Lute como uma garota

Há uma década, Lola é alvo de grupos de ódio e não deixa barato: levou para a cadeia seus agressores

Lola Aronovich | Relato a Márcio Padrão Especial para o UOL
Marília Camelo/UOL

No dia 22 de março, a professora e blogueira feminista Lola Aronovich escreveu que 30 seguranças e três carros em comboio foram escalados para protegê-la num evento na UnB (Universidade de Brasília). Havia rota de fuga programada, e a foto de um dos homens que prometeu se matar e "levá-la junto" foi distribuída a todos que faziam a escolta. "Um deles me disse que haviam cuidado da segurança do Lula e do dalai-lama do mesmo jeito que estavam cuidando da minha", contou.

Quando houve o massacre na escola de Suzano (SP), o nome dela foi um dos primeiros a ser citado pelos que comemoravam as mortes: "avisa lá a Lola", disseram seus velhos conhecidos.

Os dois exemplos servem para ilustrar o tamanho da briga da professora da Universidade Federal do Ceará contra os trolls misóginos. Ela virou a grande inimiga do grupinho, mas sabe bem como enfrentá-los. Sem medo, com desprezo, monitoramento e denúncia. Aqui, ela faz o seu relato.

Me assumo feminista desde os oito anos. Quando comecei o blog Escreva Lola Escreva, em janeiro de 2008, os primeiros textos já eram feministas. Mesmo quando colaborava com crônicas de cinema para um jornal, os textos tinham um viés bastante feminista. Mas, claro, comecei a levar o assunto mais a sério, a ler e me informar, por causa do blog.

Qualquer blog ativista --não só feminista, mas de direitos humanos, LGBT, movimento negro, aceitação do corpo-- vai receber trolls. São pessoas com perfil muito parecido, pelo menos os meus sempre foram iguais: homens brancos héteros, de extrema direita, muito preconceituosos com tudo e, em geral, não gostam de mulheres. Quer dizer, apreciam sexualmente... e só. São regidos pelo ódio e chamam todo mundo que não pensa como eles de "gado".

Eles começaram a aparecer desde o primeiro dia do blog.

Marília Camelo/UOL

Cheguei a ter contato indireto com os misóginos masculinistas (abreviei e passei a chamá-los de "mascus") quando eles criaram comunidades no Orkut para comemorar a morte da Eloá e fazer do assassino um herói, em 2008, mas não sabia muito sobre eles até o final de 2010. Só que eles já sabiam de mim e escreviam coisas a meu respeito.

Diziam: "você deve estar chorando em posição fetal depois de eu ter te xingado tanto". E eu: "Oi?"

Nem tava chorando, não falo com eles. Conto nos dedos as vezes que falei com um "mascu", e me arrependi de todas elas. Não sei se foi por que meu blog cresceu ou se mostrei que não tenho medo, mas eles ficaram com mais raiva. Virei o alvo número um.

Eles não aceitam o fato de eu ser uma feminista que desafia os estereótipos criados por eles, de que toda feminista é lésbica e odeia homem, e não aceitam que eu ou qualquer feminista possa ser hétero e casada. Precisam ter um inimigo principal, porque se unem em torno disso.

Marília Camelo/UOL

Lembro de ter visto no Dogolachan [fórum alimentado pelo grupo] um manual com "100 maneiras de arruinar a vida de uma pessoa", que eles traduziram de algum fórum americano. Uma delas é ligar várias vezes para uma pessoa sem falar nada. Para acabar o casamento, é usar uma voz feminina para falar com o homem da casa, quando a mulher atende. Ou enviar prostitutas e travestis, e quando a pessoa que foi lá fica sabendo que você não chamou ninguém, faz um escândalo para que todos os vizinhos vejam.

Um dos caras, conhecido como Goec, tinha acesso a um banco enorme de dados, como endereços, placas do carro, vizinhos e fazia "doxing", que é descobrir a maior quantidade possível de dados sobre a vítima e seus familiares, para fazer chantagem.

Eles passaram a atacar a mim e às minhas leitoras. Diziam: 'Sei que você mora na rua tal, vou te estuprar, e sua mãe também'. Receber uma ameaça dessas já é assustador, quando sabem seu endereço é bem terrível... Mandavam montagens pornôs, colocavam os nomes delas, com telefone, em sites de swing e prostituição, enviavam para o trabalho delas.

