Termômetro Black Mirror

Quão distante estamos do futuro representado na série tecno-paranoica?

Márcio Padrão Do UOL, em São Paulo
Reprodução

"Isso é tão Black Mirror". Esta frase ficou tão clichê, que até quem nunca assistiu a aclamada série de TV de ficção científica já deve ter falado um dia. Mas ela se tornou popular justamente porque resume bem o medo geral que já temos das tecnologias atuais e futuras.

O criador da série, o britânico Charlie Brooker, resume bem o espírito pessimista da atração. "Eu me espanto com aparelhos e me delicio com cada novo aplicativo milagroso. Como um viciado, eu checo meu Twitter no momento em que eu acordo. E muitas vezes me pergunto: tudo isso é realmente bom para mim? Para nós? Se a tecnologia é uma droga, então quais são precisamente os efeitos colaterais?"

Para o bem e para o mal, algumas das invenções incríveis/apavorantes mostradas em "Black Mirror" --que acabou de ganhar seu primeiro filme interativo na Netflix, chamado "Bandersnatch"-- estão longe de acontecer. Outras já estão por aqui, de um jeito ou outro, alimentando debates quentes, como clonagem, classificação social e monitoramento.

Acompanhe neste especial em que nível de tecnologia estamos hoje na comparação com a série, e pergunte a si mesmo: estamos indo longe demais?

Primeira Temporada

  • O que não existe

    Ninguém, na vida real, bolou um plano nesse nível, que envolvesse um crime político com transmissão ao vivo, opinião pública, sexo e arte. Ainda.

  • O que já existe

    O terrorismo, a relação da mídia com a audiência, o grotesco e o sexo, as campanhas em redes sociais e a manipulação da opinião pública... Está tudo aí. Sem contar o Piggate, um boato que rolou em 2015 de que o ex-premiê britânico David Cameron fez gracejo sexual com a cabeça de um porco na juventude.

  • O que não existe

    A força física da população sendo usada como "motor" de geração de energia e de dinheiro em um regime extremamente limitado, quase sem alternativas de crescimento pessoal. Apartamentos tão tecnológicos, com telas cobrindo completamente as paredes.

  • O que já existe

    Bitcoins, reality shows com anônimos, avatares animados em jogos e redes sociais, pornografia online, telas de TV em academias de ginástica. Apps como Heartbit e DietBet, que dão dinheiro ou vantagens a usuários que fazem exercícios. A empresa VirZOOM já criou um óculos de realidade virtual sincronizado com bicicletas ergométricas. O Tik Tok é um app popular que permite trocar e ranquear vídeos musicais com sincronia labial.

  • O que não existe

    Implantes que registram com perfeição todas nossas vivências visuais e auditivas, sem exceções, e que possuem controles capazes de "rebobinar" e rever cenas do passado em detalhes --no próprio olho ou espelhando em uma tela. Os chips que permitem apagar memórias.

  • O que já existe

    Registramos parte de nossas vidas com câmeras de celulares e nas redes sociais. Óculos ligados à web equipados com câmera, como o Google Glass, podem fazer algo parecido com a realidade do episódio. Implantes com dados pessoais são usados em empresas da Rússia (Kaspersky) e Suécia (Epicentre). Theodore Berger, da Universidade do Sul da Califórnia, trabalha em uma prótese para a memória. E a Universidade de Oxford está criando neurotransmissores que ampliarão ou alterarão memórias.

Segunda Temporada

  • O que não existe

    Clonagem humana oficial --ou corpos humanos artificiais perfeitos-- e transferência de consciências para outros sistemas digitais com 100% de exatidão.

  • O que já existe

    Pessoas deixam mensagens em perfis do Facebook de falecidos. Robôs como a Sophia e os chatbots (robôs virtuais para conversas de texto) são versões rudimentares do clone deste episódio. A inteligência artificial de hoje já aprende com as respostas humanas. Um serviço chamado Crystal cria textos personalizados com base em dados de terceiros tirados das redes sociais. O cientista He Jiankui anunciou em 2018 um polêmico nascimento de bebês geneticamente modificados.

  • O que não existe

    Nenhum aparelho atual é capaz de causar amnésia ou hipnose total como a da protagonista. Tortura é oficialmente proibida pelas Nações Unidas, apesar de ainda ser usada extraoficialmente em situações de guerra, combate ao terror ou por ditaduras.

