Minas hackers

Elas invadem o mercado da tecnologia para mudar o sistema feito por homens

Marcelle Souza Colaboração para o UOL, em São Paulo
Arte/UOL

Ei, garota, já passou pela sua cabeça que as tecnologias não te representam? Talvez você nunca tenha reparado nisso, mas essa inquietação fez com que um grupo de mulheres se reunisse para combater às desigualdades no mundo de hardwares e softwares. Elas chegam para invadir o sistema dominado, desde sempre, por homens brancos e com algum dinheiro.

São as chamadas hackers feministas --ou seriam feministas hackers?

Se vivemos em uma sociedade machista, a tecnologia que ela cria reproduzirá machismo, opressão e exclusão

Karen Ribeiro, professora do Instituto de Computação da Universidade Federal de Mato Grosso

A hacker feminista

Antes que você estranhe, é preciso esclarecer uma coisa. Há dois termos para designar pessoas que conseguem criar e modificar os sistemas computacionais: hackers e  crakers. A diferença é como cada um (ou uma) usa o conhecimento e as ferramentas que possui para alterá-lo. 

Hackers fazem isso de forma legal, sem invasão ou quebra de dispositivos protegidos, enquanto os crackers são vistos como criminosos, porque ignoram possíveis danos a empresas e à sociedade.

Ao usar o termo hacker, então, a ideia dessas mulheres é invadir um espaço bem masculino, o setor de tecnologia, para mudar o jeito com as coisas são feitas e pensadas --não só os espaços virtuais, mas também os reais, de discussão e de ação.

Ser hacker feminista é reprogramar as redes de poder e informação da nossa sociedade para que as conexões humanas sejam mais baseadas em equidade e empatia que em dominação e hegemonia. Eu tento fazer isso por meio da educação e tecnologia

Karen Ribeiro, professora do Instituto de Computação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e coordenadora do Programa Meninas Digitais

Ser hacker é não se contentar com o que lhe é dado e ir atrás de mais conhecimento e inovação. Também pode ser ativista, porque se preocupa com questões éticas, políticas, liberdade de expressão, colaboração e difusão do conhecimento

Mônica Paz, pesquisadora do GIG@ (Grupo de pesquisa em Gênero, Tecnologias Digitais e Cultura da UFBA) e professora do Centro Universitário Estácio da Bahia

Para isso, elas investem, por exemplo, em novos aplicativos e plataformas digitais, capacitam outras mulheres para que, sabendo como a rede funciona, decidam melhor quais dados querem ou não disponibilizar e montam redes para formar e encaminhar profissionais qualificadas para o mercado de trabalho. 

O grande hackeamento é no modo como os produtos tecnológicos são pensados e realizados e como a informação é selecionada e circula.

Com um olhar mais diverso, eles passam a ser concebidos carregando as experiências de quem está de fora do sistema --não só as mulheres, como negros, indígenas, LGBTQ+, populações periféricas e demais grupos excluídos.

O olhar muda tudo: apps para todos

  • Mete a Colher

    497 pessoas, na maioria mulheres, financiaram coletivamente o app que conecta vítimas de violência doméstica e pessoas dispostas a ofereça ajuda. Você deixa um relato, com segurança e privacidade, e outras mulheres ajudam para te tirar de relações abusivas.

  • Homo Driver

    É um app de transporte, como os outros de carona que já existem, mas voltado para a comunidade LGBT+. Funciona para dar mais tranqüilidade e empatia aos passageiros durante as corridas e mais empoderamento os motoristas gays.

  • Black Bird

    "Viajar é uma experiência transformadora, por que não pode ser também inclusiva?" Com esse lema esta plataforma oferece hospedagem e experiências voltadas aos negros, que normalmente são preteridos em sites como Airbnb, por racismo.

Construindo pontes

Caminhar por baias quase que totalmente ocupadas por seres humanos carregados de doses maiores ou menores de machismo não é fácil. As poucas mulheres que se aventuram relatam uma série discriminações, que começam quando não são ouvidas em sala de aula e terminam com a perda de salários e cargos por serem mulheres. Então, diz Iana Chan, jornalista e fundadora da PrograMaria, é preciso olhar para esse ambiente hostil, onde eles chegam ao topo mais rápido e reproduzem uma cultura de discriminação --tanto no local de trabalho e nas relações profissionais quanto na hora de colocar produtos no mercado.

