Facebook sabia que dados poderiam ser vendidos, diz Aleksandr Kogan

Do UOL, em São Paulo

  • CBS

    Aleksandr Kogan, cientista que coletou dados de usuários do Facebook

    Aleksandr Kogan, cientista que coletou dados de usuários do Facebook

Desde que o escândalo envolvendo o uso indevido dos dados de mais de 87 milhões de usuários do Facebook passou a fazer parte do noticiário mundial, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, tem sido o principal alvo de críticas e de investigações.

No entanto, a história não envolveu apenas o presidente-executivo da rede social. Aleksandr Kogan, professor da Universidade de Cambrigde, está diretamente ligado ao escândalo e decidiu quebrar o silêncio.

Foi ele quem criou o aplicativo "thisisyourdigitallife", teste de personalidade que coletou informações pessoais de usuários e indevidamente de seus amigos no Facebook. As informações foram posteriormente usadas nas eleições americanas e na campanha do Reino Unido para sair da União Europeia. 

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Em entrevista aos sites BuzzFeed e ao programa 60 Minutes (da CBS) neste domingo (22), o cientista de dados pediu desculpas, mas ressaltou que a coleta de dados não infringiu as regras do Facebook. Segundo ele, a empresa estava ciente de todo o processo de que os dados seriam para fins comefciais

Além disso, o pesquisador disse não acreditar que suas práticas tenham realmente influenciado eleições como a de Donald Trump.

Confira a seguir os destaques das entrevistas:

Não roubei os dados de ninguém

O aplicativo de teste de personalidade desenvolvido por Aleksandr Kogan fazia parte de uma pesquisa acadêmica. Durante o processo, o cientista foi contratado pela Cambridge Analytica e passou a fornecer os dados coletados para a empresa.

Alguns usuários aceitaram participar do estudo e foram pagos para interagir com o teste. No entanto, o aplicativo também passou a armazenar informações sem autorização expressa de todos os amigos dos usuários participantes da rede social.

Segundo Kogan, todo o processo estava de acordo com as normas do Facebook e que os temos de serviço do aplicativo (aquele documento com as regras do site) dizia que as informações podiam ser usadas para fins comerciais— só que parece ninguém que ninguém se preocupou com isso.

Por conta disso, ele acredita que a ideia de que ele roubou as informações dos usuários é "tecnicamente incorreta".

"Esta é a parte frustrante, onde o Facebook claramente nunca se importou. Quero dizer, nunca é aplicado este acordo. Eu tinha um termo de serviço que estava lá por um ano e meio que dizia que eu poderia transferir e vender os dados", afirmou ao programa 60 Minutes. "Nunca ouvi uma palavra."

Desde que o caso explodiu, o Facebook vem afirmando que tanto os participantes do teste como o próprio Facebook foram informados de que os dados seriam usados apenas para fins acadêmicos.

Proximidade com o Facebook

Outro ponto abordado durante as duas entrevistas foi a proximidade de Kogan com o Facebook.

O cientista de dados contou que fez várias visitas desde 2013 e trabalhou como consultor remunerado do Facebook em novembro 2015, chegando até a dar palestras sobre psicologia comportamental para funcionários da empresa.

"Eu visitei o campus deles muitas vezes. Eles contrataram meus alunos. Eu até fiz um projeto de consultoria com o Facebook em novembro de 2015. E o que eu estava ensinando foram lições que aprendi trabalhando com esse conjunto de dados. Nós coletamos para o Cambridge Analytica, então eu estava explicando, tipo, 'aqui está o que fizemos e aqui está o que aprendemos. E aqui está como você pode aplicá-lo internamente para ajudá-lo com pesquisas e previsões de pesquisas e coisas do tipo'", detalhou ao programa 60 Minutes.

O Facebook, em resposta ao relato de Kogan, confirmou que o cientista de dados trabalhou por um período na empresa, mas destacou que a rede social não estava ciente das atividades do pesquisador envolvendo a Cambrigde Analytica.

O professor deve testemunhar em uma comissão parlamentar britânica nesta semana para dar esclarecimentos sobre o caso e estuda processar o Facebook por difamação. O argumento é de que o Facebook o acusa de ter agido de forma antiética.

As pessoas acordaram

Durante sua entrevista ao site BuzzFeed, o professor afirmou que os dados coletados via aplicativo fazem parte de uma questão muito maior.

Para ele, a Cambridge Analytica já possuía modelos avançados de previsão de comportamentos e deu a entender que não foi apenas o seu trabalho o único responsável por influenciar pessoas durante as eleições como a de Donald Trump.

"As pessoas só estão preocupadas agora com a história porque acham que isso pode ter mudado as eleições ou que elas podem ser controladas pela mente. E isso não é uma preocupação real", explicou.

O cientista acredita que o caso tem ganhando mais repercussão, pois as "pessoas acordaram" agora para questões ligadas à privacidade e o quanto os seus dados podem ser usados e divulgados sem a devida autorização.

Apesar disso, Kogan confirmou em outro momento da entrevista que sabia que o seu trabalho seria usado para criar estratégias durante eleições. "Eu sabia que seria para as eleições [...]E eu tinha um entendimento ou um sentimento de que seria para o lado republicano", disse.

Muitos fazem o mesmo

Em sua entrevista à CBS, Kogan destacou que a narrativa do Facebook em fazer todos acreditarem que este caso é único e de que o seu aplicativo é que era desonesto está errada e ele está sendo prejudicado por isso.

Segundo o cientista, casos assim são mais comuns do que se pensam e devem existir "dezenas de milhares" de desenvolvedores que coletaram dados da maneira que ele fez.

Arrependimento

Kogan demonstrou estar arrependido durante suas entrevistas, mas não de sua pesquisa e sim por ter subestimado as pessoas.

O pensamento lá no começo da história era de que ninguém realmente se importava se os dados seriam usados e compartilhados, já que as regras estavam expostas no termo de serviço do aplicativo, segundo ele. Mas agora o pesquisador parece ter mudado de opinião.

"Eu acho que a ideia central que tivemos [de que todo mundo sabe que seus dados são compartilhados e ninguém se importa] - foi fundamentalmente falha. E assim, se essa ideia está errada, então o que fizemos não estava certo e não foi sábio. E por isso, eu sinceramente sinto muito", afirmou ao programa 60 Minutes.

"A crença no Vale do Silício [local que abriga as maiores empresas de tecnologia do mundo] e certamente nossa crença nesse ponto é que o público em geral deve estar ciente de que seus dados estão sendo vendidos e compartilhados e usados para anúncios", acrescentou Kogan.

Getty Images

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