  • O que já existe

    Filmamos e fotografamos tudo (ou quase tudo) com o celular, inclusive momentos antes tidos como inadequados. Selfies em tragédias e enterros já foram alvo de questões éticas. A violência simulada é fator de diversão para muita gente em parques de terror, embora sem exploração violenta real de seres humanos. Alguns experimentos com drogas, como a do neurocientista Karim Nader e da professora Jelena Radulovic, da Universidade Northwestern, conseguiram apagar memórias de ratos.

  • O que não existe

    Apesar de Waldo ter um comportamento "troll" parecido com o de figuras como Donald Trump, personagens fictícios não podem virar presidentes de fato. Mas o eleitor pode votar em figuras fictícias em "voto de protesto", como aconteceu em 1998, quando o macaco Tião, do zoológico do Rio de Janeiro, recebeu mais de 400 mil votos e se deu melhor que muito figurão de Brasília.

  • O que já existe

    Você já pode fazer um emoji animado de si mesmo em celulares como o iPhone XS e o Galaxy S9. A captura de movimentos existe há anos no cinema de ação, com atores humanos virando personagens digitais. Os primeiros shows da banda Gorillaz tinham telões enormes com seus avatares, com a banda real humana atrás da tela. E personalidades midiáticas tendem a ganhar mais votos nas eleições, especialmente as com perfil mais agressivo.

  • O que não existe

    A criação de cópias digitais de consciências humanas ou o implante que dá acesso à visão de outras pessoas em tempo real, e que ainda é capaz de "borrar" pessoas indesejadas.

  • O que já existe

    Assistentes virtuais como a Siri e Alexa já podem ser nossos "amigos" e dar conselhos. O mais perto da tecnologia de "ver pelos olhos dos outros" são os apps de transmissão ao vivo como Periscope e Facebook Live. Olhos biônicos com câmeras, como o Argus II, da empresa Second Sight, também vêm sendo testados.

Terceira Temporada

  • O que não existe

    Implante ocular de realidade aumentada que mostra a classificação das pessoas via reconhecimento de face, em tempo real. Embora popularidade e recomendação online às vezes ajudem os "influenciadores digitais" do Instagram e YouTube em situações específicas, você ainda não é barrado ou deixa de ter acesso a certos serviços e produtos por conta desses critérios.

  • O que já existe

    Quem usa a Instagram e o Uber já viu: classificamos pessoas, propagamos estilos de vida perfeito e admiramos quem tem muitos seguidores. A China planeja para 2020 um "sistema de crédito social" que conecte crédito financeiro, social, político e jurídico dos cidadãos a partir de um índice único. Ah, e empresas de tecnologia já adotam tecnologia de reconhecimento de rostos há algum tempo.

  • O que não existe

    Games ainda são jogados em aparelhos externos mesmo, nada de implantes. E a realidade das partidas ainda tem limites.

  • O que já existe

    Sensores de movimento (como o falecido Kinect), e óculos de realidade virtual e realidade aumentada como Oculus Rift e Hololens já ampliaram a experiência em jogos. E o "Pokémon Go" se tornou um popular exemplo de jogo de realidade aumentada para as massas.

  • O que não existe

    Ainda não tivemos notícia de chantagem hacker orquestrada que tenha promovido especificamente assalto a banco e assassinatos. Mas em 2014, Cristian Antonio Pereira foi preso por hackear perfis de mulheres e, com chantagem, obrigá-las a fazer sexo real ou virtual com ele.

  • O que já existe

    Todos os recursos técnicos já existem. Drones, acompanhamento do celular por GPS, programa anti-malware que esconde vírus e, principalmente, vingança pornô, chantagem e acesso à sua webcam. Tudo dependeria de como articular isso para criar a situação vista no episódio.

  • O que não existe

    Imersão completa em uma realidade virtual para idosos, que permite viagens no tempo e uma vida paralela com encontros com pessoas do mundo real.

  • O que já existe

    Mundos virtuais e abertos existem aos montes com algum grau de veracidade, mas só em games e filmes, além de simulações cartunescas como "The Sims" e "Second Life". O roteiro do episódio se baseou em uma experiência real, vista no documentário da BBC "The Young Ones", que por sua vez retratou um experimento psicológico em que idosos viveram em uma casa redecorada como nos anos 60.

  • O que não existe

    Até onde sabemos, uma tecnologia militar com implantes que muda o que os soldados veem, ouvem e sonham para tornar os horrores da guerra mais toleráveis, além do "upload" mental de dados técnicos e hologramas.