Quer um exemplo? Enquanto eu escrevia este texto, o Word me sinalizava como errado o termo "uma hacker" e mandava eu corrigir para "um hacker".

Além disso, se você, assim como eu, é mulher e está na faixa dos 30 anos, deve ter notado propagandas de roupas ou artigos para bebê nas suas redes sociais. Isso acontece mesmo que você ainda não seja ou não tenha planos de ser mãe, mesmo que não acompanhe páginas sobre o assunto ou mesmo que informe a plataforma de que não tem interesse nesse assunto. É como se os algoritmos dissessem que já está na hora de você ser mãe.

E não sou eu quem está falando isso. As responsáveis pela plataforma Coding Rights resolveram analisar dois tipos de anúncios no Facebook: os que tinham produtos para bebês e os relacionados à palavra "fertilidade". Nas duas pesquisas, ainda que algumas propagandas fossem direcionadas pelos anunciantes para "pessoas", o algoritmo optou mostrá-los majoritariamente para mulheres. E nenhuma propaganda sobre bebês ou fertilidade estava direcionada apenas para homens.

Queríamos desvendar e expor como funciona a fábrica de propaganda direcionada do Facebook. Ou seja, averiguar como os dados que produzimos de graça são matéria-prima para todo um modelo de negócios bilionário que alimenta também estereótipos de gênero, raça e classe

Joana Varon, fundadora e diretora executiva da Coding Rights

Dessa inquietação, ela e mais duas pesquisadoras decidiram criar o Fuzzify.me, uma extensão para navegadores (há versões para Chrome e Firefox) que reúne e explica por que cada anúncio foi parar na sua linha do tempo. E se as explicações incomodarem, a ferramenta te ajuda a fazer uma limpeza das categorias que o Facebook atribui ao seu perfil.

Mudança necessária

Olhar para o ambiente: foi o que fez Camila Achutti quando ainda era uma estudante de ciência da computação na Universidade de São Paulo e percebeu a enorme discriminação que as mulheres sofrem na sua área. Para tentar mudar de alguma forma a realidade, deu um primeiro passo, logo no primeiro dia de aula: criou o blog Mulheres na Computação. 

Desde 2010, ele fala sobre o gap de gênero na tecnologia e hoje virou uma referência. Já ajudou a trazer para o Brasil, por exemplo, o Technovation Challenge Brasil, desafio de empreendedorismo e tecnologia só para garotas.

Ela sonhava em trabalhar na Nasa, mas foi parar num estágio no Google da Califórnia (EUA) assim que terminou a faculdade. E isso mudou tudo.

Perceber que eu era programadora como todos os outros que estavam ali fez com que eu percebesse que poderia ser quem eu quisesse

De volta ao Brasil, viu que "era preciso mudar a realidade da indústria de tecnologia por aqui, tão diferente da que eu tinha visto no Vale do Silício", diz.

O passo seguinte foi a criação de duas startups, a Ponte21 e a Mastertech, que já formaram mais de 5.000 alunos e têm o foco na promoção da diversidade na tecnologia.

Precisamos de mais mulheres na TI [tecnologia da informação] para resolver problemas que não são os mesmos do menino branco do Vale do Silício. Ele, por exemplo, não tem tempo de fazer compra, então faz um app de entrega; não consegue se relacionar, aí faz o Tinder. Precisamos de diversidade para dar vieses mais igualitários à tecnologia

Camila Achutti, fundadora do blog Mulheres na Computação e de duas startups com foco com em inovação e diversidade

E onde estão as mulheres?

  • Educação

    Elas são apenas 15% dos alunos matriculados em cursos de ciência da computação e engenharia, percentual que se repete no mercado de trabalho. As mulheres representam só 17% das programadoras, segundo a Sociedade Brasileira de Computação.

  • Interesse

    74% das meninas manifestam interesse em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. O problema é que apenas 30% das pesquisadoras do mundo são mulheres, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas).

