Como a Microsoft planeja voltar ao topo do mundo tecnológico

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

  • Charles Platiau/Reuters

    Menos Windows, mais inteligência artificial: as armas da Microsoft para o futuro

    Menos Windows, mais inteligência artificial: as armas da Microsoft para o futuro

É bem provável que você tenha vivido a primeira era da computação pessoal, com PCs e laptops, e certamente desfruta da segunda, dominada por smartphones, tablets e dispositivos híbridos. Mas uma terceira era começa a se desenhar com múltiplos aparelhos, sistemas conectados entre si e serviços de inteligência artificial e de computação em nuvem. E uma velha conhecida pretende brigar para voltar ao topo nesse novo mundo: a Microsoft.

Na era dos PCs, o Windows fez da Microsoft uma gigante - mais de 90% dos computadores do mundo rodavam sistema - e parecia que a companhia estava pronta para ser uma gigante também no mundo móvel. Ela só não contava com o surgimento de um celular revolucionário, o iPhone, e um sistema operacional aberto e versátil, o Android. 

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Algumas das reações da companhia a essas novidades foram tardias, como o lançamento do sistema Windows Phone e a compra da Nokia, o que fez com que sobrasse para a turma de Bill Gates apenas um papel coadjuvante no mundo dos celulares. 

Só que o mundo da tecnologia está à beira de um novo ciclo, protagonizado por uma harmonia entre inteligência artificial, computação em nuvem, reconhecimento de voz e aparelhos inteligentes e interconectados. É nessa nova geração que a Microsoft quer voltar a brilhar. 

O futuro inteligente da nuvem

Você talvez ainda não saiba disso, mas o celular e o computador já não são as únicas formas palpáveis de processar dados e te deixar conectado.

Com a computação em nuvem, já somos capazes --e seremos cada vez mais-- de não apenas guardar um grande volume de dados, mas também trabalhar com programas e soluções mais avançadas. E o melhor: sem precisar de máquinas superpotentes e com grande memória. Basta login e senha em qualquer PC, celular ou qualquer outra engenhoca com internet. A Azure, plataforma de nuvem da Microsoft, já é a segunda maior do mercado, sendo a AWS da Amazon a líder, segundo a consultoria Canalys.

Um bom serviço de nuvem também é necessário para suportar inteligência artificial (IA), outro alvo da Microsoft. Com ela, computadores poderão prever, "pensar" e auxiliar com nossos hábitos e problemas --pense nos robôs do Google que fazem ligações telefônicas.

Como a Microsoft se encaixa nisso? Se você viu os recentes anúncios na última conferência Build, no começo de maio, deve ter sentido que essas inovações já estão no radar deles. Em vez de muitas novidades para o Windows e para Office, mostraram soluções com IA como drones com câmeras que detectam sozinhos rachaduras nos canos das fábricas. Ou reuniões com transcrição em tempo real das falas dos participantes em texto.

Divulgação
Bill Gates, cofundador da Microsoft, o atual executivo-chefe da empresa, Satya Nadella (centro), e de Steve Ballmer, antecessor de Nadella no cargo

Voz

Uma inteligência artificial potente garante que assistentes de voz se tornem cada vez mais avançadas - o segmento vem sendo apontado como um dos principais do novo mundo tecnológico. E para isso, a Microsoft também apresenta sua arma: a Cortana.

Embora ainda pouco difundida segundo levantamento do site especializado "Voicebot" (teria preferência de apenas 3,5% do mercado global), a Cortana apresenta resultados animadores: foi considerada a segunda assistente mais esperta, com cerca de 90% de acertos.

Além disso, a assistente virtual é compatível com diversas plataformas - vem de fábrica no Windows 10 e é ainda um app para Android e iOS. Isso sem contar a integração com a Alexa, a assistente da Amazon.

Em todo lugar

As assistentes de voz ilustram um dos grandes desafios das gigantes da tecnologia na atualidade: romper as fronteiras dos rivais e estar no maior número de plataformas possíveis Ao UOL Tecnologia, o brasileiro Mário Queiroz, líder da área global de produtos do Google, deu uma dica sobre o motivo disso ser importante. 