Mandar pizza na casa de alguém é uma ameaça indireta, um jeito de dizer que sabem seu endereço residencial --e é muito fácil encontrar o endereço de alguém na internet. O meu endereço eles sabem desde 2009.

Se uma moça recusou namorar um cara, por exemplo. Eles consideram ultrajante e passam a atacá-la, mesmo que ela seja menor de idade e ela nem saiba por quem está sendo atacada. Descobrem o endereço e mandam vibradores, cocô...

São rapazes muito frustrados com a vida, que não trabalham, estudam ou namoram. Que ficam o dia todo na internet lendo e compartilhando ódio, atacando pessoas

Anos atrás, escrevi um post humorístico com pérolas dos "mascus". Por exemplo, eles acham que vivemos um matriarcado que escraviza homens, onde 20% dos homens têm acesso a 80% das mulheres. A verdadeira vítima do mundo (e das mulheres, que, para eles, são superinteresseiras) seria o homem branco e hétero, que eles dividem entre "alfa" e "beta". Os alfas se dão bem, e os betas são os "virjões" ou "incels" (celibatários involuntários). Como eles.

Vamos rir um pouco.

Nessa época, um deles veio me convencer que até a Gisele Bundchen era interesseira, porque casou com Tom Brady por dinheiro. Você dizia: 'mas a Gisele é mais rica que Tom!', e o cara não se dava por vencido. 'Ela casou por causa do green card'. Para eles, não tem outra explicação.

Marília Camelo/UOL

Mas, em abril de 2011, houve o massacre de Realengo. Aí a gente viu que o negócio era sério.

O Wellington [o autor do crime] era um "mascu", e a mídia não tratou o caso como crime de ódio, mas como tragédia ou incidente. As testemunhas e a perícia disseram que ele atirava nas meninas para matar, e nos meninos para ferir, mas não se tentou explicar por que ele matou dez meninas e dois meninos.

Na época, um blog "mascu", que até então era o maior que havia, fechou sem explicação e reabriu seis meses depois ainda mais extremista e asqueroso do que já era. Ele pregava coisas como legalização do estupro, estupro corretivo para lésbicas, legalização da pedofilia... Tinha posts como: "Seja homem: mate uma mulher hoje".

E já oferecia recompensas para quem matasse a mim ou a Jean Wyllys, que naquela época estava no começo do primeiro mandato [ele atuou como deputado federal pelo PSOL-RJ de 2011 a 2018]

Esse site de ódio foi denunciado à exaustão. Chegou a 70 mil denúncias na Safernet, ONG de combate a crimes na internet, mas era muito difícil tirá-lo do ar. A gente denunciava, aí saía e voltava um dia depois, porque não estava hospedado no Brasil, mas em vários lugares: Chicago, Malásia, Filipinas.

Marília Camelo/UOL Marília Camelo/UOL

Até que conseguimos descobrir quem eram os criadores e autores do blog: Marcelo Valle Silveira Mello e Emerson Eduardo Rodrigues. Os dois foram presos pela Operação Intolerância, da Polícia Federal, em março de 2012 e condenados a seis anos e sete meses de prisão.

Eles ficaram um ano e três meses na cadeia e, assim que saíram, passaram a fazer exatamente as mesmas coisas de antes, principalmente Marcelo que ficou simplesmente reciclando aquele site de ódio com outros nomes. De 2013 a 2018, usou nomes como Tio Astolfo, Realidade, Homens de Bem, Rio de Nojeira, Guia de Estupro em pelo menos uns dez sites.

Marcelo falou várias vezes que tem duas pessoas na vida que ele não vai descansar enquanto não acabar com elas: eu e o ex-comparsa dele, Emerson, com quem brigou

Um dia, em 2013, ele foi expulso de um chan [fórum] e criou seu próprio: o Dogolachan. Eu mal sabia que chans existiam, nunca tinha entrado em um. Mas o Marcelo fez questão de me mandar o link do site várias vezes, para eu acompanhar as ameaças de morte e estupro que ele e sua quadrilha faziam a mim.

Foram cinco anos de perseguição. Eu tive que decidir se acompanhava o chan, ficando exposta ao ódio, ou se eu ignorava, correndo o risco de ser pega de surpresa em algum ataque. Optei por acompanhar e monitorei tudo. Mandei mensagens e prints à Polícia Federal e fiz onze boletins de ocorrência.