  • Discriminação

    Pesquisa de 2018 feita pelo site de recrutamento Catho com a consultoria UPWIT mostrou que 51% das 1.000 entrevistadas da área relatam discriminação no trabalho por gênero, sendo que 46,6% delas consideram as chances de crescer em suas empresas ruins ou péssimas.

Somos ensinadas desde pequenas a sermos cuidadoras e a servir, ganhamos bonecas e panelas para brincar, enquanto aos homens são reservadas outras expectativas. Durante muito tempo, o computador e o videogame foram objetos para os meninos. Tudo isso cria esse estereótipo tão difundido de que mulher e tecnologia não combinam

Iana Chan

Nem todas são iguais

Se não está fácil para as mulheres brancas e com acesso, imagina para negras, indígenas e garotas da periferia. Segundo estudo feito em 2010 nos Estados Unidos, apenas 10% das mulheres que obtiveram diplomas como engenheiras ou cientistas naquele país eram negras. No mercado, elas ocupavam menos de 1% do total de mulheres empregadas nessa indústria. No Brasil, segundo a PretaLab (iniciativa para capacitar mulheres negras e indígenas para a tecnologia), não há dados precisos sobre o assunto.

Silvana Bahia, diretora de projetos do Olabi e coordenadora do PretaLab, conta que sempre achou que, como negra e periférica, o universo da tecnologia estava distante demais da sua realidade:

Só consegui aprender quando encontrei mulheres com paciência e boa vontade, e aquilo me fez achar que eu era capaz. Isso tem a ver com afeto e acolhimento, mulheres que estão a fim de ensinar, o que é muito revolucionário

Ela ressalta é preciso entender o quanto a tecnologia está associada aos direitos humanos. "Porque nós somos diretamente afetadas por elas", diz.

Programe como uma garota

Se animou? Essa noção cada vez mais óbvia de que é muito mais fácil inovar quando se tem diversidade de gênero, étnico-racial, cultural e social é o que tem movido, portanto, mulheres de distintas áreas do conhecimento a lançar projetos, cursos, incubadoras, startups e hackatons específicos para tentar corrigir as distorções de gênero.

"Essa riqueza traz diferentes perspectivas sobre um mesmo problema e faz com que as soluções 'fora da caixa' apareçam", diz Iana. E há dados que prova isso: estudo da consultoria McKinsey and Co. em doze países mostrou que as empresas com maior diversidade de gênero têm 21% mais chances de apresentar resultados acima da média do mercado. Quando se trata de diversidade cultural e étnica, a vantagem sobe 33%.

  • Programaria

    Trabalha para aumentar o número de mulheres qualificadas na área. As atividades vão desde oficinas de introdução ao desenvolvimento web (algumas orientadas a adolescentes ou pessoas trans) até cursos de programação front-end (HTML, CSS e JavaScript). A atuação em rede faz com que muitas alunas sejam indicadas para vagas de trabalho logo depois da formação.

  • Programa Meninas Digitais

    A Sociedade Brasileira de Computação também criou em 2011 o curso que envolve alunas do ensino fundamental e médio na produção de aplicativos, jogos eletrônicos e projetos de robótica ou eletrônica. O programa hoje está presente em 21 estados e já recebeu mais de 3.000 crianças e adolescentes, sendo 70% meninas.

A pioneira

Se você está lendo esta reportagem na tela de um computador ou de um smartphone, saiba que é graças a uma mulher, a britânica Ada Lovelace, que ainda no século 19 escreveu o primeiro código complexo de programação do mundo.

Ada viveu entre 1815 e 1852 no Reino Unido. Aos 17 anos, conheceu o inventor Charles Babbage, que na época trabalhava em duas máquinas, uma delas era uma espécie de ancestral computador moderno. Anos depois, ele pediu que Ada que traduzisse do francês as anotações do matemático italiano Luigi Federico Menabrea sobre a máquina analítica.

Ada não só fez a tradução, como decidiu acrescentar notas próprias, que descreviam o funcionamento da máquina e elaborou um plano para que ela pudesse executar cálculos, ou seja, criou o primeiro algoritmo.

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