Conexão na lama

A saga de um casal pelos dados da família desaparecida em Brumadinho (MG)

Helton Simões Gomes Do UOL, em São Paulo

Vagner Diniz e Helena Taliberti estavam felizes. Descobriram havia pouco mais de uma semana que seriam avós de primeira viagem de um menino chamado Lorenzo. O filho deles, o arquiteto Luiz Taliberti, e a nora, Fernanda Damian, vieram da Austrália, onde moravam há quatro anos, apenas para revelar o sexo do bebê.

Nem Fernanda, grávida de cinco meses, sabia que esperava um menino.

Era uma ocasião especial para todos nós

Como estavam no Brasil depois de 2 anos longe, Fernanda e Luiz aproveitaram para viajar pelo país. Ficaram uma semana em Florianópolis (SC), com Vagner e Helena, foram a Brumadinho (MG), onde visitariam Inhotim, museu ao céu aberto que Luiz sonhava conhecer, e, de lá, partiriam para Tiradentes.

Mas Luiz não chegou a ver as obras de artistas como Tunga e Cildo Meireles nem o centro velho da cidadezinha histórica mineira. O passeio foi interrompido por 13 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos de minério de ferro que escorreram após o rompimento da barragem da Vale.

É neste momento que começa a saga de Vagner, Helena e Joel Justino de Almeida, pai de Fernanda, pelos dados que poderiam ajudar a localizá-los.

A última pista

Antes de chegarem a Minas, Fernanda visitou os pais em Curitiba (PR) e Luiz voltou a São Paulo para encontrar o pai biológico, Adriano Ribeiro da Silva, e a esposa dele, Maria de Lurdes Bueno. Os três seguiram juntos para Brumadinho (MG) com Camila Taliberti, filha de Adriano e Helena, mas criada por ela e Vagner. Chegaram na quinta-feira (24).

Fernanda se juntou a eles na sexta-feira (25). Quando estivessem todos juntos, partiriam para Inhotim. Às 10h, ela avisou o pai que estava no aeroporto de Belo Horizonte (MG), esperando Luiz e Adriano para irem a Brumadinho, a cerca de 60 km dali.

Às 11h50, Camila enviou pelo WhatsApp uma foto para o namorado da Pousada Nova Estância, onde a família estava hospedada.

Muito gostoso aqui! Já tomamos um solzinho enquanto a cunhada não chega

Por volta das 12h, a barragem da Vale Mina Córrego do Feijão se rompeu. Às 12h18, Adriano consultou pela última vez o Facebook Messenger, app de bate-papo da rede social.

Foi a última conexão feita por qualquer um deles.

A saga pela localização

Todos os dados de conexão citados foram reunidos pelos familiares para reconstruir os últimos passos dos cinco antes da tragédia e fazem parte de uma petição enviada à Justiça no sábado (26). 

Com isso, os advogados esperavam convencer os magistrados de que o grupo estava na região e as operadoras deveriam liberar os sinais dos celulares para que pudessem ser localizados e resgatados.

Neste mesmo dia, a Justiça Federal de Minas havia obrigado, a pedido da Advocacia Geral da União, que as operadoras passassem dados de clientes às autoridades envolvidas nas buscas. Mas os advogados avaliaram que essas informações seriam amplas demais, por abrangerem todos os moradores de Brumadinho. Eles queriam dados mais precisos.

O casal também acionou o Google, empresa responsável pelo Android, sistema usado nos celulares dos dois filhos e que costuma colher a geolocalização de seus usuários.

Os dados chegaram 72 horas e 96 horas, respectivamente, após a lama avançar, mas não puderam ajudar Luiz, que foi encontrado pelas equipes de resgate, sem vida, na madrugada desta quarta-feira (30).

Enquanto eu tiver esperança e uma luz que diga que eles ainda podem estar vivos, eu vou ficar...

Vagner Diniz

Tecnologia na veia, há 40 anos

A agilidade de Vagner em recorrer à Justiça para acionar as empresas de telecomunicação e tecnologia e obter informações tem um motivo: ele manja muito de processamento de dados e trabalha há 40 anos em empresas do ramo.

Hoje, é gerente do núcleo de pesquisas do NIC.br, entidade sem fins lucrativos que exerce papel crucial na internet brasileira, desde registrar domínios de páginas na web até distribuir endereços de IP. Também lidera o escritório brasileiro da W3C, organização internacional que coordena alguns protocolos que mantém a web de pé.

É especialista no uso de tecnologia para melhorar políticas públicas e sabe bem o poder que serviços conectados têm --e que, em emergências, como o rompimento da barragem de Brumadinho, não foi usado como poderia ter sido.

