De olho na segurança

'Milhares viram, em 70 países, as imagens das câmeras de segurança de minha casa sem que eu soubesse'

  • Rivaldo Gomes/Folhapress

Quando Alan e sua mulher, Jean, se mudaram para uma casa em Leeds, no norte da Inglaterra, decidiram instalar câmeras de segurança para sentirem-se mais protegidos.

O local já tinha equipamentos de videovigilância, mas eles quiseram reforçá-lo. "Pouco antes de virmos para cá, alguém entrou e roubou uma bicicleta, então, pensei que seria uma boa ideia colocar mais câmeras", contou Alan à BBC.

Foram instalados dois novos aparelhos na área externa, de qualidade melhor que os anteriores e que permitiam ver com mais detalhes o que ocorria. No total, Alan e Jean têm sete câmeras em sua casa, todas elas com acesso remoto, ou seja, é possível ver suas imagens à distância.

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Mas o casal nunca imaginou que não só eles, mas milhares de pessoas de diferentes partes do mundo podiam observar pela internet o que era gravado.

Gravação na nuvem

Jean conta que não se sentia ameaçada por algum perigo em particular e não via tanta necessidade de instalar mais câmeras, mas não fez objeção à proposta do marido.

"Deixei que ele fizesse como queria, mas, após algumas semanas, fiquei sozinha em casa e pensei: 'Bem, isso até que não é ruim", disse ela.

Reprodução/BBC
Alan e Jean tinham sete câmeras 'inteligentes' em sua casa em Leeds, na Inglaterra

As câmeras inteligentes escolhidas por Alan tinham, além da captação eletrônica de imagens, um processador para tratar os vídeos gravados e conexão com a internet, através da rede wi-fi da casa.

Isso permite não só assistir às imagens pelo celular, mas também mantê-las armazenadas na nuvem, ou seja, uma empresa guarda esses dados em seus servidores, por dias ou até mesmo meses.

Pelo aplicativo no telefone, Alan e Jean também podiam ativar e desativar os aparelhos e receber alertas caso fosse detectado algo fora do comum.

Sistema de busca

Mas esses sistemas também podem ser invadidos por hackers - e fazer isso é "muito fácil", explicam especialistas da empresa de segurança digital Kaspersky Lab.

"O acesso às câmeras é feito por meio de uma interface online, em outras palavras, cada câmera tem sua própria minipágina na internet. Essa interface pode ter um sistema de controle para mudar o ângulo das imagens, aproximá-las e distanciá-las e habilitar o som. Em outros casos, é apenas uma transmissão online, sem interrupção, com as imagens sendo constantemente atualizadas, como uma transmissão de TV."

O problema é que existem "sistema de busca especializados", explicam os especialistas, como Shodan e Censys, capazes de "encontrar com facilidade essas 'páginas na web' e 'transmissões'".

O especialista em segurança Cal Leeming já foi um dos hackers mais jovens do Reino Unido, quando tinha 12 anos, e passou a última década criando empresas no Vale do Silício, nos Estados Unidos, desenvolvendo soluções de cibersegurança.

Ele examinou o sistema de câmeras de Alan e Jean como parte de uma investigação exclusiva da BBC para saber quantas vezes as imagens registradas foram vistas por outras pessoas. O resultado é assustador.

Desde 2015, as gravações foram assistidas cerca de 5 mil vezes em 70 países. "É bastante... Incrível, não?", disse Alan. "Meu Deus", exclamou Jean.

O dia a dia deles foi visto em países tão distintos quanto Espanha, Itália, França, Marrocos, Egito, Turquia, Ucrânia, Rússia e Azerbaijão. Estranhos assistiram a um total de 366 horas, segundo Leeming. A sessão mais longa ocorreu na França: foram nove horas seguidas.

"Acredito que isso, sem dúvida, nos fez perceber que precisamos ter muito mais controle sobre isso, começando por senhas melhores. É meu próximo projeto", disse Alan.

"Alan, você está demitido", retrucou Jean, antes de cair na risada.


O que fazer para minimizar os riscos de um sistema de videovigilância?

  1. Atualize o firmware - o programa que rege o funcionamento dos equipamentos - com regularidade.
  2. Use senhas seguras (e as mude com frequência).
  3. Desative as funções que não usará, sobretudo se são serviços de nuvem
  4. Habilite um acesso https, que é mais seguro, à câmera.
  5. Configure seu roteador doméstico para isolar sua rede interna do mundo externo.

Fonte: Kapersky Lab

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