line

    Uma espécie de versão japonesa do WeChat, o Line é o líder em terras nipônicas, com 79 milhões de usuários ativos mensais. Ele ainda é líder em outros dois territórios asiáticos, Taiwan e Tailândia.

Quem caiu...

"Herdeiro" do ICQ, o MSN Messenger, que depois mudou de nome para Windows Live Messenger, foi o campeão dos anos 2000. Ele permitia a troca de mensagens instantânea pelo computador e foi o responsável pela criação de milhões de emails com a arroba hotmail --quem cresceu na época, certamente teve um.

Mas a Microsoft demorou para ganhar os smartphones e ficou de fora. Isso aconteceu em junho de 2010, mais de um ano depois do WhatsApp dominar. Em 2013, a Microsoft voltou seus esforços para o Skype, que ainda está por aí, mas não é páreo para o "zapzap".

Outros apps também brigaram por território, como o Telegram. Era o aplicativo que todos indicaram quando o WhatsApp era bloqueado pela Justiça brasileira. Não morreu, chegou a 200 milhões de usuários em 2018, mas não é o mais usado em lugar nenhum --até o fim do ano passado, era líder no Irã.

Um da velha guarda era o BBM, para mensagens entre celulares BlackBerry. Foi um serviço popular, mas que definhou com a perda de relevância da marca.

Ele chegou para bagunçar

E nisso evoluímos como uma sociedade equipada de smartphones e grudada no WhatsApp. No Brasil, ele moldou a forma como vivemos e virou até um sinônimo de internet para parte da população que se conectou à rede pela primeira vez por meio dos celulares.

Temos um uso muito indiscriminado de WhatsApp. Ele cresce muito porque as operadoras disponibilizam o app gratuitamente, independentemente de chip pré-pago

Andrea Jotta, psicóloga da PUC-SP especialista em psicoweb

É só buscar a oferta das principais empresas de telefonia que você encontra o WhatsApp liberado para uso ilimitado em ofertas de planos controle, pré ou pós-pagos.

Isso traz benefícios e potenciais riscos, como mostraram os boatos disseminados pelo WhatsApp nas últimas eleições. Fato é que o aplicativo mudou como o brasileiro interage:

  • Grupos

    O WhatsApp aproxima e cria vínculos digitais. Dentro de um grupo, você se sente próximo às pessoas, sejam elas amigos ou apenas conhecidos --pessoal ou virtualmente. "É mais fácil conviver com essas pessoas do que com seu vizinho", diz Jotta. Para Rosemary Segurado, cientista política e professora da PUC-SP que acompanha milhares de grupos, o WhatsApp e outros canais como ele "dão uma falsa sensação de proximidade, pertencimento".

  • Desinformação (e fake news)

    Esse fenômeno que afetou as eleições dos EUA pelo Facebook também teve grande impacto no Brasil no WhatsApp. Grupos políticos, por exemplo. chegam até a viver uma "realidade paralela", segundo a análise de Segurado. Temas do dia às vezes inexistem nesses grupos. Para Jotta, este é um risco do WhatsApp: é o único canal de informação de muitos, que, por limitações de planos, não desenvolvem senso crítico para saber o que procede ou não.

  • Paquera

    No passado, possíveis casais trocavam telefones e depois celulares. Hoje a pergunta mais apropriada é: qual o seu zap? Com ajuda de outros apps, o WhatsApp é a forma que casais se conhecem, combinam encontros e criam intimidade. Essa exposição, que há 10 anos talvez fosse considerada exagerada, foi normalizada. Jotta alerta para a disseminação de pornografia e o uso de contas falsas. "Isso reflete muito do ser humano que faz uso da ferramenta", afirma.

E o futuro?

Quanto mais o WhatsApp cresce, mais ele precisa mostrar como pretende ganhar dinheiro com toda essa popularidade, sem abrir mão de seus maiores trunfos.

Com o adeus dos fundadores, o WhatsApp ficou sob comando de Chris Daniels, funcionário de longa data do Facebook que cuidava da iniciativa Internet.org. A gestão dele, no entanto, foi pouco marcante e tem divergido dos princípios que Koum e Acton mantinham. Em 2018, Daniels confirmou, por exemplo, que anúncios chegarão ao WhatsApp, começando pelo Status.

Quem curte o app pela privacidade também tem com o que se preocupar. Mark Zuckerberg anunciou planos para uma integração entre as plataformas WhatsApp, Instagram e Messenger. Não parece ser uma mudança iminente, mas só a ideia disso já recebeu resistência do órgão alemão que equivale ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) brasileiro.

Se a influência externa não der conta, as garras gananciosas do Facebook devem se firmar ainda mais no serviço.

Apesar dessas preocupações, o WhatsApp ainda é aquele app simples de usar, usado por bilhões todos os dias. "Se seu avô ou avô conseguem usar um app, então este é um vencedor!", disse Jessica Ekholm. E este é o apelo do querido "Zap": quase todos usam, sabem e gostam de usar.

Enquanto isso, o WhatsApp reina absoluto. Mas a dúvida persiste: se o Facebook bagunçar com os pilares básicos do serviço, o app se sustenta? Se a história da internet nos ensinou alguma coisa é que reinos caem - e rápido.

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