Um bilhão de oportunidades

Índia é o país que mais inclui pessoas, por dia, na internet e é o 3º maior polo de startups no mundo

Felipe Zmoginski Colaboração para o UOL, em São Paulo
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"Pai, a internet aqui é uma droga"

A afirmação da estudante Jana Ambani, 26 anos, poderia ter sido dita em qualquer cidade brasileira, onde nem sempre é fácil e estável navegar na web usando uma rede mobile. A garota em questão, no entanto, proferiu a reclamação do alto da mais luxuosa residência de Mumbai, um prédio de 23 andares com vista para o Mar das Arábias, residência de Mukesh Dhirubhai Ambani, homem mais rico da Índia, com uma fortuna pessoal estimada em U$$ 46 bilhões.

A reclamação de Jana serviu de estopim para uma transformação digital que tornou a Índia o país que mais inclui pessoas na internet em todo o mundo, fenômeno que está transformando negócios de companhias internacionais como Google, Amazon e Walmart.com no país indiano e permitindo o florescimento de uma rede de startups que já é a terceira maior do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos e da China.

A partir das queixas de sua filha, Mukesh Ambani, cuja riqueza foi herdada do pai, um pioneiro na exploração de petróleo no país, decidiu fundar a Jio, palavra que significa "vida" no idioma hindi, empresa de telefonia que instalou 2 milhões de antenas pelo país e cujos investimentos na expansão da rede 4G devem superar US$ 35 bilhões até o final deste ano.

Para muitos analistas que acompanham o crescimento da Jio, os investimentos podem não se justificar, já que será difícil gerar, em receitas, todo o montante aplicado em redes mobile no país. De acordo com Ambani, sua companhia vai monetizar a rede por meio de contratos de banda larga, serviços de conteúdo, serviços financeiros e publicidade digital.

Levar as redes 4G até as vilas mais distantes do Himalaia é o maior processo de inclusão digital já feito no planeta. Não há paralelo no mundo

Mukesh Dhirubhai Ambani

Mukesh Dhirubhai Ambani, CEO da Jio

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Capitais mundiais do software

A expansão da internet para os rincões do país que deve tornar-se, em 2020, a maior população do planeta, está transformando a economia de grandes cidades como Mumbai e Bangalore, antes conhecidas por sediarem empresas de telemarketing e serviços de atendimento ao consumidor. Nos últimos quatro anos, de acordo com a consultoria eMarketer, empresas como Oracle e Qualcomm transferiram 30 mil empregos de desenvolvimento de software para estas duas cidades, explorando uma mão de obra capaz de falar inglês fluente, já que o país foi colônia inglesa nos séculos 19 e 20, e programar por preços que chegam a 5% do valor de um desenvolvedor sediado nos Estados Unidos.

De acordo com a eMarketer, o custo por 1 GB trafegado em redes 4G na Índia é equivalente a R$ 8,12, valor que permitiu ao país saltar de 120 milhões de pessoas para 390 milhões de cidadãos conectados, segunda maior população online do mundo em números absolutos.

A taxa de penetração, no entanto, ainda é baixa. Na Índia, 28% das pessoas tem acesso à internet; nos Estados Unidos este marcador é de 89%. A transformação digital indiana tornou o setor de TI, sozinho, responsável por 8% de todo o Produto Interno Bruno (PIB) que cresceu em 2016 e 2017 a taxas superiores a 7% ao ano. Para efeito de comparação, a China fechará este ano com expansão de 6,4% do PIB e o Brasil com 1,1%. A indústria de TI é também responsável por 31% das exportações do país.

Parte do sucesso econômico da indústria de TI local é explicado por um programa liberal implementado pelo primeiro ministro indiano, Shr Narendra Modi, que reduziu direitos dos trabalhadores e impostos de companhias estrangeiras que investissem no país. A política de Modi é controversa por expor a já empobrecida população local às flutuações do mercado internacional, mas foi eficaz para gerar crescimento, inovação e uma onda de empreendedorismo.

Vamos fazer um ambiente tão dinâmico que haverá filas de estrangeiros em nossos consulados pedindo para tirar um visto indiano

Shri Narendra Modi, primeiro ministro da Índia

AFP

Índia terá mais consumidores que a China

Ao menos nos últimos três anos, a visita de estrangeiros à Índia cresceu em ritmo vertiginoso. O Google, por exemplo, enviou mais expatriados ao país, para entender o motivo de a India ter se tornado o país que mais baixa aplicativos na Google Play em todo o mundo, de acordo com relatório da App Annie. Funcionários da Amazon também têm se perfilado nos consulados da Índia nos Estados Unidos atrás de um visto. A companhia tenta surfar no prodigioso crescimento do e-commerce local, que deve multiplicar-se por 10 em um período de sete anos.