Faltou proatividade das empresas responsáveis pelos serviços, defende ele:

"Sem medidas judiciais, você não consegue... O que é o maior absurdo, porque estamos falando de vidas. As operadoras deveriam fazer isso voluntariamente, mas tivemos que entrar na Justiça".

É muito difícil pensar, porque eu estou pessoalmente envolvido, mas seria preciso que as empresas tivessem maior urgência. É a chance de salvar vidas ou de proteger a pessoa humana. Minutos e horas são extremamente importantes

Vagner Diniz

O rastreamento do celular é uma medida bastante interessante para tentar mapear o local onde estariam os últimos sinais que as antenas pegaram. Nosso interesse é que as buscas foquem regiões onde exista evidência de que há pessoas

Vagner Diniz

Só que a Justiça não colaborou, e uma decisão favorável só saiu na segunda-feira (28).

Em nota enviada após a publicação do texto, a Associação de Juízes de Minas Gerais (Ajufemg) afirma que passou as informações requeridas pela família ainda no sábado, mas ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, órgão que já havia recebido dados das operadoras. A família de Vagner teve de fazer uma nova petição, enviada no domingo e reencaminhara na segunda, para que os dados fossem enviados a ela.

Quando os dados chegaram, eles não diziam muita coisa. Segundo Vagner, a Vivo informou que os celulares de Adriano, Maria de Lurdes e Fernanda foram identificados na região, mas que só existe uma antena da operadora por lá, o que torna difícil fazer uma triangulação para obter uma localização mais precisa. Já a Claro informou não ter identificado registros dos celulares de Camila e Luiz.

Isso é um absurdo, porque ela mandou uma mensagem para o namorado, e ele a recebeu

Limites constitucionais

Procuradas pelo UOL Tecnologia, as duas empresas preferiram enviar um comunicado conjunto, por meio do Sinditelebrasil, sindicato das operadoras de telefonia. A entidade diz que as companhias colaboraram com as autoridades desde sexta e estão em contato com o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência.

Alegam ainda que só poderiam enviar os dados de clientes após uma decisão da Justiça:

"O fornecimento de informações de seus clientes, pela legislação, representa quebra de sigilo e só pode ser feito mediante ordem judicial, como estabelece o artigo 5 da Constituição Federal, e é a Justiça quem determina para quem as informações devem ser entregues."

Vagner acredita, porém, que uma tragédia da dimensão da que ocorreu em Brumadinho é motivo suficiente para que as empresas que podem ajudar passem por cima do que ele chama de "burocracia".

As empresas deveriam ter mais coragem de tomar iniciativa e liberar informações, dados e tudo que elas têm, porque o principal ativo das empresas de tecnologia são as informações. E fazer isso antes de ficar pensando na lei. Qualquer problema, se defende... porque estaria tentando salvar vidas

Vagner Diniz

Ok, Google

Em seguida, na segunda-feira (28), Vagner, Helena e Joel aproveitaram a ação da AGU, que conseguiu na Justiça que o Google fosse obrigado a ceder detalhes da localização de pessoas na região, para pedir que a empresa informasse a geolocalização dos celulares de Camila, Luiz e Adriano.

Quando a resposta saiu, na terça, descobriram que os aparelhos estavam com o compartilhamento de geolocalização desabilitado.

"O Google lamenta o ocorrido em Brumadinho e informa que está colaborando com as autoridades desde o primeiro momento em que fomos contatados, fornecendo todas as informações que possam auxiliar na localização das vítimas", diz a empresa.

Tecnologia e poder

É difícil pensar que, se eles tivessem ajudado rapidamente, teria mudado a situação, que meus filhos já teriam sido achados e resgatados

Vagner diz que não culpa as empresas de tecnologia por nada, mas se ressente por saber que elas poderiam ter feito muito mais usando alguma forma de rastreamento.

E não apenas as empresas de tecnologia. As montadoras hoje costumam vender muitos carros com GPS de fábrica: "Mas não vi nenhuma montadora se prontificando a fornecer dados de veículos e carros que estavam naquele momento do acidente. Isso seria muito relevante."

Resta agora, acredita ele, usar a tecnologia para, pelo menos, manter as famílias informadas.

A melhor coisa da tecnologia é dar informação, e aqui há um monte de gente que perdeu casas e entes queridos e não sabe o que fazer daqui para frente. A informação deveria ser igual para todo mundo, sem precisar de acesso a pessoas especiais.

Mas, diz ele, isso não está sendo feito durante a catástrofe de Brumadinho.

É isso que me dá desespero. Eu fico indignado. Se já não é justo para mim, é muito menos justo com essas pessoas que estão aqui

*algumas horas depois da publicação deste texto, os corpos de Camila e Adriano foram encontrados. O corpo de Fernanda, que estava grávida, foi identificado entre os dias 17 e 18 de fevereiro.

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