  • O que já existe

    A Microsoft vai fornecer para o Exército dos EUA óculos de realidade aumentada para melhorar a letalidade de soldados, ampliando a habilidade de detectar, decidir e entrar em combate antes do inimigo. O dispositivo possui uma tela em forma de lente que mostra imagens e informações sobrepostas ao campo de visão. Também temos hoje massacres étnicos, como o de 2018 contra os muçulmanos de Mianmar, além de discurso de ódio e preconceito contra minorias em todo o mundo.

  • O que não existe

    Um programa oficial de microdrones controlados por empresas e governos para fins diversos, como a substituição das abelhas extintas e a vigilância da população. Extermínio de pessoas, usando drones microscópicos, associados a participação popular via redes sociais.

  • O que já existe

    Quem entra na internet todo dia sabe: "haters" existem há anos. Movimentos coletivos de amor e ódio nas redes sociais também. Já existem abelhas-robôs sendo testadas pela rede varejista Walmart. Também há outros testes de insetos-robôs como o RoboRoach, do neurocientista Greg Gage, ou o RoboFly, da Universidade de Washington. O PD-100 Black Hornet já é um pequeno drone do gênero usado para fins militares, embora com 10 cm ele é bem maior que a abelha do episódio.

Quarta Temporada

  • O que não existe

    Como falamos acima, games ainda não usam receptores neurais. E estamos um pouco longe de usar DNA humano para criar personagens digitais.

  • O que já existe

    Uma empresa chamada Human Longevity pesquisa uma sistema que usa amostras de DNA para obter imagens faciais 3D, amostras de voz, cor de olhos e pele, idade, altura e peso. Decifrar isso pode nos levar a avatares mais reais.

  • O que não existe

    Nenhum implante dá esse poder de controle sobre uma pessoa, ainda bem.

  • O que já existe

    Pulseiras com GPS e apps que monitoram a saúde e a nossa localização são algo próximo do que vimos no tablet da mãe. Óculos como o citado Google Glass poderiam teoricamente reproduzir o ponto de vista das pessoas. Em 2011, pesquisadores da Universidade de Berkeley criaram um recurso que esboça a visão de uma pessoa ao medir sua atividade cerebral.

  • O que não existe

    Leitores de pensamentos com precisão absoluta. Uma lei que obriga pessoas a serem interrogadas se tiverem testemunhado acidentes.

  • O que já existe

    Carros autônomos são vistos de relance no episódio. Na vida real, eles já estão em fase experimental, como os da Uber e da Waymo (do mesmo grupo do Google, a Alphabet) e há alguns que até entregam pizza, como um protótipo criado em uma parceria da Pizza Hut com a Toyota. Há muitas empresas interessadas em avançar nesta área.

  • O que não existe

    Um app com este grau de inteligência ao combinar pretendentes a um namoro e avaliar, prever o futuro e a duração de cada relacionamento amoroso.

  • O que já existe

    Se você lembrou do Tinder e apps afins, acertou. Eles ajudam bastante a achar "crushes", mas, claro, nem sempre acertam. Tampouco são capazes de criar simulações estilo videogame ou determinar o tempo exato da relação. Mas os algoritmos tendem a ficar cada vez mais precisos e é possível que cheguemos no ponto de eles saberem mais sobre nós que nós mesmos.

  • O que não existe

    Cães-guardas robóticos que se voltaram contra os humanos. Monitoramento total.

  • O que já existe

    O robô militar BigDog, da Boston Dynamics, é bem parecido com o retratado, especialmente no visual. O projeto foi encerrado, mas o conceito já se provou minimamente viável e a Boston continua testando outros robôs quadrúpedes, como o SpotMini, capaz de abrir portas. Dispositivos de rastreamento também já existem, embora não sejam usados como no episódio.

  • O que não existe

    Um sistema para medir a dor do outro, transferência de consciência de um cérebro a outro (ou para objetos inanimados) e holografia da consciência de alguém.

  • O que já existe

    O médico brasileiro Felipe Reitz desenvolveu em 2017 um equipamento capaz de dar aos profissionais um mapa e uma escala que classifica o tamanho da dor do paciente. Outro neurocientista, Greg Gage (já citado neste especial), criou um kit que controla o braço de outra pessoa remotamente. Holografia já existe, mas de forma bem mais simplificada, como a testada no festival de música Coachella com a imagem do rapper Tupac Shakur, em 2012.

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