Em 2014, por exemplo, os consumidores indianos transacionaram US$ 5,7 bilhões em sites de comércio eletrônico, número que chegará a US$ 32 bilhões este ano e superará a marca de US$ 50 bilhões em vendas até 2020, projeta a eMarketer. A missão das companhias americanas, no entanto, é cada vez mais dificultada por um florescente cenário de startups locais.

De acordo com análise do serviço de notícias Techcrunch, a cada dia são formalizadas, na Índia, 9.700 startups, das quais 4.200 dedicam-se exclusivamente a setores de tecnologia, como blockchain, inteligência artificial, reconhecimento de rostos e interpretação de linguagem natural. Ao menos oito destas empresas nascentes já valem, cada uma, mais de US$ 1 bilhão de dólares cada, patamar-referência para chamar uma empresa iniciante de "unicórnio" no jargão do mercado de investimentos. Para efeito de comparação, no Brasil, só duas empresas podem ser definidas assim: a Movile, que reúne marcas como iFood e PlayKids, e a 99, aplicativo de táxis que atingiu o valor bilionário após receber investimentos chineses.

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Entre as estrelas indianas que valem muitos bilhões está a FlipKart, e-commerce fundado por Sachin Basal que adaptou-se à realidade local como nenhum outro serviço de comércio eletrônico. Na FlipKart, é possível fazer compras online e pagar em dinheiro vivo ao entregador, característica que permitiu driblar a baixa bancarização e uso de cartões de crédito no país. A empresa também inventou sua própria logística, enviando motoboys aos confins do Himalaia indiano para entregar roupas, eletrônicos e artigos esportivos em povoados remotos.

Basal já recebeu uma dezena de ofertas para vender sua empresa. Recusou todas. Segundo o fundador do FlipKart, o valor de sua companhia será muito maior se continuar sob seu comando na próxima década, quando espera ver os dispendiosos investimentos em logística recompensados com a expansão do comércio eletrônico no país.

Mesmo que os atuais investimentos em 4G estacionassem, de acordo com a telecom Jio, apenas 20% da capacidade da rede já instalada é utilizada. Portanto, há espaço para ao menos triplicar o número de pessoas conectadas nos próximos anos, o que faria a Índia atingir a projeção de Basal e tornar-se o país mais conectado do mundo, à frente de China e Estados Unidos.

O desafio, para isso, é elevar a renda média da população local. De acordo com relatório das Nações Unidas, existem na Índia mais de 400 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza, fator calculado para quem tem menos de US$ 1,25 para gastar por dia. Para esta parcela dos indianos, que é o dobro da população total do Brasil, gastar o equivalente a R$ 8 por mês com internet ainda é um luxo.

Logística é cara quando você não tem escala. A Índia será a maior população online do mundo na próxima década e, portanto, nossa logística será uma das mais econômicas do mundo

Sachin Basal, fundador da FlipKart

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Pobreza inspira soluções inovadoras para o mundo

As dificuldades econômicas e os ganhos de escala fornecidos por uma população gigantesca têm permitido o surgimento de soluções incrivelmente baratas no país. Uma delas, feita entre técnicos locais e pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, permitiu desenvolver o mamógrafo mais barato do mundo, sem radiação e com índices de acerto no diagnóstico similares aos obtidos pelos equipamentos mais avançados da Alemanha e Suíça.

Chamada de "IBreastExam", a startup indiana criou um aparelho feito de cerâmica que emite sinais elétricos no peito de mulheres e obtém, como retorno, imagens em um smartphone simples, conectado ao aparelho. Na Índia, apenas 66% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama sobrevivem ao tratamento, em geral por descobrirem a doença quando o tumor está avançado. Nos Estados Unidos, para efeito de comparação, a taxa de sobrevivência é superior a 90%.

Além de econômico, o exame é fácil de ser realizado por técnicos com treinamento simples. Na Índia, informa o ministério da Saúde local, existe um radiologista para cada grupo de 10 mil habitantes. No Brasil, esta relação é 12 vezes maior.  Quando o exame é inconclusivo ou aponta chance de tumor, então a paciente é encaminhada para fazer uma mamografia convencional. De acordo com a empresa que desenvolveu a solução, o aparelho de cerâmica já é exportado para 11 países, entre eles nações africanas, como Botswana, e asiáticas, como o Mianmar, que compartilham com a Índia a pouca infraestrutura de saúde médica.