Eu acho que é inevitável que em menos de dez anos, ou talvez em menos de cinco, o celular não tenha mais esse formato que tem hoje 

Mário Queiroz, líder da área global de produtos do Google

Ou seja, o dispositivo que você utiliza, seja ele um telefone, um fone de ouvido futurístico ou um super microchip implantado, importará menos do que o conteúdo e a inteligência artificial que estará pairando na nuvem. 

Ao tornar todos os seus produtos, como Cortana e o Office, compatíveis com o maior número de plataformas possíveis, a Microsoft garante que existe um largo mundo a ser explorado. Veja só: atualmente, há 600 milhões de dispositivos com Windows 10 - pouco se comparados aos números do Android e do iOS. 

Existem hoje 2 bilhões de aparelhos com Android e 1,3 bilhão com o iOS, segundo a consultoria IDC. Ou seja, a Microsoft enxerga um mundo de 3,3 bilhões de dispositivos que podem ser explorados. Na última Build, a estratégia com o Windows foi mostrar que o sistema está se tornando cada vez mais aberto, conversando também com qualquer dispositivo. 

Algumas das novidades foram a Your Phone, que permitem gerenciar e ver notificações dos celulares a partir do computador --algo que outros apps de terceiros já fazem há algum tempo-- e o Sets, um sistema de abas universal que abrange todos os aplicativos no seu computador.

Divulgação
O Windows não morreu, mas terá que se ajustar à nova era da computação pessoal

Novo time

A postura é bem diferente de quando Bill Gates e seu sucessor, Steve Ballmer, mandavam na empresa - o Windows era claramente o carro-chefe. Tudo mudou com o novo executivo-chefe, Satya Nadella.

O indiano criou duas novas equipes: uma para cuidar de "plataformas", incluindo aí o programa Windows, e outra chamada "IA + pesquisa", que como diz o nome, experimentará novos produtos nesse perfil "inteligente". 

Antes disso, ele adquiriu 18 outras empresas que atuam em IA, o que faz da empresa uma das "donas" da inteligência artificial do mundo. O novo time conta com 8.000 engenheiros e cientistas. 

A Microsoft está na corrida armamentista da IA, mas não é a líder. Como todos os jogadores, em breve será necessário considerar como lucrar com seu investimento em IA

Ben Stanton, analista da Canalys.

E o Windows? Morreu?

Calma lá! Tudo isso não quer dizer que a morte do Windows foi decretada. Sua versão mais recente, o 10, ainda é o sistema operacional mais usado do mundo --81,73%, segundo a empresa de tráfego da web "Statcounter". A empresa também atua desde 2012 no mercado de híbridos com o Surface, embora esteja tentando até agora sair do nicho e enfrentar as vendas maiores dos iPads.

Só que até o clássico sistema terá que se ajustar ao novo mundo tecnológico. Roberto Prado, diretor de nuvem da Microsoft Brasil, contou ao UOL Tecnologia que o Windows vai ter que mudar em função dos planos maiores para IA e computação em nuvem.

"O Windows continua a ser uma prioridade para a Microsoft em meio a um contexto em que continuamos a criar inovações para novos cenários e dispositivos e no qual o sistema operacional se conecta ainda mais profundamente às ofertas do Microsoft 365 (conjunto de aplicativos online para escritórios)", explica Prado.

Em resumo, a Microsoft parece em um caminho sem volta em aposentar o Windows como o sistema operacional fixo, que pouco se ajustava ao mundo ao qual pertencia.

"Se olharmos 20, 25 anos atrás, os PCs era o único aparelho de produtividade, acesso à internet e nos habilitava à tecnologia de nossas vidas. A tecnologia avançou dramaticamente para além dos dispositivos", diz Annette Zimmermann, vice-presidente de pesquisas do Gartner.

Assim, com pouco Windows, mais inteligência artificial e muito esforço para estar em todo o lugar, a Microsoft parece pronta para reviver seus dias de glória. Falta só combinar com as pessoas. 

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