Em 2016, a quadrilha dele mandou um email para o reitor da UFC [Universidade Federal do Ceará, onde ela trabalha como professora] ameaçando um atentado a bomba no campus se eu não fosse exonerada, e aí o reitor 'passaria uma semana recolhendo pedaços de 300 cadáveres'.

Marcelo vinha fazendo ameaças desde 2011, à UnB [Universidade de Brasília], onde estudou, e outras [ele prometia matar o máximo de 'vadias e esquerdistas'].

Finalmente, em maio de 2018, ele foi preso pela Operação Bravata e condenado a 41 anos de prisão por muitos crimes, como pedofilia, racismo, associação criminosa, terrorismo.

Ele foi investigado por terrorismo, que pelo jeito é um crime mais sério do que os outros que estava cometendo

Marília Camelo/UOL Marília Camelo/UOL

Um mês depois de Marcelo ser preso, um dos moderadores do chan disse que ia se matar e recebeu como resposta o que todos eles dizem nessas horas: "Leve a escória junto". Houve uma oferta de vaquinha para ir a Fortaleza me matar e depois cometer suicídio. Mas ele, na verdade, saiu à rua de Penápolis (SP), assediou duas mulheres que ele nunca tinha visto, atirou nas costas de uma delas e se matou. Ela morreu no dia 5 de junho.

A gente diz que eles só ladram, mas não mordem... Cada vez que um atentado desses acontece, vira novo combustível para eles

Os "mascus" cultuam "heróis" que cometem massacres e recrutam rapazes frustrados para cometerem novos massacres. O Dogolachan tinha no cabeçalho a frase "Be a hero" ("seja um herói"), com fotos de atiradores.

Monitorei o chan por quatro anos, quando ele ainda ficava na superfície e qualquer pessoa podia entrar. Migraram para a deep web ou dark net, em setembro do ano passado, justamente depois dessa morte, com medo de serem investigados. E não teve um dia, nesse tempo todo, que eles não fantasiassem com o que fariam se as armas fossem liberadas.

Marília Camelo/UOL

Houve muitos ataques a mim nas eleições, ataques diários. Dizendo que iam me expulsar do país, que eu ia ser morta, ia ser presa, torturada, assim que o [Jair] Bolsonaro ganhasse. Que iam me atirar de helicóptero ou que 'cada voto seja um rato enfiado na vagina de vocês', em uma alusão ao [Coronel Carlos Brilhante] Ustra.

Infelizmente, os misóginos usam do argumento da liberdade de expressão. O Marcelo diz até hoje que foi preso por crime de opinião. Para ele, fazer ameaças terroristas, difamar e caluniar pessoas é opinião. Para mim, é crime. Eles [os 'mascus'] não querem liberdade de expressão, mas de opressão.

Os ataques a mim levaram a deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) a fazer um projeto de lei que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes contra mulheres na internet. Em abril de 2018, a Lei Lola foi sancionada. Pela primeira vez, a palavra "misoginia" apareceu numa lei brasileira.

O fato do Jean Wyllys ter denunciado o Brasil internacionalmente, já que não é comum um deputado sair do país por causa de ameaças, levou a Justiça a reconhecer que, pela primeira vez, a gangue de Marcelo estava envolvida nas ameaças a ele.

A polícia tem que monitorar esses chans, achar os que são realmente terroristas e chegar aos líderes. Ainda não acharam o Goec, por exemplo.

Marília Camelo/UOL Marília Camelo/UOL

Uma das coisas que nós, ativistas, queremos fazer é descobrir se esses caras nos atacam de forma desordenada, via chans, ou se há alguma hierarquia ligada a um 'cabeça'. Se, por exemplo, há uma ligação com políticos que estão no poder e que veem ativistas como seus inimigos.

Não sabemos o quanto a polícia está investigando. Eu entendo que a polícia não possa falar muita coisa, para não prejudicar as investigações, mas ela não fala nada.

A prisão de Marcelo me deixa muito feliz, por ele ser uma pessoa que me atacava todos os dias, que tinha como sua missão na vida me destruir. Mas a quadrilha dele continua solta e precisa ser presa.

Espero que o atentado em Suzano tenha forçado a polícia a tomar algum tipo de atitude quanto à investigação dos misóginos nos chans. Pelo menos é o que eu espero.

Claro que tudo isso traz o risco de trazer mais pessoas perturbadas aos chans, mas não podemos fingir que não existem. Eles não vão desaparecer sozinhos.

Curtiu? Compartilhe.

Topo