Como no caso do "iBreatExam", muitas soluções de sucesso na Índia ainda dependem da colaboração de universidades e pesquisadores estrangeiros, já que institutos científicos de ponta são raros no país e os melhores talentos indianos emigram aos milhares para Europa, Estados Unidos e Canadá. De acordo com o ranking "Top One Hundred Universities", elaborado pelo  CWUR (Center for World University Rankings) nenhuma universidade indiana figura entre as 100 melhores do mundo, mesma situação do Brasil. A universidade brasileira mais bem colocada, a USP, está na 138º posição. A Universidade de Bombaim, na posição 207º.

Para a maior parte dos especialistas em Índia, o crescimento anotado no país terá longa duração, já que há ganhos de produtividade a serem implementados na agricultura, serviços e na infraestrutura. O boom de tecnologia indiano, no entanto, deve ser a locomotiva deste processo. A exemplo de outras nações que saíram da pobreza para tornarem-se sociedades admiradas por seu dinamismo, como a China e a Coreia do Sul, a solução para continuar crescendo é sempre a mesma: educação.

YouTube e Chrome têm baixa audiência na Índia

  • UC Browser

    Navegador mais usado do país, este browser compacta dados antes de transferi-los ao usuário, permitindo menor consumo dos pacotes 4G; faz uso intensivo de cash para acelerar a navegação; e não oferece qualquer restrição ao bloqueio de publicidade. O resultado é a liderança nacional em seu segmento.

  • SHAREit

    O aplicativo de nuvem mais popular do país não é o Google Drive ou Dropbox, é uma solução que permite baixar vídeos, músicas, fotos e arquivos de texto e enviá-los a outros usuários de um modo simples e rápido. O app foi o sexto mais baixado do país nos últimos 12 meses.

  • JioTV

    Este aplicativo é uma mistura de YouTube (vídeo on demand) e streaming da programação de TV ao vivo. Seu sucesso limitou a audiência do YouTube e Netflix no país. Para muitos indianos, ele substitui a TV convencional, que plugam um set-top-box da Jio aos televisores de casa.

  • Ypstar

    Grande fenômeno social de 2018, este apps é uma espécie de "show de calouros" local, em que indianos com talentos variados, como cantar ou fazer performances de equilibrismo por "live stream", se reúnem em comunidades para entreter uns aos outros.

Imigração e concentração de renda explica sucesso indiano em tecnologia

Um estudo da Forbes 500, que analisa anualmente as quinhentas maiores empresas do mundo, identificou, em 2017, que 30% das companhias analisadas possuía indianos nos cargos mais altos de decisão, como CEO, CIO e CTO, respectivamente os chefes de toda operação, da área de informação e de tecnologia.

Algumas das maiores companhias americanas, como Google e Microsoft, por exemplo, são presididas por indianos, como Sundar Pichai, CEO do Google, e Satya Nadella, na Microsoft. A liderança indiana também se verifica na finlandesa Nokia, presidida por Rajeev Suri, e em outras duas estrelas da inovação americana, como a Adobe, comandada por Shantanu Narayen, e a Conduent, divisão da Xerox liderada por Ashok Vemuri.

A ascensão de nomes indianos em companhias ocidentais de tecnologia levou a universidade de Harvard a investigar o porquê da preponderância de líderes deste país em empresas globais. As conclusões apontadas no estudo são a intensa imigração de indianos ricos para os Estados Unidos.

De acordo com o estudo, a elite indiana envia seus melhores talentos para estudarem em universidades de prestígio no Ocidente, como Stanford, Harvard e Oxford. O mesmo acontece com chineses, por exemplo, mas estes encontram ótimas colocações em seu país de origem, ao passo que os indianos preferem permanecer nos Estados Unidos.

Nomes brilhantes como Pichai e Nadella, no entanto, emigravam há décadas para o Ocidente e construíram carreiras sólidas antes de chegar ao topo das companhias que dirigem. Segundo a análise, as restrições a imigração a partir de 2001, com o 11 de setembro e, mais recentemente, com as decisões de Donal Trump, devem ter um efeito retardado, diminuindo a presença de indianos no topo de empresas americanas nas próximas décadas.

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